SEXUALIDADE e INCONSCIENTE: COMPILAÇÃO E COMENTÁRIOS (Aula 2)

*Compilação produzida pelo Prof. Amancio Borges das aulas ministradas pelo Prof. Dr. Guilherme Massara, na disciplina “Sexualidade e Inconsciente”, do curso de Doutoramente em Psicologia pela FAFICH\UFMG,  no primeiro semestre de 2015.

Segunda Aula: 13 de Março de 2015

Se, para Laplanche, existe uma sexualização da ou na pulsão de morte, para Lacan, toda pulsão é, preliminarmente, pulsão de morte.

Alenka Zupančič (2008) compreende que distorções subjetivas não são distorções de alguma coisa que é objetivamente outra, são distorções no lugar de alguma coisa que não é. Se uma estrutura deve ter-se como estável, certa hiância da estrutura[1], não como déficit, defeito ou sintoma imediatamente decorrentes, mas como propriedade de indeterminação produtiva, deveria ter lugar, pois pode conduzir a um ato clínico advertido para o ponto de fuga das classificações. Uma negatividade produtiva, com potencial para localizar a repetição e o real em toda sua importância para o tratamento.

Essa indeterminação, seja de um marco ontológico para a diferença sexual, seja para a definição de estrutura em sentido mais amplo, estrutura subjetiva, pode provocar sintomas, mas não ao modo de um automatismo reflexo, e sim, admitindo a conformação da estrutura a uma forma indispensável, exterior, que realoca o narcisismo.

Podemos supor que a realocação do narcisismo é o que dá sustentação imaginária às formas de subjetivação. Nas escolas contemporâneas, como se apresenta a relação entre forma de viver, forma de sofrer e forma de adoecer?

Estilos de subjetivação incluem formas de viver que não têm a ver, necessariamente, com anormalidade patológica, e sim com variações da normatividade.

Existem formas de vida (DUNKER, 2015), e somente por uma alguma decorrência contingente tais formas de vida chegariam a constituir sofrimento, mal-estar e sintoma. Os sintomas codificados pelos manuais não estão nesse nível de apresentação do mal-estar (forma de conviver), do sofrimento (forma de sofrer) e das formas de viver.

 

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A retração do sujeito no sofrimento já é uma forma de auto-preservação.

Nesse estágio, é comum o apego à ideação mística, a compulsões religiosas, a exortações públicas, protestos vexatórios, taquipsiquismo, aceleração global do psiquismo, sem que isso comporte uma doença em si. ´

Como exemplo, os chamados transtornos de personalidade que se tornam histerias radicais, não estão suficientemente definidos em seu funcionamento pelo código da CID-10 que compartilham[2].

Tais práticas estão ainda confusamente mescladas com adoecimento, mas se integram a formas de vida sem apelo ao Outro, em que a pessoa procura somente o primeiro contato do olhar, a divisão de uma respiração compartilhada pelo medo, a procura de que já não há mais, mas não espera nada mais de seu semelhante.

Nenhuma solução terapêutica, num momento em que o sujeito se dirige para o pior, pode conter a realização libidinal que consiste em contrariar a vida, por uma satisfação a mais.

Parte do inconsciente, regido pela pulsão, é indiferente ao estatuto do sujeito. Há inconsciente, por certo, mas não mais atrelado ao sujeito e a sua vida diária. Se não existe o inconsciente, senão na forma de uma lacuna do entendimento, neste ponto de nosso tempo, onde vivemos, a esperança de entendimento, de um esclarecimento consensual definitivo das causas, já foi deixada à porta muito antes do sujeito entrar no consultório

 

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A sexualidade é intrinsecamente sem sentido ou, com Lacan, fora do sentido, não comporta um horizonte final do sentido produzido pelo homem, ao risco de uma perspectiva teleológica, de uma Cosmovisão (Weltaschaüung).

O que um médico veria nisso? Imprevisibilidade mínima dos efeitos do curso da doença e da cura. Um psicólogo veria uma caixa vazia de amor, técnica mal executada, falta de alguma coisa que preencheria um buraco ou que desentupiria um cano —- a hipótese hidráulica do desejo, mencionada por Simanke como um excesso ou falta a serem “corrigidos”.

Algo mais seria preciso.

Para Freud foi importante recolher, das aberrações sexuais, o germe da sexualidade normal, confundindo a fronteira entre o normal e o patológico, pois era isto que sua clínica mostrava: havia uma diferença pulsional quantitativa a ser determinada, mas não só ela explicava a mutação qualitativa que o sintoma, ou sua decifração, acarretam para o sujeito.

A sexualidade humana é intrinsecamente inadaptadável; e, se somos afetados dessa forma por ela, seria por isso que existe o inconsciente, pretendendo assegurar uma base sensível à estrutura?[3]

A fonte da pulsão são os buracos do corpo, existentes ou factícios. A história da satisfação pulsional de cada sujeito do inconsciente é reconhecível na narrativa daquilo que cada um experimenta com seu corpo. Num primeiro estágio, o espelho é lugar de se ganhar corpo. Passo a passo, o modelo do espelho passa a ser identificado pelo olhar do Outro. Num segundo estágio, o olhar do Outro é colonizado por significantes, que agora decidem, tanto quanto a imagem do outro, a conformação de um eu-corpo[4].

Ainda que uma bissexualidade constitutiva se apresente de início, ela se mantém como definição negativa, como impossibilidade de totalização do campo da experiência. Ela não é inscrita enquanto tal como diferença irredutível, de estrutura.

Isso seria debatível, mas, para Freud, não haveria limite ontológico para a realização da pulsão. Os modos de satisfação da pulsão obedecem a fins transversais à saciação do instinto. A pulsão se desempenha da busca de satisfação por vários meios, mas seu funcionamento em termos de economia libidinal seria relativamente simples: uma força constante, diferentemente do instinto, episódico, que promove uma impressão particular em certos eventos, ainda não, que serão em seguida tratados por um banho de sentido, e  pretensamente capaz de satisfazer a demanda que emerge, a partir do momento em que o Outro, em substituição à mãe, comparece ao chamado da criança.

Temos, então, de um lado, saciação instintual, de outro satisfação libidinal.

Em certo momento, a dificuldade de se imaginar um sujeito para o qual certa negatividade ou indeterminação assumisse o papel de fundamento, faz com supor que a auto-preservação de uma unidade identitária recalca a bissexualidade. Se assim for, quais os efeitos da bissexualidade no inconsciente?

Persiste uma impossibilidade de totalização ou especificação da norma identitária. E todo um regime de identificações individuais é posto em ação nesse momento, como antecipado por Freud no capítulo IV da Psicologia das Massas.

 

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Lacan não predica o sexo, ele predica o gozo. O gozo, e não os sujeitos sexuados. Ele está menos interessado em como se conformam os sujeitos em classificações, do que no modo como eles sempre driblam as classificações em proveito de uma forma de viver que não implica, em momento algum, a forma pela qual o mundo vive ou a forma como os especialistas julgam que eles têm que viver. Talvez por isso que auto-escarificadores, neste momento, mostram as cicatrizes do ato de se cortar como fator de reconhecimento e identificação coletiva, algo a ser assimilável pela cultura como uma forma de vida, em parte como uma forma de sofrer, mas em nenhum aspecto como uma forma de adoecer.

Há uma incontornável passagem pela noção de sintoma, antes de chegarmos a toda a produção contemporânea do campo da psicopatologia.

Lacan predica o gozo entre um gozo fálico e um Outro gozo. Sob o impacto do conceito de gozo, a sexualidade se torna um ponto de referência de negatividade. A coincidência entre a satisfação e o prazer não se mantém na obra de Freud. Trata-se de montagens, arranjos não-totalizantes; potências de indeterminação e, como tal, não necessariamente sintomáticas, se o sintoma for considerado, imediatamente, sofrimento.

Modos de montagem e arranjo são modalidades de aparelhamento do gozo sensível.

A natureza preserva suas leis (como interessa a uma leitura das ciências duras) mas, em algum momento, ela é sensível às leis do significante. A função de auto-conservação se distingue da função de auto-preservação. Preservar serve para a espécie, conservar pode servir apenas a um.

A ciência da libido designa o fato de que toda satisfação determinada (pela necessidade) traz o risco de uma satisfação a mais, não-deteminada, contingente.

Há, de fato, certo paradoxo quando se trata desse real: é o indeterminado, mas retorna sempre ao mesmo lugar… O que lembra a afirmação de a posteriori de Zĭzĕk: em psicanálise, a causa é o que se introduz por seus efeitos.

Na perspectiva de Zupančič (2008), a libido seria entendida como uma satisfação disfuncional, par de uma sexualidade atópica e inessencial: o sexual não existe.

O sexual pode ser visto como um operador inumano: crítica explícita à racionalidade humanista, de seu método hermenêutico como totalidade racional do conhecimento da pulsão.

Foucault, Deleuze, Lyotard, problematizam o inumano.

No plano fonológico, o que se perde na passagem do humano ao inumano, é o “H” de “homem”, H de certa marca de alteridade normativa e complementar entre os sexos. Ney Matogrosso: “sou homem com H, e como sou!”.

O sexual como apropriação de um real sem lei é incongruente com qualquer abstração neutra de propriedades humanas.

Em Lacan, não há um conjunto que defina a mulher a partir de suas propriedades. O Outro sexo está não-todo submetido à ordem fálica. Mas, norma identitária e posição de gozo são termos distintos.  A sexualidade corresponderia a um universal não-totalizável que aponta para a inconsistência do Outro. Há uma espécie de cisão ontológica que, à primeira percepção, indicaria um sujeito irracional; mas não, trata-se na verdade de um sujeito lâmina, ou lamela, como mostra Lacan no Seminário XI. Da libido como energia, em Freud, Lacan parte para o órgão irreal. O laminular remete ao tissular. Até onde a torção necessária a se pensar o inconsciente pode forçar a substância material?

A substância existente perde algo ao entrar em contato com a necessidade da diferenciação sexual.  Um objeto extraído do campo do Outro instaura um Outro barrado [ A – a = A ]. Esse é o Outro para um grande número de pessoas, conhecidas por serem neuróticas das mais variadas formas Nas psicoses, o Outro recebe um tratamento diferenciado.

Na passagem da reprodução ao sexo, o sujeito perde uma parcela de seu ser. O ser do sujeito está no seu objeto —- uma parte do que me é mais próprio e que se encontra fora de mim.

O encontro entre as metades sexuadas engendra um plus.

A solda do gozo, ou da linguagem, fixa os objetos díspares, ou fixa a libido nos objetos. Para Freud, essa solda seria o eu, o Monarca Constitucional de O Eu e o Isso.

O plus do encontro sexuado, tem ou não a ver com o amor? Para Lacan, a própria angústia se torna signo da presença do objeto inconsciente. Em que medida esse desejo permite o recurso a um enamoramento, no caso, ao amor de transferência? Em certo momento, só o amor permite ao gozo condescender ao desejo. Se o desejo não é incompatível com o amor, ao contrário, poderia o gozo igualmente ser tolerante ou, em alguma medida, ainda abordável pela via do amor transferencial? Que recursos seriam precisos para tanto? Já se nota a dificuldade que representa, para o analista, tratar do amor como um conceito operacional

 

Conclusão

A psicoterapia incide sobre o caráter disfuncional da sexualidade, visando corrigi-la.

A sexualidade que concerne à psicanálise não é a sexualidade disfuncional, mas a sexualidade que não existe.

Essa versão do sexo, porém, tem um peso ontológico próprio. Não deve ser concebida como negação, suspensão ou transgressão da lei, mas, essencialmente, como contingência e potencial de encontro com o desejo.

Pode-se chamar esse inexistente objeto por outros nomes, mas sua propriedade central ainda resiste a denominações e permanece como uma indeterminação, um impossível de se representar pela via da palavra.

A indeterminação que funda a falta de uma equidade sexual seria o que constitui a necessidade de uma estrutura, para dar nomes, identificar, reduzir essa indeterminação.

Entre os nomes que doamos a essa indeterminação fundamental, quantos não confluem para as categorias diagnósticas da doença mental?

A época em que o pai determinava o que era um corpo, para um menino, menina, homem, mulher, parece ter se exaurido e, assim, transferido grande importância, não à designação do corpo por um pai, mas à nomeação do pai por meio de um corpo.

 

O que um retorno à histeria poderia causar seria menos danoso do que continuar a empurrar a histeria para o domínio dos transtornos de personalidade. Quando se cai ali, não se sai jamais. E nenhum esclarecimento se tem sobre o modo de funcionamento pulsional desse alguém em particular.

 

Quando Lacan aponta no pai um sintoma como outro qualquer, que conseqüências isso tem para a clínica? Nossa cegueira não permite ver outro princípio orientador; estamos condicionados. Obnubilados, não nos eximimos de considerar que tanto na esquizofrenia como na mania e outros fenômenos, qualquer fronteira entre tipos classes, estruturas subjetivas ou clínicas é contestado. Que confinar a histeria nos transtornos de personalidade, não fornece o modo de funcionamento a partir do qual mudar o comportamento. Nesse nível, estamos ainda na análise funcional do comportamento. Não saímos da lógica intersubjetiva, por mais que esta procure interpor a superação da relação eu-outro.

Nota

A indiferença do criminoso em relação à loucura mudou: atualmente, ele passou a ter interesse nos diagnósticos de saúde mental. Sob restrição de liberdade, o sujeito em conflito com a lei passa a ter volúpia por relatórios de saúde mental. Em certas localidades dos EUA, foragidos da justiça não podem ser retirados de clínicas de internação para drogas, para fins do processo penal. Não apenas o criminoso, mas o mais humilhado dos afastados por doença também se aproxima dos técnicos de saúde mental em busca de laudos; aqueles técnicos, por sua vez, lidam com vácuos na assistência, “buracos” em que vidas se esvaem nas filas, vilas, favelas e presídios. Como  dissemos, o aumento da procura por afastamento médico ou psicológico em casos prevalentes de transtorno de personalidade (CID-10), nos serviços de saúde mental, já se impõe como importante objeto de estudo. O fato é que entre os transtornos de personalidade, nenhum preenche critério de afastamento por doença mental. Em sua maioria, são pessoas colhidas em algum déficit de acolhimento (déficits de reconhecimento social), mas não só dos serviços de saúde, já que, a essa altura de desagregação, vários elos da rede comunitária já haviam faltado. Nossa hipótese é de que esses transtornos, na maioria das vezes, constituem mais desvios de uma norma ou da defesa social, do que patologia mental.

Referências Bibliográficas

DUNKER, Christian. Sintoma, sofrimento, mal-estar. São Paulo: Boitempo, 2015.

FOUCAULT, Michel. O nascimento da clínica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1977.

ZUPANČIČ, Alenka. Sexualidade e ontologia. In: Rev. Estudos Lacanianos. Belo Horizonte (MG). V. 1, n. 2, jul-dez de 2008, pp. 311-326.

[1] “A estrutura, portanto, é real. Em geral, isso se determina pela convergência para uma impossibilidade”. É por isso que é real” (LACAN, J. O Seminário, livor XVI: De um Outro ao outro… Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., [1968-1969] 2008, p. 30).

[2] “A psicanálise de hoje não tem outro recurso senão a histérica que não está na moda: quando a histérica prova que, virada a página, ela continua a escrever no verso, ninguém compreende” (LACAN, Idem, p. 146). Ou seja, a histeria não apenas “subverte” a neuroanatomia, mas também mostra facilidade de adaptação —- complacência somática —- a sintomas de outros.

[3] Tese atribuída a Zupančič (2008).

[4] Se agora nos dedicarmos a considerar a vida mental de um ponto de vista biológico, um ‘instinto’ nos aparecerá como sendo um conceito situado na fronteira entre o mental e o somático, como o representante psíquico dos estímulos que se originam dentro do organismo e alcançam a mente, como uma medida da exigência feita à mente no sentido de trabalhar em conseqüência de sua ligação com o corpo” (FREUD, S. Ariigos sobre metapsicologia – Os instintos e suas vicissitudes (1915). In: ______. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, v. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1974, p. 142.

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