O CORPO UTÓPICO E A MORAL SEXUAL “CIVILIZADA” NO SÉCULO XXI: Texto de aberturada VI Jornada de Psicanáliise do CEPP

Introdução

É com muita satisfação que dou as boas vindas aos participantes da VI Jornada de Psicanálise promovida pelo CEPP (Centro de Estudos e Pesquisa em Psicanálise do Vale do Aço). Desta vez, excepcionalmente, a Jornada foi realizada em parceria com o Conselho Federal de Psicologia (CFP), a quem agradecemos publicamente.

Prosseguindo com osPanfleto 1 estudos do nosso Centro de Pesquisa, pensamos mais uma vez em abordar nesse nosso evento bianual um tema que apresentasse relevância clínica, política e social para o nosso tempo. Assim, após abordarmos em 2013 “Ⱥ Política da Psicanálise e A Ciência”, ocasião em que discutimos o lugar da Psicanálise em um mundo marcado pela tentativa cientificista de capturar o sujeito numa malha utilitarista pouco subjetivante, elegemos como tema desse ano “A moral sexual civilizada no século XXI”.

Nossa proposta faz uma clara referência ao texto escrito por Freud em 1908, “Moral sexual civilizada e doença nervosa moderna” e a alguns estudos contemporâneos como os realizados pelo Laboratório Transdisciplinar da UFMG: Família, Parentalidade e Parcerias Sintomáticas, que tem como sua coordenadora a psicanalista Marcia Maria Rosa, nossa convidada especial nessa manhã. Nosso objetivo hoje é não apenas retomarmos o texto freudiano como recuperar também algumas proposições de Lacan sobre a sexualidade e rediscuti-las a partir de autores contemporâneos. Seguindo por esse caminho, sempre sustentados pelo saber psicanalítico, visamos nesta Jornada abordar os novos arranjos de gênero, de escolha objetal, de família e até mesmo da legislação vigente em nosso país.

Sabemos que a contemporaneidade vem se apresentando como um amplo campo de discussões a respeito da sexualidade. Após o acontecimento da psicanálise no início do século passado, a revolução cultural dos anos 60 e 70, a passagem de uma sociedade capitalista de produção para uma sociedade capitalista de consumo e o avanço da democracia na maior parte do mundo, novas maneiras de subjetivar e experimentar a sexualidade se apresentaram ou, em alguns casos, se afirmaram com maior força. Com essas novas maneiras de vivenciar o corpo e a pulsão sexual, surge também a demanda de novas interpretações e maneiras de abordar o assunto.

A psicanálise é por diversas vezes convocada a participar desse debate e por diversas vezes também é usada tanto como argumento para conservadores quanto como argumento para progressistas. Também na clínica o psicanalista é chamado a intervir cada vez mais em casos que fogem às experiências mais clássicas de subjetivação da sexualidade. Tanto na esfera política quanto na esfera clínica nos deparamos diariamente com questões como transexualidade, casamento entre pessoas do mesmo sexo, trânsito entre parceiros de ambos os sexos na adolescência, novos lugares do pai e da mulher na sociedade, novas (algumas nem tão novas assim) configurações da família e, na contramão desses fatos, um esforço reacionário de resistir e negar aquilo que já é uma realidade – o que foi o caso nessa semana da espantosa aprovação do Estatuto da Família, projeto que legitima a recusa do Estado brasileiro em considerar distintos arranjos familiares.

Todos esses debates sobre a sexualidade revelam uma disputa de poder sobre o corpo, pois os discursos que surgem desses debates tentam de alguma maneira apreendê-lo. Os discursos religiosos, políticos, sociais, médicos, psicológicos, psicanalíticos e tantos outros, tentam dizer o que é o corpo e com isso determinam o que podem e o que devem fazer esses corpos. É preciso, então, questionar como um saber sobre o corpo faz operar também um poder sobre o corpo. Essa relação entre saber e poder acaba determinando – para usar a expressão de Freud – a moral sexual civilizada de nossa época.

Nesse sentido, antes de iniciarmos oficialmente nossos trabalhos, gostaria de propor uma pequena reflexão sobre o saber e o poder que incidem sobre o corpo. Tocado por dois textos de Foucault e pela consideração do mesmo autor de que “o espaço é o lugar privilegiado de compreensão de como o poder opera”[1], proponho que, por alguns instantes, nos detenhamos nesse espaço onde a sexualidade acontece: o nosso corpo. A partir dessa reflexão, espero abrir novos caminhos de compreensão da relação existente entre saber e poder sobre o corpo e sobre a moral sexual civilizada que essa relação produz – tema maior do nosso encontro.

O corpo Utópico

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FOUCAULT, M. O corpo utópico, As heterotopias. São Paulo: n-1edições, 2013.

Em meados dos anos 60, o convite feito ao filósofo Michel Foucault para conferenciar sobre o espaço no Círculo de estudos arquiteturais de Paris, resultou em dois belíssimos textos que ganharam tradução recentemente para o português. Os textos Corpo utópico e As heterotopias mostram uma faceta poética do filósofo francês e apresentam reflexões sobre o espaço que podem nos ajudar a pensar a temática do corpo na contemporaneidade, tema que nos será muito caro no dia de hoje. Farei um breve recorte sobre as principais formulações de cada um desses textos de Foucault e de como eles podem nos ajudar a compreender os novos processos de subjetivação do corpo e a moral sexual civilizada do nosso século.

No primeiro desses textos, Foucault começa propondo-nos pensar o corpo como o contrário de uma utopia. Se a utopia, neologismo criado por Thomas More em 1516, representa um não lugar (ou: não + topos: lugar) ou lugar que não existe, o corpo seria a antítese disso, já que estamos sempre presos a ele:

“Posso até ir ao fim do mundo, posso, de manhã, sob as cobertas, encolher-me, fazer-me tão pequeno quanto possível, posso deixar-me derreter na praia, sob o sol, e ele [o corpo] estará sempre comigo onde eu estiver”[2].

O filósofo sugere então que todas as utopias seriam na verdade uma tentativa de negar o corpo, criando contos de fadas onde o corpo seria finalmente incorpóreo. O mito da alma seria assim a maior das utopias, pois a alma, em que pese todos os limites do corpo que habita, é livre e do corpo escapa para sonhar, quando dormimos, para sobreviver, quando morremos.

No entanto, deixando-se guiar pelos seus devaneios, o filósofo encontra alguns pontos controversos em sua análise. Pois o corpo, que é o contrário de um não lugar, também possui seus não lugares. O interior da cabeça, onde os sonhos ocorrem, é invisível, assim como é invisível a nuca, o dorso, os ossos, aliás, o corpo nunca é visto por inteiro. Só tenho acesso, a cada momento, a pedaços do meu corpo. O resto eu suponho, são não-lugares. À semelhança do que propõe Lacan em 1949, Foucault irá dizer que é somente no espelho que encontro um corpo mais próximo do que seria uma unidade. No espelho vejo o corpo em pedaços maiores, o corpo quase inteiro. Mas o espelho é, sobretudo, uma utopia. O espelho é exatamente um não lugar. A experiência de olhar-se no espelho é exatamente a experiência de colocar seu corpo num lugar que não existe: o interior do espelho.

Isso faz com que o corpo esteja sempre em outro lugar. Por isso, o corpo é constantemente marcado pelas vestes, adereços e tatuagens. Não é indiferente se sobre um corpo cai um biquíni, um hábito de monge, uma tatuagem de dragão ou um brinco de pena. Cada um desses signos transporta o corpo para outro lugar. Essas reflexões irão fazer com que o autor chegue a uma conclusão contrária a anterior. O corpo é sempre uma utopia: “Meu corpo está, de fato, sempre em outro lugar, ligado a todos os outros lugares do mundo e, na verdade, está em outro lugar que não o mundo”[3]. Mais do que isso, Foucault irá afirmar que o corpo é a utopia fundamental, pois é a partir dele que se orienta toda utopia. “O corpo é o ponto zero do mundo”[4]. É a partir dele que construímos noções como dentro e fora, direita e esquerda, abaixo e acima. “Meu corpo é como a Cidade do Sol, não tem lugar, mas é dele que saem e irradiam todos os lugares possíveis, reais ou utópicos”[5].

O corpo é, portanto, a primeira utopia e como utopia será sempre efeito de uma construção. A exemplo do que Simone de Beauvoir diz sobre a mulher, poderíamos dizer: não se nasce com um corpo, constrói-se um corpo. Por isso, Foucault lembra-nos que as crianças levam tempo para saber que têm um corpo. Da mesma forma, os gregos não possuíam uma palavra que designasse o corpo: “A palavra grega para dizer corpo só aparece em Homero para designar cadáver.”[6]. E o cadáver é outra utopia, ele só está onde e quando não mais estamos. O corpo, portanto, sempre dependerá de um outro lugar para se constituir: o cadáver para os gregos, o espelho para as crianças. Foucault ainda acrescenta uma terceira vertente para a constituição do corpo: o amor. Nas mãos do outro e sob seus olhares, o corpo toma forma: “O amor, também ele, como o espelho e como a morte sereniza a utopia de nosso corpo, silencia-a”[7].

As heterotopias

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Michel Foucault (1926-1984)

Já em As heterotopias, Foucault sugere que toda sociedade apresenta suas utopias. Mitos, lendas, cidades sem lugar e histórias sem cronologias. E o autor sugere algo mais: toda sociedade possui utopias que têm lugar preciso e real, situável no mapa. É o que o autor chamou de contraespaços ou heterotopia. Para ficar em poucos exemplos citemos o teatro, o cinema, o fundo de um jardim, a grande cama dos pais:

“É nessa grande cama que se descobre o oceano, pois nela se pode nadar entre as cobertas. Depois, essa grande cama é também o céu, pois se pode saltar sobre as molas; é a floresta, pois pode-se nela esconder-se; é a noite, pois ali se pode virar fantasma entre os lençóis; é enfim o prazer, pois no retorno dos pais, se será punido”.[8]

Esses contraespaços seriam ao mesmo tempo um lugar situável no tempo e no espaço e também uma série de não lugares. E se aproveitássemos essa referência para pensar o corpo também como uma heterotopia? Foucault não chega a incluir o corpo na sua lista de heterotopias, mas se estamos dispostos a estudar o corpo como um espaço, não seria essa uma ótima definição para ele? Lugar que não podemos fugir, sempre situado no tempo e no espaço ao mesmo tempo que é um lugar que comporta infinitos não-lugares. Assim, o corpo é como o palco de um teatro ou, para usar a analogia de Foucault, a grande cama dos pais.

O ponto zero do mundo e da moral sexual civilizada

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Sigmund Freud (1856-1939)

Vimos que além de pensar o corpo como uma utopia (ou uma heterotopia), outra consequência que podemos tirar de estudarmos o corpo como um espaço é pensá-lo também como “o ponto zero do mundo”, ponto a partir do qual giraria todas as outras utopias, heterotopias e lugares reais. Bom, isolemos um ponto um pouco mais consensual e trabalharemos com o corpo como “o ponto zero da sexualidade”. Será, portanto, a partir desse ponto (que pode ser entendido como uma heterotopia), que será disposta nossa sexualidade. O dentro e o fora do sexual, a direita e a esquerda, o abaixo e o acima. Mas, se o corpo é um contraespaço, então ele comporta uma infinidade de lugares e não-lugares sexuais.

Talvez seja por isso que Freud, ao discutir a moral sexual civilizada sugere que houve na história da humanidade mais de um tipo de moral e que elas se divergem. Em outras palavras, uma moral sexual civilizada sempre dependerá da utopia que o corpo assumiu, seja no espelho, no cadáver ou, principalmente, no amor. O pai da psicanálise sugere que não apenas houve diferentes construções morais sobre o sexo – portanto várias utopias para o corpo – como também indica que não temos nenhuma razão para reivindicar uma moral sexual universal: “Uma das óbvias injustiças sociais é que os padrões de civilização exigem de todos uma idêntica conduta sexual”[9]. É notável a conclusão a que chega o pai da psicanálise ao final de seu texto sobre a moral sexual civilizada de sua época propondo ali uma reforma:

“Certamente não é atribuição do médico propor reformas, mas me pareceu que eu poderia defender a necessidade de tais reformas se ampliasse a exposição de Von Ehrenfels sobre os efeitos nocivos de nossa moral sexual civilizada, indicando o importante papel que essa moral desempenha no incremento da doença nervosa moderna.”[10].                                                                                  

Em que pese todas as limitações e preconceitos da contemporaneidade para lidar com novos modos de subjetivação do corpo e do sexo, não podemos dizer que nenhuma reforma foi feita. Parece que a psicanálise contribuiu para que algumas mudanças acontecessem, mas a contemporaneidade demanda tanto da psicanálise quanto de outras abordagens um avanço ainda maior nessa reforma. Principalmente quando escutamos as vozes do conservadorismo que tenta forçar a qualquer custo uma contrarreforma.

Para um contraespaço, um Manifesto Contrassexual

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PRECIADO, B. Manifesto Contrassexual. São Paulo: n-1edições, 2014.

Podemos citar como uma das principais vozes que reivindicam o avanço dessa reforma da moral sexual civilizada, ou quem sabe uma revolução, o autor espanhol Beatriz Preciado. Para Maria-Hélène Bourcier, quando Preciado escreve seu Manifesto Contrassexual, ele toma “o corpo como espaço de construção biopolítica, como lugar de opressão, mas também como centro de resistência (…) o corpo é também o espaço político mais intenso para levar a cabo operações de contraprodução de prazer”[11]. De forma semelhante a Foucault, Preciado pensará o corpo como um espaço e sugerirá que o sexo é uma tecnologia operada nesse espaço. Dizer que o sexo é tecnológico, significa dizer que ele está do lado da techné e não da physis. Em outras palavras, o corpo é um instrumento dessa tecnologia. Mas não um instrumento que transforma o que é natural em artificial, mas um instrumento que cria tanto o artificial como a própria natureza. A tecnologia, para Preciado, cria o natural. Em outras palavras, a tecnologia do sexo inventa uma utopia para o corpo e mesmo quando chama essa utopia de natural, não deixa de situá-la como uma produção tecnológica. De forma ainda mais direta e clara, o autor completa:

“…o corpo é um texto socialmente construído, um arquivo orgânico da história da humanidade como história da produção-reprodução sexual, na qual certos códigos se naturalizam, outros ficam elípticos e outros são sistematicamente eliminados”.[12]

índice

Beatriz Preciado (Burgos, 1970)

Dizer que o corpo é um texto socialmente construído é encará-lo como um espaço aberto a várias utopias, portanto um contraespaço, uma heterotopia. Assim, o corpo seria um espaço que comporta várias utopias, como um palco de teatro. Por isso também, Preciado afirma que o saber sobre o corpo é no fundo performativo[13]. Dizer que um corpo é masculino ou feminino é performativo. Faz parte da utopia do corpo. Por isso podemos repetir que o corpo é como a já citada “grande cama dos pais”. Espaço onde construímos nossas utopias, mas que se encontra vinculado ao Outro. Não por acaso, Miller irá afirmar que a família é um mito ou um conto que dá forma épica à estória de “como o gozo que o sujeito merecia lhe foi subtraído”[14]. Assim, a família seria o meio que acolhe e insere a criança na cultura, contando de certa forma sua história, ainda que haja sempre um ponto de silêncio em toda família. Para Miller, o lugar do Outro se encarna na figura da família, o que nos convida a pensar que os pais são aqueles que oferecem sua grande cama para que o sujeito crie suas utopias e faça do seu corpo também uma heterotopia: lugar que não podemos fugir, situado no tempo e no espaço, mas ao mesmo tempo lugar que comporta infinitos não lugares. Como “a grande cama dos pais”, o corpo é céu e oceano, floresta e noite, prazer e punição.

Conclusão

Bom, fico por aqui e espero que essa breve exposição toque nossas reflexões e ilumine nossos debates de hoje. Afinal, temos uma Jornada de trabalhos significativa pela frente. A começar pela primeira mesa, que tem como tema principal A Feminização do Mundo, com os trabalhos das psicanalistas Cássia Túlio e Marcela Fernanda e do psicanalista Everton Fernandes.

Panfleto 2Logo após a primeira mesa de trabalhos, receberemos nossa já citada convidada especial, a psicanalista Marcia Maria Rosa Vieira Luchina, que nos falará sobre Novas estruturas elementares de parentesco: família, parentalidade e parcerias sintomáticas.

Após o intervalo para o almoço, retornaremos 13h30 para nossa segunda mesa de trabalhos quando abordaremos A família e a moral sexual através das apresentações de Virgínia Sanábio, Israel Tainan, Maura Gerbi Veiga e Fernanda Coelho.

Fecharemos nosso evento com a apresentação do nosso segundo convidado especial, o psicanalista Guilherme Massara Rocha, que nos deixará com algumas reflexões sobre A moral sexual civilizada no século XXI. Desejo a todos um ótimo trabalho e agradeço mais uma vez todos os participantes, ouvintes e palestrantes.

Boa Jornada!

 

Referências Bibliográficas

FOUCAULT, M. O corpo utópico, As heterotopias. São Paulo: n-1edições, 2013.

FREUD, S. (1908). Moral sexual civilizada e doença nervosa moderna. In: FREUD, S. Ed. Standard das Obras Completas de S. Freud, v 9. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

MILLER, J.-A. Assuntos de famílias no inconsciente. Revista eletrônica do Núcleo Sephora, v 2 n 4, mai a out, 2007.

PRECIADO, B. Manifesto Contrassexual. São Paulo: n-1edições, 2014.

NOTAS

[1] FOUCAULT, 2013, p.52

[2] Ibid, p.07

[3] Ibid, p.14

[4] Ibid, p.14

[5] Ibid, p.14

[6] Ibid, p.15

[7] Ibid, p.16

[8] Ibid, p.20

[9] FREUD, 1996/1908, p.177

[10] Ibid, p.186

[11] Boucier, 2014, p.13

[12] Preciado, 2014, p.26

[13] Ibid,p.28

[14] Miller, 2006, p.04

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