A Feminização do Mundo

Texto da psicanalista Cássia Túlio para a VI Jornada de Psicanálise

O objetivo deste artigo é conceituar e localizar este acontecimento denominado a “feminização do mundo”, um acontecimento que impactou e desencadeou vários fenômenos sociais, como por exemplo, a violência desmedida, os atos criminosos realizados “porque sim”. Diante de tais mudanças como pensar os efeitos que esta nova lógica tem causado na mulher contemporânea e nas suas parcerias amorosas?

1 Introdução:

O tema “feminização do mundo” foi destacado por Miller em 1997 com o intuito de ler os fenômenos que atravessam a nossa época, além de levantar as consequências clínicas que advêm deste acontecimento.

A época atual, também denominada “globalização” é caracterizada pela queda da função paterna e o declínio do viril, afetando diretamente os grandes referenciais que balizavam o mundo. Se antigamente as escolhas dos sujeitos eram norteadas pelas leis oferecidas pela tradição, pela autoridade ou religião, hoje se observa um desmoronamento daquilo que guiava o homem. Ele se vê sem uma grade de leitura que lhe permita decifrar os acontecimentos do mundo.

Este é um dos temas trabalhados por Miller em seu artigo “O Outro que não existe e seus comitês de Ética”: “o declínio da função paterna foi enunciado por Lacan desde 1938 quando ele constata uma evolução na forma das neuroses desde o tempo de Freud, podendo-se reconhecer a grande neurose contemporânea, designando aí a determinação principal na carência do pai cuja personalidade é ausente, humilhada, dividida ou postiça”.

Ele continua:

“Podemos falar de uma grande neurose contemporânea? Se se pudesse fazê-lo, poder-se-ia dizer que seu determinante principal é a inexistência do Outro – na medida em que ela faz o sujeito sair à caça do mais-de-gozar. O supereu freudiano produziu coisas como o interdito, o dever, até mesmo a culpabilidade. Termos estes que só fazem existir o Outro. São semblantes do Outro. Eles supõem o Outro. O supereu lacaniano produz um imperativo diferente – Gozar. Esse supereu é o supereu de nossa civilização.” (Miller, 1998)

Portanto se na época de Freud o mal-estar era o sintoma que mostrava sua renúncia pulsional – “deves deixar de gozar!”, como mandato paterno da civilização, hoje as coisas mudaram. O imperativo atual da civilização tornou-se o “deves gozar!”.

Ernesto Sinatra, psicanalista argentino em seu livro “@s Nov@s Adit@s”, vem tratar dos efeitos da globalização na subjetividade, percorrendo extensamente a construção teórica deste acontecimento que Jacques-Alain Miller denominou “feminização do mundo”, estabelecendo uma correspondência entre o estado de globalização e o lado feminino das fórmulas da sexuação. Seguiremos a partir daqui os desdobramentos que este autor faz em seu livro citado acima.

A hipótese que Ernesto Sinatra pretende demonstrar é que há uma sequência à qual a civilização alcançou: 1) à queda do pai – se segue 2) o “declínio do viril” – ao que responde – 3) a “feminização do mundo”. Então, ao declínio do pai a primeira consequência seria a desvirilização, e a esta constatação Miller aplicou uma operação lógica: a extração da função da exceção, que era condição necessária para a formação do conjunto. (Sinatra, 2013:27)

Para entendermos esta operação lógica é necessário que façamos uma breve localização das fórmulas da sexuação construídas por Lacan.

2. A sexuação

Sabemos que Lacan formulou a partilha dos sexos não a partir do atributo peniano que dividiria os seres em portadores ou privados de pênis, mas a partir da função fálica. Ele indicou que a sexualidade humana não pode ser reduzida a distribuição dos corpos entre homens e mulheres, a escolha do sexo atravessa o natural, a criatura humana pode situar o seu corpo de um lado ou de outro, para além do seu destino anatômico.

Lacan propõe então uma partilha de gozos: o gozo fálico é masculino e o feminino é o gozo Outro. Trata-se portanto, de duas posições sexuais que localizamos a partir da barra vertical: o lado macho (do Todo) e o lado feminino (ou Não-Todo). (Sinatra, 2013:21)

Do lado masculino da sexuação encontramos a função universal do falo, pois todos os seres deste lado estão inscritos na função fálica. Para que essa proposição universal seja verdadeira, é necessária uma proposição que a negue, ou seja, é necessária uma exceção que confirme a regra. “A exceção não só confirma a regra como a funda, a faz existir ao dar-lhe consistência”. (Sinatra, 2013:27)

Se a regra é a castração simbólica para todos os homens (é o que implica a função fálica), é necessário estruturalmente que exista uma exceção fora do universal da castração, que diga “não” à função fálica. (Quinet, 2012:61)

Esse “pelo-menos-um” fora da função fálica é o que encontramos na figura do pai da horda primitiva de “Totem e Tabu”, que como Pai gozador, proibia o gozo fálico a todos os seus filhos. O mito freudiano veicula que a existência da exceção do pai fundador possibilita o aparecimento do clã, ou seja, o conjunto dos filhos castrados. (Quinet, 2012:62)

Agora podemos entender que a “extração da função da exceção” é o que resta do lado da sexuação masculina se tiramos a parte esquerda superior, ou seja, este “pelo-menos-um”. “Que características têm esse conjunto agora que a autoridade do pai foi retirada, agora que esse pai está em fuga, aquele que até ontem encarnava a função da exceção, do dizer não”? (Sinatra, 2013:29)

Ernesto Sinatra citando Jacques Lacan responde:

“Jacques Lacan fazia referência, já em 1938, à queda da imago paterna para ratificá-la em 1945; inclusive, em 1956, chega a referir-se a “um estilo: o dos homens tipo Hans”, o daqueles que, para aceder ao ato sexual, se caracterizariam por “esperar que as damas lhes baixem as calças”. (Sinatra, 2013:29)

A partir das fórmulas da sexuação pode-se dizer que o mal-estar na época freudiana era um mal-estar que obedecia à lógica que Jacques Lacan atribuiu à posição masculina: o conjunto sustentado no Todo, a partir da culpa e do castigo. Hoje, a leitura que fazemos dos fenômenos da globalização obedece a outra lógica, à lógica do Não-Todo, ou seja, a posição feminina da sexuação.

Deste lado direito da sexuação, o lado feminino, não há o conjunto das mulheres, pois não existe uma exceção para fundar o universal de todas as mulheres. Podemos pensar em uma lógica distinta da lógica do Todo, é a lógica do Não-Todo (“pas-toute”), na medida em que a mulher está “não toda” inscrita na lógica fálica. (Quinet, 2012:63)

“É o Não-Todo, então, o modo lógico de organização que comanda atualmente a subjetividade. Denominá-lo feminização do mundo decorre justamente de ler a risca esta subtração da exceção, encarnada até ontem na autoridade do pai”. (Sinatra, 2013:30)

Ao nos referirmos a esta lógica do Não-Todo, como sinaliza Sinatra, “localizamos uma estrutura particular: não se trata de um todo falhado, mas sim de uma entidade com uma estrutura diferente”. (Sinatra, 2013:34)

Acompanhando a leitura deste autor, ele compara esta posição de pensar a lógica do Não-Todo como um Todo falhado a mesma do menino, e também da menina, quando observam e comprovam a diferença dos sexos: eles não veem ali o sexo feminino, mas a ausência do sexo masculino. É este um momento de máxima angústia, no qual o sujeito infantil lida a partir de seu imaginário fálico, interpretando essa constatação como uma perda.

“Ao corpo feminino não falta ter o pênis, à menina-mulher não “falta” nada: é a leitura fálica no nome do pai que lê a sexuação em termos de falta, castigo e proibição”. (Sinatra, 2013:35)

Portanto, o que se situa do lado do “Não-Todo” é a impossibilidade de fechar o conjunto se estabelecendo não como incompleto, mas como inconsistente. O “Não-Todo” carece do limite que permite a exceção, como não há exceção, não existe a condição necessária para se estabelecer o universal, o todo não se constitui, assim, é preciso considerar cada mulher como única, uma a uma, numa série infinita.

Com efeito, pode-se destacar então que o modo de gozo contemporâneo não está mais determinado a partir da perspectiva do pai e de sua função de proibição, já não mais a partir da negativização do gozo, e sim a partir da sua positivação, “o gozo, o mais de gozar, tragou o Ideal: é a satisfação que rege o estado atual da civilização e não mais o Ideal”. (Sinatra, 2013:34)

Nesta mudança de cenário, ou seja, do universo fechado do pai, no qual as mulheres não encontravam um lugar de pleno direito, ao universo infinito do Não-Todo que leva o seu traço, como elas se localizam? Teriam um lugar mais “confortável”?

3 A “feminização do mundo” e o feminino

Pelo exposto acima já podemos perceber que a “feminização do mundo” não quer dizer atributos femininos, nem tão pouco se reduz a semblantes femininos.

Convém esclarecer ainda que, embora haja uma identificação masculina que dá consistência ao homem, o ser falante é “Não-Todo” e o lado feminino da fórmula da sexuação também lhe concerne.

No entanto, sem dúvida, esta é uma época na qual as mulheres alcançaram grandes conquistas nos mais diversos campos, não estamos mais na época da repressão sexual que era uma das causas do mal-estar e dos sintomas na clínica freudiana.

Porém, de acordo com Miller (1998), estamos na época dos impasses e para a mulher isso pode se apresentar na difícil tarefa de conciliar sucesso profissional, casamento e maternidade, ou os descompassos nas relações amorosas com uma queixa constante das mulheres “liberadas”, independentes, mas solitárias, que perguntam: “onde estão os homens”?

Miller (1998) faz referência a uma dificuldade contemporânea em relação ao amor, e associa a conquista dos direitos da mulher com esta dificuldade, justamente por elas quererem tratar as parcerias amorosas pelo lado masculino. A dificuldade é justamente que desse lado da fórmula da sexuação, o ato de amor é localizado a partir do gozo fálico na medida em que ele é autístico, sem Outro, ou seja, um amor sem amor que prescinde do Outro.

A tentativa de buscar soluções para seu ser de mulher pela via fálica é devido à ilusão de encontrar aí um abrigo, uma identidade. Do lado feminino não havendo delimitação de um conjunto fechado, o todo aqui não se constitui, ou seja, uma vez que as mulheres estão “Não-Todas” inscritas na função fálica, consequentemente, há algo de seu ser de mulher que não é significável. (Bessa, 2012:87)

Transitar pelo lado feminino é partir da constatação que A mulher não existe e, experimentar um gozo que não é civilizado pelo gozo fálico, um gozo mais além do falo que Lacan o define como sendo um gozo suplementar e que por não ter esta regulação a divide e pode converter sua solidão em seu parceiro. (Bessa, 2012:88)

Bom, mas então de que maneira se estabelecerá a relação com o Outro? É aí que Lacan reconhece a função do amor. O amor tem a função de estabelecer a conexão com o Outro, é o amor que faz suplência à relação sexual que não há. (Bessa, 2012:96)

Este é o sentido do apelo que Miller (1998) faz às mulheres:

“Seria necessário que as mulheres despertassem, mas que despertassem da boa maneira, não da mesma maneira que os homens. O que é preciso esperar é que, uma vez atingido um certo nível de igualdade, o movimento feminino utilize um outro canal que não o discurso jurídico. Em suma, minhas senhoras, amem-nos! (Miller, 130:1998)

É instigante pensar então que a saída para os impasses da mulher na contemporaneidade seja o amor. Porém já fomos advertidos por Lacan: “… o que eu digo do amor é certamente que não se pode falar dele”. Porém esta não é uma razão para calarmos, ainda mais porque, como psicanalistas, não cessamos de nos oferecer ao amor.

Referências Bibliográficas:

  1. ANDRÉ, Serge. O que quer uma mulher?. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1987.
  2. BESSA, Graciela de Lima Pereira. Feminino: um conjunto aberto ao infinito. Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2012.
  3. FUENTES, Maria Josefina Sota. As mulheres e seus nomes: Lacan e o Feminino. Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2012.
  4. GUIMARÃES, Leda. “Não se Apaixone”! A máscara da feminilidade contemporânea, Opção Lacaniana, 44. São Paulo: Eolia, 2005.
  5. LACAN, Jacques.O Seminário 20: mais, ainda (1972-1973). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
  6. MILLER, Jacques-Alain. O osso de uma análise, Salvador: Edigraf, 1998.
  7. MILLER, Jacques-Alain. O Outro que não existe e seus comitês de ética. Curinga, Belo Horizonte,n. 12, 1998.
  8. MILLER, Jacques-Alain. Uma fantasia, Opção Lacaniana, 42. São Paulo: Eolia, 2005.
  9. QUINET, Antônio. Os Outros de Lacan,
  10. SINATRA, Ernesto. @s Nov@s adit@s: a implosão do gênero na feminização do mundo. Florianópolis: Cultura e Barbárie, 2013.
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