A família e a moral sexual

Texto da psicanalista doutorando em Psicologia pela UFMG Virginia Sanábio Souto Maior para a VI Jornada de Psicanálise

Em 1908 Freud discute o aspecto duplo da moral sexual imposta dentro do casamento. As restrições feitas às mulheres eram mais severas, pois elas só podiam ter relação sexual dentro do casamento monogâmico. Freud aponta para as consequências danosas, isto é, para o surgimento das doenças nervosas atribuídas aos sacrifícios exigidos por esta moral. Freud defende a tese de que as doenças nervosas são desencadeadas devido à repressão da vida sexual imposta pela civilização.

E distingue três estágios da civilização:

Um primeiro em que a pulsão sexual pode manifestar-se livremente sem que sejam consideradas as metas de reprodução; um segundo em que tudo da pulsão sexual é suprimido, exceto quando serve ao objetivo da reprodução; e um terceiro no qual só a reprodução legítima é admitida como meta sexual. A esse terceiro estágio corresponde a moral sexual “civilizada” da atualidade (FREUD, 1969, p. 194).

Com a descrição destes três estágios verifica-se que as exigências de civilização proíbem toda atividade sexual descrita como pervertida, ao mesmo tempo em que concedem ampla liberdade às relações sexuais chamadas normais, isto é, que estão associadas à reprodução e ao casamento.

Mas, seria possível a educação sexual? Qual será a consequência da manutenção da abstinência sexual até o casamento? Freud dirá que a consequência da abstinência é a produção da neurose. Em relação às mulheres, ele diz:

o resultado é que, quando a jovem recebe a súbita autorização de seus guardiões para apaixonar-se, não esta apta a essa realização psíquica, e chega ao matrimônio insegura dos seus sentimentos. Em consequência dessa retardação artificial de suas funções eróticas, ela nada tem a oferecer além de desapontamentos ao homem que poupou todos os seus desejos a ela (FREUD, 1969, p. 202).

A restrição da vida erótica traz consequências inevitáveis e indesejadas no casamento, tais como a impotência e a frigidez. O casamento que deveria ser o momento da realização das pulsões sexuais, desperta as doenças nervosas.

Freud, então, indaga: “a nossa moral sexual “civilizada” vale o sacrifício que nos impõe”? E cabe-nos indagar, na virada do século XX para o sec. XXI – quais são os ideais civilizatórios que regulam o gozo? Eles existem? Quais são?

Um novo sistema de parentesco

Na virada do século é pertinente levantar uma questão: na atualidade, o sistema de parentesco encontra-se transformado? Se sim, em que medida mudanças no nível dos costumes intervém na estrutura subjetiva?

Para iniciar este debate apresento o fragmento de uma reportagem publicada na Revista Vida e Estilo, online – Casal de transgêneros dá à luz um filho em Porto Alegre.

Helena Freitas, 26 anos, e Anderson Cunha, 21, se conheceram durante uma festa no inverno de 2013. Entre sorrisos e olhares, o jovem tomou a iniciativa e resolveu pagar uma bebida para a morena vaidosa de cabelos longos. Depois de uma madrugada de conversa, trocaram telefones. Após vários encontros, a relação, que no início parecia amizade, evoluiu.

Os dois começaram a namorar no Natal do mesmo ano. Em 2014, o casal resolveu morar junto. A estudante estava com o curso de Letras na Faculdade Porto-Alegrense (Fapa) trancado no terceiro semestre, e o rapaz era atendente em uma lanchonete. A rotina ia bem, até que um pequeno deslize mudou o destino dos jovens. Após muito nervosismo, suspeita e um teste de farmácia, veio a certeza: Anderson estava grávido.

Acontece que Anderson nasceu Andressa e, aos 15 anos, assumiu uma identidade masculina. Helena, por sua vez, nasceu homem. Depois de ter diversas relações homossexuais e se travestir, assumiu a identidade transgênero aos 19 anos.

– Eu sempre quis ter filho. Mas nunca imaginei que seria fruto de uma relação própria. Quando começamos a namorar, vi que essa possibilidade era viável – recorda Helena.

Esta nova forma de organização familiar tem sido muito debatida no meio psicanalítico e Miguel Bassols questiona, “quantos sexos podem ser contados neste novo século? Parece estarmos vivendo em uma era dos fins de dois sexos e o princípio de sua multiplicação ao infinito” (BASSOLS, 2014, s/p).

A psicanalista Silvia Ons (2013) comenta que o conceito de gênero surgiu na ciência médica para explicar os casos de intersexualidade e das ambiguidades sexuais e teve impacto nas ciências sociais para explicar a construção cultural da diferença sexual.

Para a filósofa Judith Butler, sexo e gênero são construções culturais “fantasmáticas” que demarcam e definem o corpo. “O gênero não é um substantivo, mas demonstra ser performativo, quer dizer, constituinte da identidade que pretende ser” (BUTLER apud SALIH, 2013, p. 72).

A ideia de performatividade de Butler não significa liberdade, ou seja, que o sujeito seja livre para escolher que gênero ela ou ele vai escolher para encenar. “Teremos de nos livrar da noção de “liberdade de escolha”: uma vez que estamos vivendo dentro da lei ou no interior de uma dada cultura, não há possibilidade de nossa escolha ser inteiramente livre” (BUTLER apud SALIH 2013, p. 72). Ao contrário disso é provável que a escolha de nossas “roupas metafóricas” seja ajustada às expectativas de nossa origem social. Mas, como o gênero é subversivo a essas expectativas é possível a ele alterar as roupas metafóricas que lhe são designadas de modo convencional – “rasgando-as ou pregando-lhes lantejoulas ou vestindo-as viradas ou do avesso” (BUTLER apud SALIH 2013, p. 73).

Com as mutações ilimitadas de gênero modifica-se também a estrutura de parentesco. Em algumas uniões há que se perguntar: quem será o pai, quem será a mãe?

Em A família Lacan sustenta a tese de que “as relações de parentesco no interior da família, com toda sua complexidade, se realizam a partir do casamento, casamento que não se apoia nos laços sanguíneos, mas nos laços significantes” (LACAN apud FLEISCHER, 1999, p. 270).

Afirma Marie-Hèléne Brousse que, “em seu último ensino, Lacan constrói uma teoria pós-edípica do inconsciente. Separa o modo de gozo do sujeito e do Outro” (BROUSSE, 2006, p.140). E usa o termo parentalidade para a nova ordem familiar. Com a parentalidade inscreve-se uma semelhança ou uma equivalência no lugar da diferença entre o pai e a mãe.

A parentalidade implica que o pai seja substituido pelos pares. Ela se declina, por outro lado, com a noção de coparentalidade ou de monoparentalidade. A previsão de Lacan da ascenção da segregação é correlata a este apagamento da diferença em vantagem da semelhança: os mesmos com os mesmos (BROUSSE, 2006, p. 144).

Jacques-Alain Miller mostra que ao modificar-se o sistema de parentesco, o que surge é um sintoma. E explica que “para alcançar o significante família é necessário o objeto “criança” (MILLER, 2005, p. 146). Cito Miller,

A modernidade se define pela “ascensão do objeto a”. A criança é um modo eminente deste objeto, e isto há muito tempo. Mas se antes a criança não era tomada pela preocupação devido à descendência e a transmissão do nome, os historiadores tem demonstrado que com a modernidade a relação da criança se modifica e que seu valor não se sustenta mais nestas coordenadas do sistema de parentesco (MILLER apud BROUSSE, 2005, p. 146).

Há, então, na atualidade, um novo modo de realização erótica nos homens e nas mulheres? Estamos diante de uma nova moral sexual?

Conclusão

Concluo este trabalho sobre “A família e a moral sexual” com a hipótese de que os ideais civilizatórios contemporâneos não estão sustentados no sacrifício, mas nos ideais de transparência, “devemos mostrar tudo, dizer tudo”. Com essa transparência iremos tocar na base da estrutura de família e abolir os segredos de família. Cito a definição de família proposta por Jacques-Alain Miller, Assuntos de família no inconsciente,

O que define a família? Ela tem origem no casamento? Não, a família tem origem no mal-entendido, no desencontro, na decepção, no abuso sexual ou no crime. Que ela seja formada pelo marido, pela esposa e suas crianças, etc..? Não a família é formada pelo Nome-do-Pai, pelo desejo da mãe e pelo objeto a. Que eles são unidos por laços legais, por direitos, por deveres e etc…? Não, a família é essencialmente unida por um segredo, ela é unida pelo não dito, é sempre um segredo sobre o gozo; de que gozam o pai e a mãe? (MILLER, 2007, s/p).

Referências Bibliográficas

BASSOLS, Miguel. El objeto (a) sexuado. In:______. Tiresias. Publicación de las 13ª jornadas de la Escuela Lacaniana de Psicoanálisis. Madrid: Campo Freudiano, 2014. Disponível em: jornadaselp.com. Acesso em: 13 julho 2014.

BROUSSE, Marie-Hélène. Um neologismo de actualidade: la parentalidade. In:______. Revista Enlaces nº11. Buenos Aires: Grama, 2006. p.139-148.

FLEISCHER, Deborah. As transformações familiares. Texto apresentado em Belo Horizonte: IPSMMG. 1999. p.267-283.

FREUD, Sigmund. Moral sexual civilizada e doença nervosa moderna. In: _______. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1974, volume IX, p. 185-208.

MILLER, Jacques-Alain. Assuntos de família no inconsciente. In: ______. Revista eletrônica do Núcleo Sephora, v.2 n.4, maio a outubro 2007. www.isepol.com/ascephallus/numero 04/traducao 01.htm (acesso em agosto 2015).

ONS, Sílvia. O corpo na hipermodernidade. In: _______. VI Encontro Americano de Psicanálise de Orientação Lacaniana. Buenos Aires: Campo Freudiano, 2013. Disponível em: http://www.enapol.com Acesso em: 01 de agosto de 2014.

SALIH, Sara. O Gênero. In: ______. Judith Butler e a teoria Queer. Belo Horizonte: Autêntica, 2013. p. 63-101.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: