SEXUALIDADE e INCONSCIENTE: COMPILAÇÃO E COMENTÁRIOS (Aula 1)

*Compilação produzida pelo Prof. Amancio Borges das aulas ministradas pelo Prof. Dr. Guilherme Massara, na disciplina “Sexualidade e Inconsciente”, do curso de Doutoramente em Psicologia pela FAFICH\UFMG,  no primeiro semestre de 2015.

6 de Março

No campo da epistemologia da ciência, interroga-se os fundamentos de uma realidade objetiva, coerente e ordenada. Como pensar a sexualidade a partir desses termos?

A libido freudiana comporta uma oscilação entre um sentido “terminal” —- o pansexualismo, em que tudo do humano se definiria a partir da sexualidade —- e um fora-de-sentido radical.

A consideração das vicissitudes da pulsão revela o valor de uma indeterminação fundamental.

Embora existam cadeias de determinação sexual na formação dos sintomas, a sexualidade humana passa pela via de uma indeterminação, em vários níveis.

Tendemos a crer que existe uma norma sexual, a partir da qual registramos seus desvios.

Nas psicopatias sexuais descritas por Kraft-Ebbing[1], por exemplo, tratava-se de recolher as formas empíricas do desvio da norma, as quais chamou de parafilias. Parafilias  correspondem a práticas sexuais que, mais tarde, Freud  como irá tratar como uma versão do normal.

Nesses casos, algo se fixou de um conteúdo que habitaria em todos nós, provocando, não ainda sintomas, com sofrimento e distonia, mas desvios, versões, perversões de uma norma de conduta socialmente compartilhada.

Versões multiculturais da normatividade permitem descrever a sexualidade como uma arbitrariedade da norma, tese preferencial do feminismo. Mas, igualmente, pode-se entender o Outro sexo pela vertente de uma insuficiência da norma.

O tema do desvio no campo da pulsão nos leva, então, a imaginar acessos alternativos: i) quanto ao objeto (o adulto do sexo oposto); ii) quanto ao alvo (a finalidade reprodutiva ou genitalidade)[2].

Nos Três Ensaios, Freud afirma que, entre a pulsão e seu objeto, não há senão uma solda. Não haveria, portanto, um laço natural, original e obrigatório entre as pulsões e o objeto de escolha.

As chamadas “anomalias” do desenvolvimento psicossexual se reportam à sexualidade infantil, perversa e polimorfa, que, por sua vez, nos remete à constituição bissexual do ser humano.

A espécie humana é aquela que “trai” seu instinto animal, em benefício da fantasia e das pulsões. Como uma espécie pode ser “traída” por seus próprios indivíduos? A trama pulsional prevê um alvo não reprodutivo para a sexualidade.

Portanto: i) fins adaptativos ou filogenéticos são afastados: não há conexão entre sexo e adaptação; ii) se fins adaptativos encontram-se prescritos, cai por terra, também, a finalidade heteronormativa da sexualidade (se o fim não é a reprodução instintiva, mas a satisfação pulsional, qualquer objeto pode servir).

Se assim é, o que ainda subsiste da tendência à reprodução?

O que permanece é a reprodução de um gozo. Seja na tentativa de se defender dele, nesse caso temos o sintoma, possivelmente a sublimação, seja na tentativa de levá-lo a um fim embora com a desaparição do próprio sujeito.

Algumas versões de psicanálise “flertam” com a naturalização da norma. Mas, contrariamente à regularidade quase teleológica que se tentou imprimir à organização psicossexual, na qual as fases se sucedem em direção a uma genitalidade final, o analista trabalha justamente nas “falhas” desse processo.

Estaríamos assistindo —- ou participando —- da falência dos semblantes sexuados? De fato, se o semblante sexuado fálico é mais evidente, o semblante sexuado não-todo não é tão evidente assim. É possível reencontrar os semblantes do feminino em Freud, mas lateralmente, “pelos cantos”. Freud teria antecipado, por meio da expressão “sentimento oceânico”, alguma coisa de um gozo que não seria regulado pelo falo.

Quando nos encontramos diante de fenômenos de indeterminação, atribuir aos sujeitos uma psicose é uma saída tentadora. Mas uma indeterminação se torna, rapidamente, uma atribuição, e em seguida chegamos à codificação; depois da codificação, o diagnóstico; por fim, um protocolo e um tratamento. Isso é o correto, do ponto de vista da aplicação protocolar de uma avaliação; mas preocupar-se somente o correto, não é o bastante. Lembro de uma anedota médica: os residentes seguiram um protocolo e viram todos os pacientes. Satisfeitos, informaram a seu preceptor disso. Ele disse: “Já pra lá, depressa, vocês devem ter matado uns dois ou três”. Se a ousadia de um médico em desafiar o protocolo é possível, em prol da clínica, é porque mesmo o médico reconhece que, no campo dos transtornos mentais, mas também na doenças orgânicas, muito do que constitui ao diagnóstico, ao tratamento, e mesmo à sensação de melhora do paciente, encontra-se turvado por afeto, equivocidade da linguagem, sentimento, impressões necessariamente subjetivas, amor. Pelo inconsciente, inclusive.

Protocolos não têm como tratar do amor. No sentido lato, o amor envolve tudo o que não é assimilável a protocolos. O encontro de um operador do amor no tratamento é uma condição da transferência, mas ele não se encontra em forma de método. Trata-se de um operador que funciona para determinados tipos de clínica, em que o desejo do analista assume o lugar da adoração da figura do mestre. Isso acontece em momentos fortuitos, contingentes, assim como a “doçura” que Lacan depôs no trato com a Bela Açougueira, que lhe permitiu abordar o doente com respeito. Essa doçura é uma das pequenas loucuras de Lacan. Nada tem a ver diretamente com amor, mas sim com respeito. A intenção de tratar é o que lhe faz deformar seu método que não existe, sob certa abordagem. Deformar, sem inalcançar um certo limite da ética da cura.

 

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Seria preciso articular, com Dunker (2015), entre formas de sofrer, formas de adoecer e formas de viver.

Assim, um paciente pergunta: “Doutor, esse bloqueio na minha mente é do remédio ou da doença?”. Digo que provavelmente não é do remédio. Ele completa: “Ah, então não tem problema, porque eu não sofro com a minha doença”.

O que parece abarcar a totalidade do sofrimento mental relacionado à sexualidade, não passa de uma concessão: cada um no seu quadrado. Cada um no seu quadrado, é o tema de um funk em que alguém reclama que estão pisando no seu quadrado, no seu posto sexual.

Eventualmnte defasado, como é normal na indústria da música, cada um no seu quadrado descreve uma impossibilidade da lógica sexual.

Tão equivocado quanto identificar, apressadamente, excedentes de gozo inassimiláveis pelo significante com o Outro gozo das mulheres, seria classificar tais experiências de gozo com formas opacas de satisfação psicótica. Satisfação, descarga ou escoamento seriam formas indeterminadas de identificação, do ponto de vista do sujeito.

 

 

Seriam formas indiferenciadas de identidade pessoal, e de conseqüentes diferentes apresentações da experiência sexual. Dizem respeito a um gozo inarticulado, porém, não necessariamente delirante ou feminino.

O narcisismo é o suplemento libidinal das pulsões de auto-conservação. A organização libidinal é uma montagem, a partir da qual muitos arranjos não-totalizantes da sexualidade podem se dar. Pulsões de auto-conservação são distintas de instintos de auto-conservação, assim como há disjunção entre o orgânico e o psíquico. Mais tarde, como veremos, auto-preservação, cuidado de si, separa-se de auto-conservaçáo, cuidado ta

Num exemplo emprestado de Žižek, uma mulher prepara seu suicídio, mas, quando um monstro gigante invade sua cidade e se aproxima de sua janela, ela corre e se esconde. O instinto que, de certo modo, perturba, põe a pulsão em marcha. Uma morte sonhada não é igual a morte escolhida. Ela deseja morrer, mas, à sua própria maneira. A escolha definiria uma segunda morte que poucos conseguem levar a termo. Por escolha, identificamos um dos termos mais imprecisos em nosso campo, quando se trata de uma escolha inconsciente. Poderíamos dizer que a voz da razão falou mais alto, em alguns casos, mas, em outros, está fora de si. Fora de condições de auto-determinação. No entanto, na anedota, a mulher foge da morte imposta, em direção a uma morte escolhida.

“Saio da vida para entrar na história”—- escreveu Getúlio Vargas. Isso não seria mais possível hoje. Entrar na história, hoje, é uma opção facilmente descartável, pelo ambiente do mercado. O que sobra de penetração na história é recapturado pelo ISIS, ou, pelo menos, alguns dos grupos que, como em outras ocasiões de guerra, fornecem uma identificação muito precisa e letal do que é o outro opositor. Canudos talvez lembre algo no mesmo sentido do que Hegel refere como o transe entre o senhor e o escravo.

A história suporta formas de vida de sempre, mas a capacidade de acessar uma noção de história que equilibre o jogo da pulsão, é outra história.

A histeria subverte a anatomia. Há diferença entre orgânico e somático. No sintoma histérico, o somático submete o orgânico a um plano de desconexão entre a anatomia e o sofrimento. Como lembra Christian Dunker (2015), formas de vida não equivalem, necessariamente, a formas de adoecimento, nem de mal-estar.

Alunos perguntam: somos todos doentes, por entrar numa versão de estrutura psicótica, neurótica ou perversa?

 

 

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Arranjos que supõem totalização do conhecimento sobre o sexo são desmontados pela análise das gambiarras pulsionais, os sinthomas.

Na análise se faz a desmontagem de arranjos pulsionais —- chegando a arranjos não-totalizantes. A queda das identificações ideais, na análise, seria exatamente isso.

A queda das identificações ideais da análise prenuncia a queda do nome do pai como referência simbólica, na civilização? A análise, porém, já trata do pai decaído desde seus primórdios. Alguns acharam que ela promovia a queda do pai, o que foi uma leitura simplória do processo em marcha.

Montagem é um termo utilizado por Georges Bataille em A história do erotismo, O erotismo, A parte maldita.

Nessas condições, o real emerge como potência de indeterminação. Trata-se de conservar o gozo, e não a espécie. Pois, no próprio suplemento libidinal do narcisismo, associado ao contingenciamento das pusões de auto-conservação, já está esboçada a pulsão de morte.

Agora podemos acrescentar mais uma conclusão às anteriores. O desvio não ocorre somente quanto ao objeto (o adulto do sexo oposto) e quanto ao alvo (a finalidade reprodutiva ou genitalidade), mas os arranjos da sexualidade ainda se mostram muito sensíveis ao aparelho do significante —- ao inconsciente —- de modo que a linguagem aparelha o gozo do sensível. Nos termos de Radiofonia, a linguagem entra no real e cria a estrutura, mas não sabemos se é a economia libidinal que elicia toda a cadeia de determinações envolvida. Libido, que aporta uma satisfação a mais, suplementar ou contingente à realização orgânica do ato sexual. Tal forma de autonomia da satisfação libidinal em relação a qualquer outra sugere que a ordem da libido é atópica: não exclui o orgânico, mas a ele não se subordina, em seus sintomas.

Parece que há duas ordens de causalidade concorrendo em paralelo.

O “sexual” não existe como unidade ontológica, menos ainda como objeto sensível. O que existe, concretamente, é o membro, órgão ou superfície que se serve desse condicionante econômico: o corpo tem o dever de expelir regularmente seus excessos de substância, principalmente, daquela substância que não existe como tal, de que se formam as zonas erógenas. A fonte, o tecido excitável em questão, pouco importa, desde que contenha um buraco. É o buraco —- ou o corte —- que delimita condições de transporte de uma superfície a outra, na banda de Moebius e no toro: objetos topológicos em que uma torção no espaço reconfigura as formas originais, podendo levar a superfícies descontínuas que rompem, por um momento, com as três dimensões, ao retratar como bidimensional uma superfície —- topologicamente —- tridimensional. A adoção de um quarto nó, numa segunda tópica lacaniana, equivaleria, então, a essa torção libidinal dos três registros: real, simbólico e imaginário. Seja como for, nessa versão específica de objeto, as condições de transporte de certo fluxo libidinal determinam transformações no espaço de conformação desse objeto mesmo, modificando-o; o que o conceito de transferência nos desafiaria a explicar, em outro momento.

É possível que se registre um desvio da norma que seja uma variante do sofrimento mental, e não uma patologia como aquele sofrimento. —- e o desvio da norma como forma de vida seria então uma das formas como o diagnóstico se apresenta no tecido social e, assim, faz girar toda uma engrenagem de financiamento, seja de pesquisa, seja de produção, seja de desvio. Não existe desvio sem infecção social. Corruptos são vermes, por causa disso.

Este é um tema constante, do debate sobre o delito e a privação de liberdade de jovens infratores depois de experiências em que, de certo modo preciso, não lhe restavamm experiências de sofrimento produtivas.

Casos que oscilam em áreas de atenção do judiciário ou da saúde, e vice-versa, são comuns em serviços de saúde mental. E reconduzem ao tema fundante do desvio da norma sexual e de muitas outras (o que se possa pensar exceto os preconceitos fundamentais), de modo que simplesmente, não por excesso de dados, nem por insuficiência descritiva, menos ainda por correção metodológica, perdemos o sujeito.

Tudo o que concerne a pensar a posição de um sujeito, seja frente ao Outro, ao outro, se terminaria aí.

Do ponto de vista do inconsciente, o sintoma, como tentativa do eu de exercer controle sobre o isso, é uma tentativa de restabelecimento, porém, esse controle não alcança influenciar o imperativo do supereu. Há limites para o eu, assim como para a consciência dos cuidados de si —- objetivo das curas, terapias e outras formas de atenção que surgiram com o século XVIII, como registrado por Foucault, também foram, desta maneira, delimitadas. Delimitar o cuidado do outro como função socialmente reconhecida parece ter o cuidado de si como predecessor.

O desvio das pulsões seria um desvio constitutivo. A sexualidade humana é o desvio —- paradoxal —- de uma norma que não existe. O desvio é a norma[3].

 

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Referências Bibliográficas

DUNKER, Christian. Sintoma, sofrimento, mal-estar. São Paulo: Boitempo, 2015.

FOUCAULT, Michel. O nascimento da clínica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1977.

MASSARA, G. Sexualidade e inconsciente. Aulas do doutoramento de Psicanálise da UFMG.  Etc…

ZUPANČIČ, Alenka. Sexualidade e ontologia. In: Rev. Estudos Lacanianos. Belo Horizonte (MG). V. 1, n. 2, jul-dez de 2008, pp. 311-326.

[1] Psychopathia Sexualis. Stuttgart: Verlag von Ferdinand Enke, 1886. Em seu tratado, Krafft-Ebing dispõe os desvios sexuais em quatro  categorias: i) o paradoxo: desvio experimentado em etapas de vida equivocadas, isto é, na infância ou na velhice; ii) a anestesia, ou falta de desejo sexual; iii) a hiperestesia, ou excesso de desejo; e iv) a parestesia: desejo sexual sobre um objeto errôneo, na homossexualidade, no fetichismo, no masoquismo, etc.

[2] Quanto à fonte da pulsão, observamos que qualquer superfície do corpo, por meio de uma manobra topológica, pode se tornar um buraco apto ao gozo.

[3] Em solidariedade a esta tese, lembramos o momento em que Christian Dunker examina de que modo a estratégia de apreensão dos fenômenos psíquicos pela psicanálise se afasta do raciocínio médico ou psicoterapêutico, que pressupõem um estado inicial de saudável harmonia, interrompido pela eclosão de um adoecimento, para a ele retornar com o tratamento e a cura.. Para Freud, ao contrário, “Apenas depois de estudar o patológico se aprende a compreender o normal”. Aqui, o próprio sentido do patológico e do normal se alteram. Não mais se trata do inconsciente como um sucedâneo do patológico, mas de um “inconsciente ordinário” a ser apreendido por meio de uma abordagem em que “o desvio é o próprio critério do método” (DUNKER, 2015, p. 43).

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