Psicanálise, ciência e política no século XXI (por Fernanda Otoni Brisset)1

Sabemos que, quando alguém se submete à experiência analítica, se
afasta da vida pública para mergulhar na experiência singular que acontece
entre a confidência de dois parceiros. Por essa via, o analisante pretende
encontrar aí o alívio de alguns males íntimos, os elucidando através dessa
experiência. Contudo, Freud já previra que a psicanálise iria além do que
acontece entre quatro paredes, que gradualmente ela produziria, mais adiante,
na sociedade, o que ele não hesitou em chamar de uma, elucidação psicanalítica
que resultaria “numa tolerância social inédita, precisamente, no que diz respeito
às pulsões” (Miller, 2003, p. 106).

Miller (2003), a esse propósito, comentara uma decisão do Tribunal dos
EUA que acabou com as leis que puniam as condutas sexuais desviantes, pois a
corte concluiu que o Estado, com a criminalização das condutas sexuais
privadas, não acabaria com a sua existência e nem controlaria o seu destino. Fui
verificar como estava essa questão recentemente, depois de dez anos, e não
levei um segundo para descobrir que o casamento gay está em discussão,
inclusive, no epicentro da luta pela presidência dos EUA.

Parece incontestável que o acontecimento Freud colocou a pergunta
sobre o sexual na boca do povo. Ainda que não exista consenso, fala-se disso. Se
a política toca a matéria do gozo, a opinião do povo se divide. A substância pulsional esparrama-se no tabuleiro, perturbando o jogo político. Há os que são
contra, os que são a favor.

Barack Obama declarou ser favorável, seu adversário, contra. O The
New York Times do dia 11 de maio de 2012 publicou uma matéria de Peter
Baker afirmando que, enquanto fartos dados apontam que heterossexuais não
querem casar ou adiam ao máximo o casamento, gays se mobilizam para gozar
desse direito. Enfatizava Baker que, da arena social e política aos tribunais, o
que pareceria impensável nos anos 90 está se tornando cada vez mais comum.
Homossexuais servindo ao Exército, casando e adotando filhos, enquanto a
geração mais jovem não entende o porquê de tanta polêmica. Exemplo de uma
tolerância social inédita frente à pulsão e seus destinos.

A influência política da psicanálise pode ser percebida a longo ou médio
prazo. Miller (2003) dirá que a “Sua influência é como um contágio, uma
dilatação tranquila, a expansão de um perfume, um espírito invisível […].
Alguma coisa teve lugar em Freud que é da ordem do consentimento e não
apenas da confissão” (Miller, 2003, p. 108). O mundo, hoje, é esclarecido quanto
à força das pulsões. Isso que se satisfaz de qualquer jeito. Essa elucidação, nós a
devemos ao acontecimento Freud.

Foi então, cochichando no ouvido dos príncipes, na forma de uma
dilatação tranquila, que a psicanálise contribuiu para mudar o mundo no século
XX. Tempo florido simbolicamente, no qual as ideologias faziam marchas cujos
slogans não nos deixam esquecer: “Paz e amor!”, “Sexo, drogas e rock and
roll!”, “É proibido proibir!”. “A queima dos soutiens” na praça pública, queima
que nunca aconteceu, deu seu recado – ideologia, eu quero uma pra viver!
Refrão cantado pelas caras pintadas que marcaram no rosto as cores de um
Brasil, sem Collor, em 1993. Movimentos que exalavam odores, dentre eles o
perfume da psicanálise. Souvenirs do século XX.

Contudo, o simbólico não é mais o que era no século XXI e entramos
numa nova era, na qual é menos a felicidade coletiva o que se busca e mais o
gozo do eu sozinho. Miller (2003) constata que nós não estamos longe de ver
inscrito como um direito do homem o direito às pulsões, a seu gozo em si. O
gozo passou a ser uma questão de política, o que era da ordem privada se
tornou público e a psicanálise não pode mais manter a mesma distância da
política que mantinha no século das ideologias. “Está em jogo um vasto
movimento, um destino da modernidade” (Miller, 2003, p. 122).

Miller aponta o dedo na direção da ciência, bem como fez o Lacan de
1973. “O discurso da ciência tem consequências irrespiráveis para o que se
chama a humanidade. A psicanálise é o pulmão artificial com a ajuda do qual
tentamos assegurar o que é preciso de gozo no falar, para que a história
continue”. Lacan continua: “se não fosse o estado de insuficiência e de confusão
onde estão os analistas, o poder político já teria colocado a mão nele” (Lacan,
1973/1974, p.7). Lacan, naquela entrevista, alerta aos analistas que ficar na mão
do poder político retiraria deles qualquer chance de ser o que eles devem ser.

O que devem ser os analistas? “Compensatórios”, dirá Lacan – os que
trabalham para que não falte o ar. Operadores da subtração. Em verdade, desde
o seu inicio, a força política da psicanálise recolhe seus efeitos exatamente por
destituir a crença na solução universal, nos imperativos da tradição, no
pensamento único, diluindo as identificações em massa, sustentando a
vitalidade de um furo operante, um vazio pulsante. Portanto, lá onde vigora a
fórmula para todos a operação analítica subverte, para que possa acontecer por
essa brecha a solução de cada um. Operar como “pulmão artificial”, palavras de
Lacan, é abrir lacunas para passagem no falar de um gozo singular, assegurar
esse direito de se manter vivo frente ao poder asfixiante e normatizador do
discurso da ciência.

Isso quer dizer que a operação analítica, a psicanálise é contra a ciência?
Claro que não! Aliás, a psicanálise é consequência da emergência da ciência,
“ela mesma seria impensável antes da idade da ciência” (Miller, 2003 p. 110).

Será que poderíamos falar de discurso da ciência? Ou só podemos falar
de discurso da ciência quando esta está enodada ao discurso capitalista. Essa
brecha entre discurso e ciência pareceu-me fundamental para nossas
elaborações quanto à política da psicanálise na era do direito ao gozo, pois não
me parece que possamos enfrentar os impasses trazidos por esse tema sem tocar
na ciência e no discurso capitalista.

A partir desse ponto de inflexão, lembrei-me da leitura recente que refiz
de Jean-Claude Milner (2003), por ocasião dos Fóruns psis. Ele vai dizer que o
“cientificismo” e as leis de mercado, quando reduzidos a si mesmos, não devem
fazer medo; podemos fazer bom uso deles. “Mas quando a gente combina um
com o outro, quando a gente os confunde, um monstro surge” (Milner, 2003, p.
9). E se aí juntarmos a administração, encontraremos o estado atual da nação
que se sustenta por esses três vetores: o cientificismo, a ideologia de gestão
guiada pelas leis de mercado e a regulação administrativa ilimitada. Segundo
Milner, uma única palavra mestre faz o laço entre eles: a avaliação.

O avaliador administrativo tem todos os direitos e reivindica o direito ao
respeito, pois ele faz tudo à luz da ciência. O cientificismo o garante. O
avaliador comerciante/mercadológico tem todos os direitos, não somente
aquele do mais forte, mas também o do mais sábio, ele faz tudo em nome do
bem público. O grande funcionário o garante. O inventor de regulamentações
tem todo o direito, sobre os corpos e sobre as almas, sobre as coisas e sobre os
homens; a lógica científica e a lógica contábil o garantem (Milner, 2003, p. 9).

Essa tríplice aliança, entre a ciência, o mercado e a administração pública
parece então transformar e reunir cada um desses campos em função de um só
discurso, o capitalista, que gira tendo como agente os diversos índices do “mal
viver”, na promessa de produzir e distribuir o bem viver para todos, escala
infinita. A partir dessa aliança, o discurso capitalista passou a reger a lógica
política, precisamente fazendo sua injunção no campo das pulsões.

Jorge Alemán, recentemente, numa entrevista ao Jornal Clarin
(26/04/2012), também procurou distinguir a concepção primeira de ciência e o
que ela se transformou. Ele dirá que “a ciência – no sentido moderno de sua
acepção – tinha alguma relação com a verdade. Na experiência da ciência estava
o descobrimento, a subjetivação, a fundação de um novo lugar. Através da
ciência sempre aparecia um novo objeto no mundo”. Contudo, ele destaca que
parece ter havido uma mudança sensível para os que bem observam as
reversões da história. Hoje, a ciência acontece menos no primeiro sentido de sua
acepção, pois testemunhamos um investimento maciço em uma prática
científica de caráter protocolar, acéfala, aquela que está empenhada em
produzir tecnologia. Mas a ciência não é uma técnica, afirma Alemán.

A técnica não tem nenhum objeto. Ao contrário, é a integração de todos
esses saberes a serviço de destruir a impossibilidade, a serviço de produzir um
novo tipo de realidade em que o impossível não tenha lugar. Na ciência havia
impossível, havia limite (Alemán, 2012).

Digamos que a relação entre ciência e verdade, na acepção primeira do
termo, alcançou o que Lacan explicita no Seminário 20: na verdade, há o gozo.
Frente a esse impossível, Miller (2003) afirma que a ciência franqueou os limites
deixados por Descartes, a saber: não tocar na religião, na moral e na política.
Desde então, a partir dessa aliança, a ciência tornou-se outra coisa: um serviço
de utilidade pública. O que abriu o mundo a uma nova desordem. O mundo
hoje não é mais freudiano, ele é lacaniano. E a tarefa incessante da falsa ciência
não é mais lançar um novo objeto, mas fabricar em série infinitas réplicas do
único objeto que interessa: o objeto a no zênite social.

Talvez tenha sido desde essa virada, visando eliminar o impossível e
alcançar o ilimitado infinito, que vimos um desenvolvimento científico
desenfreado visando novas tecnologias – tecnologias voltadas para fabricação
de toys para satisfação do imperativo de gozo. A lista é sem fim, vai desde
medicamentos, instituições de monitoramento e controle até ipads nova geração
do infinito Google.

O impossível parece ser possível. A resposta dos governantes e das suas
comissões científicas, em escala mundial, tem alimentado a aceleração do
sistema burocrático e tecnológico de gestão dos corpos – a biopolitica. Essa
aceleração, segundo Célio Garcia (2011), impulsiona um mundo que não para
para pensar, não tem tempo a perder – o que produz, por efeito, respostas
precárias do ponto de vista simbólico, mas exuberantes atuações e compulsões. A clínica dos novos sintomas o comprova. Contudo, em resposta, esses
sintomas dessa época têm sido avaliados e contabilizados em manuais cada vez
mais excessivos nos termos das suas classificações, gerando uma produção
infinita de pílulas pela indústria farmacêutica, cuja turbina não cessa, trabalha
sem parar. Recurso importante com o qual o projeto de uma sociedade de
controle tem sido levado adiante.

A medicalização generalizada é um exemplo, mas, de modo geral, somos
bombardeados cotidianamente por programas de governo que visam a eficácia
no controle das populações, prometendo a distribuição da felicidade para todos.
Sobre prometer o bem, a experiência analítica nos ensina que isso leva ao pior.

Miller (2012a) nos lembra que não encontramos em Lacan nenhuma
palavra que nos fizesse pensar que ele entretinha-se com a ideia de alguma
cidade radiante, fosse ela encontrada no passado ou vislumbrada em algum
lugar futuro. Sem nostalgia, mas também sem esperança. Aos olhos de Lacan, a
política joga com a identificação, ela manipula os significantes mestres, e é por
aí que ela procura capturar o sujeito. A parceria com os mestres está aí. Lacan
concebeu o discurso do mestre como o avesso do discurso da psicanálise, pois a
psicanálise vai contra as identificações do sujeito, ela as desfaz uma a uma, as
faz cair como as cascas de uma cebola.

Com Lacan podemos dizer que a psicanálise é o avesso da política, da
ciência, de tudo que conspira a favor do discurso do mestre e da produção em
massa. O acontecimento Lacan imprime no espaço público uma desconfiança
para com os ideais, os sistemas, as crenças e as promessas que a falsa ciência
produz e que se espalha feito pólvora no campo da política. O psicanalista,
quando é analista, não é um crente, não segue a procissão. Ele leva o sujeito à
sua vacuidade primordial, a um saber fazer com os furos que a linguagem faz
no corpo como modo de acessibilidade ao seu direito ao gozo. Pois sabemos
que o modo de satisfação, as soluções sintomáticas se demonstram, um por um,
sem igual e não se encontram nas prateleiras, nas vitrines ou portais de teses.
Sem predição ou prescrição.

Concordo com Miller (2012b)2 que, à medida que a sociedade de
controle é reforçada, impasses inéditos dão à psicanálise uma nova urgência,
tanto no nível terapêutico quanto naquele do pensamento.
Hoje, em escala universal, o discurso capitalista promete e decreta para
todos: Goze! Seja feliz!. A felicidade é anunciada como uma ordem de ferro. Uma
ordem “para todos” e que não admite exceções, formatando os protocolos da
gestão democrática. Por um lado, brotam, desse universo hedonista,
aglomerados de Um(s) que falam sozinhos e vivem da vantagem de não
precisar de ninguém, de não ter que responder a nenhuma instituição ou ideal,
sendo bastante e suficiente a parceria solitária com o objeto do gozo. Cada qual
“no seu quadrado”, entregue ao autismo nativo do ser. Objetos fabricados em
série, como pílulas dessa política, são engolidos compulsivamente através do
consumo louco por felicidade. Mas isso não funciona tão bem, isso fracassa. A
atualidade do sintoma se apresenta ao modo das compulsões, depressões,
violência, acontecimentos de corpo e desamarrações diversas.

As engrenagens da burocracia de gestão movimentam-se, a mil por hora,
visando ao controle e ao bem-estar social, pretendendo extirpar da ordem pública os novos sintomas, por meio de um “novo higienismo”. A tática da
segregação atualiza-se em novos campos de concentração, agora separados por
diagnósticos, obra de uma certa ciência, como Lacan previra.

Se no momento atual não basta mais cochichar no ouvido dos príncipes,
ao ofertar a palavra e a escuta de sua singularidade, a experiência analítica
aposta ser possível tocar a divisão de um por um para fazer vacilar os
semblantes, deslocando o empuxo maciço da oferta higienista, mercadológica,
normativa e homogeneizante que leva ao pior.

É nesse momento, o atual, que a força política da psicanálise toma para
si, mais do que nunca, a responsabilidade de dirigir-se aos outros discursos,
jogando sua partida com o seu avesso, o clássico discurso do mestre;
enfrentando a fórmula alterada do amo moderno, o discurso capitalista, ou
mesmo frente aquele universitário, o incansável técnico avaliador cientifico.
Não temos a resposta sobre o que é o bem, qual é a solução, etc. A nossa visada
é transmitir o que a clinica ensina, a saber, que onde aparece a unidade
uniforme e homogênea, existe o equívoco, ali habita a divisão não considerada
quando se toma a massa como o todo.

O QUE ENSINA A EXPERIÊNCIA ANALÍTICA SOBRE A POLÍTICA DA PSICANÁLISE?

A política faz parte do percurso de uma análise, sempre que, no manejo
da transferência, as intervenções do analista alcançam o gozo de cada um. Onde
se fizer ouvir a ordem de ferro, a tirania do S1, ali, o analista abre uma brecha,
por onde o que há de mais singular para o sujeito possa advir, como condiz à
experiência analítica. A política da psicanálise diz respeito ao gozo, ao ato
analítico e suas consequências.

Por outro lado, o que escutamos no setting analítico, um por um, não
permite ao analista recuar frente aos impasses que traduzem o sofrimento em
cada época, isso o entrega a tarefa de não silenciar. Freud e Lacan jamais
silenciaram. A nossa responsabilidade não se reduz ao que acontece entre
quatro paredes e exige-nos engajar como analista cidadão nos debates do
momento atual.

O que pode a psicanálise quando as questões que dividem a sociedade
expressam-se na forma singular de uma demanda de análise, enunciada pela
angustia de um sujeito que, dividido ou submetido, procura um analista? Via
de regra, a divisão do sujeito se apresenta lá onde a matéria do gozo não se
conforma à ordem simbólica. Numa análise trata-se disso; cada um tem que se
haver com sua desordem mais íntima, inconfessável e sem igual no Universo.

Mas frente as exigências de um mundo organizado pela lógica do
universal, como tratar o único, o singular de cada um que não cessa de tentar
não se inscrever? A psicanálise sabe que o universal possível é o conjunto dos
singulares, pois é impossível um conjunto de identidades uniformes. Nossa
tarefa, como analistas, vive do oficio de operar para arejar os discursos, manter
aberta a válvula de escape, os furos respiratórios, para dar passagem a exceção
de cada um, por esse mundo diverso, sempre não todo uniforme.

Portanto, em questões de sociedade, não cabe ao analista silenciar-se ou
manter-se neutro. “Aquele que pratica a psicanálise deve, logicamente, querer
as condições materiais de sua prática”.(MILLER, 2012) 3. A psicanálise só é
sustentável, onde é possível praticar a ironia, questionar os ideais, onde não
impera uma ordem totalitária e o sujeito tem o direito de falar o que lhe passa
pela cabeça. Isso caminha em nome da liberdade de expressão e do pluralismo,
orienta Miller.

Como transmitir o pluralismo dos nomes do pai, da causa de cada um e
do direito aos pedacinhos de gozo que cabe a cada um nesse latifúndio? Célio
Garcia, dirá: “levar o pensamento político a adotar a diversidade, integralmente (…) Eu penso, eu espero, no íntimo de meu coração de analista, que a psicanálise
faça o pensamento político sair dessa limitação.”(GARCIA, 2012) 4.

Levaremos isso a sério! Tomemos a diversidade como uma orientação
para pensar a política da psicanálise. A psicanálise não é uma Igreja ou um
exercito. Desde Freud, dispensamos o pensamento único e restamos com o que
ensina a diversidade dos modos de viver o gozo, a singularidade do sinthoma
de cada um. Quem faz análise sabe que ali se confessa e se trata de dar um
destino ao gozo, sempre mais além das soluções coletivas.

Sabemos que experiência de uma análise, caso a caso, esclarece-nos sobre
a natureza do real sem lei, do sexual que faz furo no saber. O determinismo do
gozo desconhece a lei, o saber e a política. A pulsão exige seu quinhão, não
importam os meios, e quando aparece, divide a ordem simbólica de uma época.
Esclarece que há um furo nessa ordem. O laço social é um laço contaminado por
essa divisão. E é mesmo por isto, que estamos em condição de fazer política, tal
como a entendemos: A política do não todo, a política da clinica, orientada
quanto a divisão que inaugura a experiência subjetiva.

Nas questões de sociedade, também, notamos a presença incisiva do
índice da divisão. São questões que interrogam a ordem dominante, a
infringem, expõem sua fratura e dividem a opinião pública. Diria que há uma
certa relação entre divisão e o fora da lei. Se no campo das diversas formas
simbólicas, do discurso, do saber e da política, está a lei e a ordem; no campo da
natureza pulsional, a substância gozante não é nada obediente, lá existe o real
sem lei e a desordem.

Quando falamos das questões de sociedade, surgem os significantes que
dividem. Onde se enunciam, iluminam a discórdia da linguagem, são
insuficientes para esgotar a verdade que tocam. Drogas, por exemplo, é um significante dessa ordem. O que essa palavrinha comporta de verdade? O
significante crime, traz também o impossível de tudo dizer. Falemos de drogas
ou de crimes, a conversa não tem ponto final, caímos no desacordo polêmico
das questões de sociedade.

Visando “ativar por todos os lados o poder das lacunas”, provocar furos
na ordem de ferro e fazer vacilar as unanimidades, passo a relatar um pequeno
fragmento de um caso público.

E AGORA, JOSÉ?

Era um garoto que desde a adolescência fez sua marca por sua aderência
aos ideais revolucionários. Trago para vcs seu currículo, disponível em páginas
da web: foi líder estudantil, foi preso em função de seus ideais e deportado do
pais em troca da liberação de embaixador estrangeiro. Fez plásticas, mudou de
nome para não ser identificado. Quando voltou pro seu país, viveu na
clandestinidade. Não cessava de infringir e contestar a ordem dominante (a
direita de sua época), e novamente ameaçado, procurou abrigo em outro
continente. Só retornou para a sua pátria com a redemocratização e ajudou a
fundar um partido de esquerda. Foi seu líder. Seguiu carreira política: foi
deputado, até assumir o cargo de ministro chefe da casa civil. Por todos os
meios, nunca deixou de tentar realizar a revolução. Talvez esse fosse um dos
nomes de sua causa mais íntima. Seu currículo traz a lista do muito que fez pelo
seu pais. Fiel a sua causa, escreveu seu nome na história, seu currículo
disponível na web termina aqui. Não fala mais nada.

Para saber mais é preciso recorrer aos tablóides. Dizem os jornais
nacionais que, ao se dar conta que seus colegas parlamentares seguiam outra
causa que não a sua, elaborou um plano para dar a cada um o que supôs que
pudesse causá-los e executou seu ato. Em troca, eles votariam a favor de seus
projetos de governo, quiçá, planos revolucionários de um outro pais para se
viver. Há controvérsias! Por seu ato foi julgado e condenado como o autor dessa
pratica ilícita. E agora, José?

Essa vinheta de caso publico nos esclarece que a causa não faz par.
Contudo se alcança o campo social, quando o gozo de cada um se esparrama no
tabuleiro publico e o transtorna, estamos diante de um fator de política, de
modo mais amplo. A opinião publica se divide, os mecanismos de gestão da
desordem são acionados e cada um responde pelo impossível de governar de
seu gozo. Com Freud, digamos, são as vicissitudes da pulsão. A história da
humanidade encontra aqui sua matéria indizível.

Para alcançar o seu fim, Freud afirma que o objeto da pulsão pode ser
qualquer um. Isso só quer se satisfazer, por todos os meios. Entra nas brechas,
extraindo satisfação de pequenas e pequetitas revoluções, a cada vez. Zé não
roubou, era um jovem de classe média e continua sendo, dizem que não
enriqueceu na política. É pena que ele tenha se deixado iludir, que não
encontrou outros meios que os ilícitos para seguir com sua causa. É pena. É a
sua pena. Zé, um jovem infrator.

Como separar a causa revolucionária do Zé e o seu crime? Trago esse
evento não para inocenta-lo, longe disso. Mas para formalizar essa divisão que
nos preocupa e, desde Freud, interessa a política da psicanálise.

De repente, os Zés da vida, se dão conta que há algo de um não sabido
em seu ato, que nem tudo está sob o seu controle. O caso do Zé, é exemplar: ele
não é diabólico, ele é simplesmente humano. Se por um lado, nada é mais
humano do que o crime, por outro, eu diria, não há nada mais democrático que
o gozo. Nenhum partido está a salvo! Seja de direita, de esquerda, de centro
esquerda, de centro, etc. Sejamos claros, o episódio do mensalão não é uma
questão de partido é uma questão de sociedade. Sempre existe o risco do poder
servir a cada um para gozar em causa própria. O STF dividiu-se, ânimos
aflorados, não foi possível julgar a todos como farinha do mesmo saco. Não há
unanimidade. O impossível fura a tese da homogeneidade. De alguma maneira,
ali se transmitira que cada um naquela maçaroca e, mesmo o líder, está sozinho,
cada um em causa própria. Esse episódio ensina que há um deslocamento
fundamental entre política e verdade, tal como a entendemos.

O Um sozinho – o líder – elevado a condição de liderança, ao cair na
esparrela do gozo, atualiza o que há de mais singular e não compartilhável.
Demonstra, publicamente, que tem alguma coisa que não cessa e que não é
obediente e a psicanálise sabe disso mais do que ninguém, orientada quanto a
divisão e as escolhas forçadas da pulsão. Como responder? Trata-se por um
lado de dizer sim a responsabilidade de cada um para com seu gozo. Não
existem inocentes. Sobre o gozo, os Zés da vida são chamados a responder.
Contudo, é nossa responsabilidade, sustentar no debate publico o impossível de
curar. Nenhuma sociedade se cura do humano, nossa pergunta não está do lado
de como curar o homem do seu gozo, mas qual a forma de resposta da
sociedade frente a natureza do real sem lei, o mal que está na civilização, e a
desordem incessante que está na base de seu fundamento. Com quais recursos
uma sociedade pode contar para regular isso que não cessa?

Hoje temos a oportunidade de discutir e questionar os modos universais
de tratamento das escolhas forçadas da pulsão, quando está em questão os atos
de violência, a intoxicação generalizada, drogas licitas e ilícitas, as indisciplinas
relativas às regras escolares, às agitações do corpo infantil, os diversos espectros
do autismo do ser, etc. Também a divisão da sociedade quanto ao casamento
entre pessoas do mesmo sexo, etc.. Polêmicas que questionam o universal
normativo impossível através das respostas singulares da nossa clinica.

Cabe a psicanálise, por sua experiência, esclarecer a política mais ampla
sobre o impossível em jogo quando se trata de tentar limpar das cidades as
marcas da pulsão. Perguntaremos incansavelmente, a cada vez, porque essa
ordem e não outra? Não existe uma cidade asséptica, toda pretensão de realizala
culminou em fazê-la deserta dos humanos.

Sua contribuição, ao debate atual, consiste em apresentar o que a clínica
ensina sobre as contradições inerentes ao discurso, as divisões do sujeito, a
natureza indomável da pulsão que não cabem em nenhuma forma, pois
caminha sempre em conflito com a ordem simbólica de cada época. Isso nós não
vamos resolver, mas podemos esclarecer.

A psicanálise torna-se assim, um instrumento político, ela cria e oferece
ao mundo atual, o que ela sabe sobre divisão. O que ensina a experiência
analítica, a psicanálise oferece e põe a disposição nos debates de sociedade. A
psicanálise quando toca na divisão ela faz política.

Os analistas sabem que o que divide é o gozo mas mesmo os não
iniciados na epistêmica lacaniana, também são esclarecidos. O povo sabe: As
paixões nos dividem. E é frente a essa divisão que o sujeito toma a decisão que
lhe concerne, responsável por seu destino.

Quando está em jogo o império da dominação, isso acaba produzindo o
sossego que faz dormir a singularidade viva que desperta o desejo de viver.A
experiência analítica, um por um, cuida para que o programa pulsional de cada
um tenha as condições materiais para apresentar a força que advém de sua
causa e de sua divisão e extrair alguma satisfação do seu direito à palavra e de
seu projeto de vida. Procuramos, portanto, favorecer a diversidade e a divisão,
como resposta da política da psicanálise aos impasses de nossa época!
Uma orientação lacaniana!

NOTAS

1 Coordenadora do Núcleo de Psicanálise e Saúde Mental do IPSM-MG (Ipatinga e Montes
Claros) Coordenadora Geral do Cien-Brasil, psicanalista, membro da Escola Brasileira de
Psicanálise (EBP) e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP), professora do Programa de
Pós-Graduação do Curso de Psicologia da Universidade Federal de São João Delrey (UFSJ),
Coordenadora do Programa de Atenção ao Paciente Judiciário do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (PAI-PJ/TJMG)

2 MILLER, J-A. “Lacan disait que les femmes étaient les meilleures psychanalystes. Et aussi les
pires”.Disponível em: Lacan Cotidiano, n.205. 2012. (http://www.lacanquotidien.fr/blog/wpcontent/uploads/2012/05/LQ-2052.pdf)

3 MILLER, J-A. Jacques Alain Miller em Página 12. Disponível em http://ebpsp.
blogspot.com.br/2012/05/anguille-en-politique-jacques-alain.html. Ultimo acesso em maio
de 2012

4 Pronunciamento de Célio Garcial endereçado e apresentado através de vídeo na
abertura das atividades preparatória da XVII Jornada da EBP-MG e disponível no Boletim
@DDito 5, maio 2012

 

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ALEMAN, J. (2012). Una de las maneras de sustraerse a la técnica, es la política. Entrevista
disponível em <http://www.revistaenie.clarin.com/rn/ideas/Jorge-Aleman-politicas-en-
Lacan_0_689331306.html>. Recuperado em 22 de maio de 2012.

GARCIA, C. Apresentação em vídeo publicado no Boletim @DDito 5, maio 2012.
Disponível em: http://jornadaebpmg.blogspot.com.br/2012/06/ddito-5.html

GARCIA, C. A aceleração do tempo. In: Silicet: A ordem simbólica no século XXI. Associação
Mundial de Psicanálise. Belo Horizonte, Scriptum, 2011.

LACAN, J. (1973/1974). Declaration à France Culture. Le Coq-Héron, 46-47, 3-8.

LAURENT, E. O tratamento das escolhas forçadas da pulsão. Revista responsabilidades. Belo
Horizonte, vol.2, nº 1, mar/ago 2012.

MILLER, J-A. Jacques Alain Miller em Página 12. Disponível em http://ebp-sp.blogspot.com.br/
2012/05/anguille-en-politique-jacques-alain.html. Ultimo acesso em maio de 2012

MILLER, J-A. “Lacan disait que les femmes étaient les meilleures psychanalystes. Et aussi les
pires”.Disponível em: Lacan Cotidiano, n.205. 2012. (http://www.lacanquotidien.fr/blog/wpcontent/uploads/2012/05/LQ-2052.pdf

MILLER, J.-A. (2003). Entretien: Lacan et la politique. Cités, nº 16, pp. 105 – 123. Paris: PUF.

MILNER, J.-C. (2003). Le grand secret de l’ideologie de l’évaluation. Nouvel Âne, nº 2, p. 5.

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