Alguns apontamentos sobre o feminino no século XXI sob a ótica da teoria psicanalítica

Texto da psicóloga e psicanalista Marcela Fernanda de Souza para a VI Jornada de Psicanálise

A mulher, desde os primórdios da teoria psicanalítica, e mesmo antes da psicanálise, se; por exemplo consideramos que a mulher está intimamente ligada à noção de pecado original; é símbolo de construção de saber, visto que foram as histéricas que, ao serem escutadas por Freud e, mostrando que o sintoma de que padeciam, se encontrava além daquilo que se via nos corpos, subsidiaram a construção de uma teoria do inconsciente. Nota-se ainda, que, na contemporaneidade, as mulheres, histéricas ou não, obstinadas, permanecem convocando o analista a descobrir o sentido do sofrimento que lhes toma. Por vezes, apresentando o sintoma com roupagem mais sutil que nos tempos de Freud, as mulheres ainda demandam serem escutadas, ainda que no silêncio dos corpos.

Freud marca os anos iniciais da infância como um período crucial na incidência da estrutura psíquica do sujeito, considerando que naquele momento ocorrerá a escolha de objeto. Escolha esta, vinculada à relação triangular de amor estabelecida com as figuras materna e paterna (Freud, 1933 [1932] / 1996). Freud (1931/1996) marcará ainda que a diferença anatômica traz consequências psíquicas discrepantes para meninos e meninas e postula que as peculiaridades femininas tem consequências na formação de caráter e desenvolvimento da feminilidade da mulher.

Mesmo após sugerir que a construção da feminilidade perpassará a lógica intitulada “penisneid”, incorrendo que a mulher freudiana caracteriza-se como aquela que se contenta em dizer “obrigada” aquele que possui o falo e a toma como objeto de desejo (o homem),surgindo o filho como o objeto de satisfação para a mulher, na medida que o bebê incoporará o falo para a mãe; Freud se questionou “O que quer uma mulher?”.

Avançamos após Freud, mas o questionamento do que elas querem ainda surge para o analista. A clínica faz emergir a mulher contemporânea, que por vezes consegue gerir as escolhas em relação ao trabalho, inserida na lógica do capital, mas que padece de algo e faz demanda sobre questões relacionadas ao sexo, à falta, e ao Outro. Demandas que são direcionadas ao analista, seja no âmbito do setting analítico ou nos espaços institucionais de atendimento às demandas contemporâneas em que o psicanalista se faz presente.

Comumente elas surgem às voltas com o imperativo da pulsão, sem nada saber sobre o gozo que lhe invade, na busca de uma interpretação que solucione os impasses do existir. Ora, o que quer a mulher na contemporaneidade, considerando a pluralidade de ofertas de gozo? Ou ainda de quê a mulher sofre?. Tais questionamentos incorrem na contramão do imperativo de felicidade contemporâneo, pois, a mulher vem conquistando um lugar diferenciado no laço social ao longo dos anos. Hoje são detentoras de seus corpos, do saber técnico que as permitem até mesmo equiparação com os homens no mercado de trabalho, e tantos outros ganhos pulverizados no ideal de totalidade. Corpos inflados por suplementos alimentares, ou esqueléticos por comer nada, profissionais bem-sucedidas que procuram o analista para derramar – sim! A análise ganha esse sentido para muitas – suas angústias, seu sofrimento são despejados. Pois bem, de que sofre a mulher?

Suporíamos que a resposta a esta questão seria que a mulher sofre de amor, pois o que ela busca é o amor. Lacan (1972-1973/2008, p.51), sustentará que “O que vem em suplência à relação sexual [considerando que esta não existe, enquanto um encontro que possa ser representado ou escrito], é precisamente o amor”. Se o amor é a cura, em seu sentido de bem-dizer, a mulher contemporânea tem denunciado através de seu sintoma que ainda que “tudo” lhe seja ofertado, a falta se lhe apresenta direcionada ao amor.

Em momento anterior ao propor esclarecimentos sobre a interpelação “O que é ser uma muher?”, Lacan (1955-1956/2008, p.201, 205) aponta que a realização do sexo feminino ocorre de maneira distinta do homem, no Édipo, através da identificação com o que seria o objeto paterno, o que incorre em um desvio suplementar. E em 1973, reitera tal postulação atentando que o gozo feminino é suplementar e não complementar, uma vez que, se o gozo fosse complementar, estaríamos na dimensão do todo. Segue o dito de Lacan:

[…] Não há A mulher, artigo definido para designar o universal. Não há A mulher pois […] por sua essência ela não é toda. Nem por isso deixa de acontecer que se ela está excluída pela natureza das coisas, é justamente pelo fato de que, por ser não-toda, ela tem, em relação ao que designa de gozo a função fálica, um gozo suplementar. Vocês notarão que eu disse suplementar. Se eu tivesse dito complementar, onde é que estaríamos! Recairíamos no todo (1972-1973/2008, p.79).

Lacan nos dirá ainda que decorrente da dissimetria simbólica entre os sexos a posição da mulher constitui-se de maneira problemática, uma vez que ela não possui o falo, incindindo sobre ela a particularidade de ser não-toda no que tange a função fálica, o que significa que lá ela está, mas existe algo a mais (Lacan, 1972-1973/2008). É com esse a mais que a mulher deverá lidar, mas não é possível conceber um modo exato de assim o fazer, pois esse algo a mais é da ordem daquilo que lhe escapa. Ele nos diz:

Há um gozo dela, desse ela que não existe e não significa nada. Há um gozo dela o qual talvez ela mesma não saiba nada a não ser que o experimenta – isto ela sabe. Ela sabe disso, certamente, quando isso acontece. Isso não acontece a elas todas (LACAN, 1972-1973/2008, p.80).

Se o saber implica que haja algo da ordem do desconhecido ao sujeito, a relação com o saber implicará na relação com o gozo, e com o modo como cada uma lidará com esse mais de gozo. O amor entrará nessa dimensão, isto é, ama-se aquele a quem supõe-se saber algo, seja a castração, o amor ou o gozo. Miller (2010) nos dirá que a resposta ao saber pela mulher poderá ocorrer por duas dimensões: ser e ter. Na dimensão de ter incorre a maternidade, sendo que na dimensão do ser implica que a mulher fará semblante – ser o falo, para o homem. Destaca-se ainda que a maternidade poderá transcorrer em patologia feminina, uma vez que se transformando no Outro da demanda – a quem o filho dirige suas inquietudes – a mulher pode se transformar naquela que tem, por excelência. A dimensão do ser poderá ainda implicar em angústia pois trará a dimensão de lidar com aquilo que não se tem, lidar com o nada, o que a coloca na dimensão do semblante. Miller elucida:

A que chamamos semblante? Ao que tem função de velar o nada. Por isso o véu é o primeiro semblante. Como testemunham a história e a antropologia, uma preocupação constante da humanidade consiste em velar, cobrir as mulheres. De certo modo é possível dizer que as mulheres são cobertas porque A mulher não pode ser descoberta. De tal maneira, que é preciso inventá-la. Nesse sentido, chamamos de mulheres esses sujeitos que têm uma relação essencial com o nada. Trata-se de uma expressão prudente, de minha parte, porque todo sujeito, tal como Lacan o define, tem uma relação com o nada. Mas, de certo modo, esses sujeitos que são mulheres têm uma relação mais essencial, mais próxima com o nada (Miller, 2010, p.2).

A contemporaneidade traz como marca a queda dos ideias, dos semblantes; e a oferta incessante de objetos de gozo. Se considerarmos a mulher contemporânea a partir do dito de Miller, pode-se supor que há um enchimento e umtamponamento do nada com os objetos de gozo. Se outrora a mulher foi velada, coberta, vive-se hoje um descobrimento e uma mostração d’Ela. Os corpos que surgem através das roupas micro já não se preocupam em deixar algo a ser desvelado. Há um imperativo que diz: mostre-se! e elas, por vezes atendem a este apelo, pois ser “comportada”, “recatada” não está em consonância com a ordem.

Com a evolução no campo da cultura e do capitalismo surgiram novos modos de tornar-se e fazer-se mulher. A sexualidade feminina tem sido mostrada de maneira diferente, mudaram-se as imagens e os símbolos. Se há alguns anos a mulher seduzia através do velamento do próprio corpo, na contemporaneidade esse corpo é revelado de maneira espetacular.

Soller (2005) nos dirá de uma legitimação do gozo sexual mas chama a atenção para o fato de que isso não ocorre sem que haja conflitos entre as respostas encontradas aos impasses fálicos, o que sugere que a mulher “descolada” não sofre menos que a “recatada”. E a confirmação de tal assertiva se apresenta como apelo na clínica contemporânea, enquanto demanda por uma resposta que faça uma conexão entre o desconhecido estrutural e o imperativo de um saber fluído, intimamente ligado às imagens, que lhe surge. A autora (2005) se atenta ainda para a expressão emblemática do feminino, uma vez que se a mulher apenas “se deixa desejar” sua posição recobrirá a questão do desejo próprio. O que nos indica que tornar-se mulher não incorre em um assujeitamento, ainda que tal posição também faça parte da constituição do sujeito a partir do Outro; mas em um saber lidar com sua marca de ser não-toda. Tarefa árdua na contemporaneidade (mas outrora não foi diferente), mas não impossível. As construções em análise nos dirige para a invenção de um modo de lidar com o próprio gozo, o que subverte o imperativo de felicidade do capital.

Portanto, se são elas diversas, encantadoras e questionadoras no discurso ou através do próprio corpo, por vezes metamorfoseando entre a santa e a puta, são mulheres! Ou por assim dizer, podem se tornar mulher. A mulher, tal como Lacan nos diz, impossível de ser representada, tomada em conjunto,apenas pode ser compreendida uma a uma, através de sua relação com o mais de gozo que lhe toma. Então, torna-se mulher implica que ela possa consentir com sua marca não-toda e experimentar essa particularidade,inventar ummodo próprio de ser mulher. Sendo que, ao psicanalista que escuta as demandas da mulher contemporânea cabe subsidiar o encontro com essa mais, com vistas ao atravessamento dos questionamentos para o saber fazer com o excesso.

REFERÊNCIAS

Freud, Sigmund. Sexualidade Feminina (1931). In: _______. O Futuro de uma Ilusão, o Mal-Estar na Civilização e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 231-251. (Edição standart brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 21).

_________Freud. Novas Conferências Introdutórias sobre a Psicanálise: XXXIII Feminilidade (1933 [1932]). In: _______. Novas Conferências Introdutórias sobre a Psicanálise e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 113-134. (Edição standart brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 22).

Lacan, Jacques. O seminário, livro 3: as psicoses (1955-1956). 2 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

______________Lacan. O seminário, livro 20: mais, ainda (11972-1973). Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

Miller, Jacques-Allain. Mulheres e semblantes II. Opção Lacaniana online. ano1.num. 1. março 2010. Disponível em:< http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_1/Mulheres_e_semblantes_II.pdf&gt;. Acesso em: 31 jul.2015.

SOLER, Colette. O que Lacan dizia das mulheres. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

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1 Comentário

  1. Márcia Ávila said,

    06/10/2015 às 14:06

    Texto espetacular!


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