Vídeo de abertura da V Jornada de Psicanálise do CEPP

QUEREMOS SABER: TEXTO DE ABERTURA DA V JORNADA DE PSICANÁLISE DO CEPP: “Ⱥ POLÍTICA DA PSICANÁLISE E A CIÊNCIA”
Humberto Moacir de Oliveira
Coordenador do CEPP

É com muita satisfação e entusiasmo que dou as boas vindas aos participantes da nossa V Jornada de Psicanálise, que servirá como comemoração pelos 10 anos de trabalho e compromisso com a pesquisa e transmissão da psicanálise na região do Vale do Aço. Teremos hoje ocasião para relembrar um pouco a longa trajetória do Centro de Estudos e Pesquisa em Psicanalise do Vale do Aço (CEPP), da qual eu, atual coordenador, tive o orgulho e a honra de dar uma pequena contribuição nos últimos anos.
Optei por abrir nossa jornada de trabalhos com uma canção do compositor baiano Gilberto Gil muito bem representada na voz da saudosa cantora Cássia Eller . A opção pela música vem denunciar nosso maior compromisso aqui hoje, que não é outro senão atender nosso desejo de saber. Nos “espirituais sinais iniciais dessa canção” , Gil traduz nosso desejo com os versos que dão título a sua obra: “Queremos saber”. Sim, nos reunimos aqui hoje porque queremos saber o que irão fazer e o que estão fazendo os homens com as novas e velhas invenções d’A Ciência, que Lacan, em 1965, fez questão de escrever com A maiúsculo, tal como grafamos em nosso material de divulgação. Queremos saber, assim como Gil, que lugar há no avanço científico para o que o compositor chama de emancipação do homem? Afinal, esse é o primeiro compromisso que Freud, há mais de cem anos, estabeleceu para sua clínica: levar seus pacientes a um saber que eles tinham e não sabiam, pois acreditava o pai da psicanálise que esse era o saber que poderia emancipar os homens, tornando-os menos alienados aos discursos dominantes de sua época e aos seus próprios sintomas. Essa é a política inaugural da psicanálise que tentaremos hoje pensá-la em nosso tempo, um tempo marcado pelos avanços científicos que nem sempre rumam à emancipação e iluminação do homem, tal qual quer a canção de Gil.
As imagens que compõem o vídeo foram retiradas de quatro filmes marcantes sobre o poder e o fascínio que a ciência exerce na civilização. São eles: 2001: Odisseia no Espaço e Laranja Mecânica, ambos do americano Stanley Kubrick; A pele que habito, do espanhol Pedro Almodóvar; e Ladrão de sonhos, do francês Jean-Pierre Jeunet. Essas cenas, combinadas com algumas fotos famosas do ataque de Hiroshima e do Vietnã, têm o propósito, não de fornecer uma perspectiva necessariamente pessimista para o futuro da ciência e da humanidade (sabemos das maravilhas que a ciência nos trouxe e ainda pode nos trazer), mas ilustrar e revelar a legitimidade da preocupação de Gilberto Gil quando diz que se foi facultado ao homem tantas coisas conhecer, é melhor que saibamos, ou ao menos que pensemos a respeito, do que pode acontecer. Em outras palavras, as cenas dos filmes e a canção de Gil buscam revelar o quanto a ciência e a tecnologia, quando desacompanhadas de séria reflexão ética, nos conduz a caminhos de violência e segregação, atrocidades sociais e apagamento da dimensão humana do homem. Os exemplos são muitos e vão desde a medicina eugênica que deu origem ao nazismo, passando pelo uso de armas químicas em guerras sem sentido, até alcançar os tratamentos exageradamente farmacológicos dos sofrimentos psíquicos de adultos e crianças do mundo atual .
É preciso, portanto, pensar nos limites da ciência. E podemos fazer isso sem apresentar uma recusa a ela, mas oferecendo outras formas de produção de saber. Saber sobre a subjetividade, saber sobre o humano, saber sobre o que foge às categorizações e classificações estatísticas e parâmetros científicos. Saber que se esconde, por exemplo, nas palavras de um poeta como Manoel de Barros, que diz:

“A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá / mas não pode medir seus encantos. / A ciência não pode calcular quantos cavalos de força existem / nos encantos de um sabiá. / Quem acumula muita informação perde o condão de adivinhar: divinare. / Os sabiás divinam.” (BARROS, 1996, p.53).

A ciência, nas palavras do poeta, encontra seus limites na classificação e nomeação dos órgãos do sabiá. À ciência cabe a nomeação e a acumulação da informação, do conhecimento. Mas, ao acumular informações, a ciência perde o condão de adivinhar0, de divinar. E aqui poderíamos arriscar uma relação fonética entre sabiá e saber. Será que, através dessa operação, poderíamos estender a função poética que Manoel reserva aos sabiás também para o saber? O nosso saber também divina? Não seria esse o nosso trabalho, fazer do nosso saber um verbo para esse substantivo sabiá? Devolver à ciência os encantos perdidos? O mesmo poeta ainda afirma: “Há muitas importâncias sem ciência.” (BARROS, 1985, p.69). É preciso voltar nossos olhos para essas importâncias.
Se para outro poeta, Fernando Pessoa, “A ciência descreve as coisas como são; a arte, como são sentidas, como se sente que são” (PESSOA, 1981, p. 455), nossa política estaria, então, mais próxima da arte ou do sabiá, que divinam, do que da ciência que acumula informação. Pois é em descrever as coisas como se sente que são, mais do que como elas são, é que conseguimos alcançar o encanto que não pode ser medido, nem no homem, nem na arte, nem no sabiá. São essas importâncias que nos interessa.
E é em prol dessa política que nos reunimos aqui hoje. Para discutir a função e participação da psicanálise em um tempo marcado pelo domínio do capital e da razão científica (ou, por vezes, pseudocientífica). Um tempo em que a exigência da satisfação pulsional (o gozo de que nos fala Lacan) possibilitada pelos produtos da ciência, apresenta-se no plano principal de nossa sociedade e os Ideais que, em tempos anteriores, modulavam essa satisfação, são varridos da cultura em nome, novamente, do casamento da razão científica com o poder do capital.
Para os psicanalistas franceses Jacques-Allain Miller e Eric Laurent (2005), vivemos um tempo em que o circuito do gozo não passa mais pelo Outro social, ou passa de forma quase inexpressível. Os Ideais que modulavam nossa satisfação não existem ou estão enfraquecidos. Miller e Laurent vão ainda mais longe e intitulam um de seus seminários de “O Outro que não existe”, denunciando aí a tendência do gozo autístico de nossa era, um gozo solitário, supostamente sem o outro, que não conta mais com os modelos normativos privilegiados de uma sociedade. A visão científica do mundo nos revelou a ineficiência desses modelos normativos, nos exigindo um gozo desgovernado e nos dando instrumentos farmacológicos, tóxicos e tecnológicos para isso. Se os tempos de Freud foram marcados por uma exigência social que dizia “não se satisfaça”, ou “se satisfaça apenas de acordo com o ideal de sua época” (o que, sabemos, era impossível, pois o sujeito se satisfazia no sintoma), nosso tempo ordena o gozo irrestrito, nada dizendo sobre como gozar, ou melhor, dizendo de tantas formas que é o mesmo que não dissesse.
O problema dessa modificação no processo de socialização que comporta um imperativo de gozo no lugar da renúncia ou do Ideal, é que essa ordem (Goza!) é tão impossível e insensata quanto a ordem que tenta regular a satisfação que de uma forma ou de outra sempre retorna. A psicanálise, assim, vive um momento político importante, em que cada analista deve repensar sua prática, sem bancar o moralista saudosista dos tempos em que os sujeitos se neurotizavam à maneira clássica, nem adaptar sua prática à forma utilitarista, rápida e prometedora de felicidade que o mercado da saúde mental vem demandando. Esse será nosso desafio hoje: pensar modos de sustentar a ética da psicanálise, que é a ética do sujeito, em um tempo em que o gozo, enquanto satisfação pulsional, é maior do que o Ideal que o regula (I < a).
Tentamos reproduzir essa marca da contemporaneidade nas figuras que ilustram o material de divulgação da Jornada. De um lado, temos a escultura de Juan Miró, Jeune fille s’évadant (em português algo como “Jovem mulher escapando”), em que o artista nos apresenta uma figura que reúne pernas femininas, tronco de robô e uma cabeça de lata com um registro em cima. Enfim, uma imagem deformada que reúne feminino e maquinaria. Ou ainda, uma figura disforme, que revela que o que escapa na escultura é a imagem (a forma) da jovem mulher. Escapar parece ser um movimento muito próprio ao gozo feminino e, por que não, ao gozo contemporâneo, que também está sempre a escapar dos modelos normativos previstos nos Ideais. Um gozo que carece de formas, um gozo que não está submetido à norma fálica nem é coordenado pelo sentido.
De outro lado, colocamos uma litografia de Picasso intitulada O Touro . Nela vemos Picasso retirar, aos poucos, as linhas mais supérfluas da imagem, o que faz com que o touro vá perdendo sua cobertura, sua casca. A figura é cada vez mais apresentada apenas pelas linhas imprescindíveis da litografia, que parecem nos levar mais ao esboço de um touro do que a imagem que de fato temos do animal. O trabalho de Picasso mostra o movimento da arte contemporânea que visa escapar ao Ideal da imagem realista, preocupando-se cada vez mais em transmitir um traço, uma letra, uma marca, um pedaço do real, mais do que uma imagem que o esconda. Na prática psicanalítica também encontramos, cada vez mais, sujeitos que, tal como o artista contemporâneo, leva ao analista apenas um traço, sujeitos com poucas histórias para contar. Se o touro da clínica das histéricas de Freud era recheado de material significante, de sentidos a ser interpretados, o touro da clínica contemporânea parece ser composto de traços que pouco demandam interpretação, como é o caso de alguns toxicômanos que nada demandam a não ser os meios que lhes possibilitem sustentar seu modo de gozo.
Marca desse tempo em que o gozo disforme é maior que o Ideal, a droga, em sua versão mais contemporânea, o Crack, foi tema de nossa última Jornada. Há dois anos (em maio de 2011), nos reunimos, como aqui estamos, para realizarmos um debate em torno dessa modalidade de satisfação pulsional que o Crack vem ofertando em nossas cidades. A IV Jornada do CEPP, que recebeu como nome Crack e Psicanálise: uma pedra no caminho, promoveu um debate sobre o problema da droga nos âmbitos jurídico, clínico e social, cumprindo assim com a vocação do CEPP de ser mais do que um centro de debate acadêmico, mas também um movimento que gera efeitos em nossa cidade e nos serviços que podemos afetar com nosso discurso. A Jornada, muitíssimo proveitosa, nos deu algumas direções para o trabalho que vínhamos realizando nas prefeituras, consultórios, ONG’s e estágios. Mas também, como sempre acontece em uma boa jornada, nos deixou muitas dúvidas. Elegemos como dúvida paradigmática dos questionamentos causados pela Jornada a questão do laço social do sujeito toxicômano. Que laço é possível para o sujeito que fecha seu circuito pulsional com um objeto tão promovedor de gozo como as drogas contemporâneas? Há laço social nas Cracolândias? Que laço é possível ser feito entre o sujeito tomado pela droga e o analista? Sem demanda de análise, é possível promover essa forma de laço que Lacan chamou de discurso do analista? Essas e outras perguntas nos levaram a perceber que o laço social do toxicômano poderia servir de paradigma para pensarmos o laço social em nossa época, não apenas entre sujeitos usuários ou dependentes de droga, mas também em muitos outros sintomas que marcam nossa contemporaneidade. Nessa perspectiva, foi que elegemos o Laço Social como eixo temático de nossas pesquisas no ano de 2012, ano seguinte à IV Jornada.
Os proveitosos debates que promovemos em seminários internos no CEPP durante o ano de 2012, nos fez avançar teoricamente em muitos aspectos que refletem o modo de laço social predominante em nossa sociedade. A partir desses avanços promovemos debates através de seminários abertos ao público, cinemas comentados e eventos diversos. Todo esse trabalho nos conduziu ao papel que A Ciência exerce no mundo atual e nos fez questionar qual a sua participação no discurso capitalista da sociedade de consumo. Frente a essas questões, nos coube também não apenas criticar os modos de subjetivação da contemporaneidade, mas agir de forma propositiva, incluindo mais enfaticamente na discussão o papel da psicanálise nesse momento, o que nos levou a nomear o eixo temático de nosso estudo em 2013 de Ⱥ política da psicanálise e A Ciência. Por sugestão do colega Amancio Borges, marcamos o artigo que antecede a política psicanalítica com a mesma barra que Lacan propõe que seja usada na escrita do Outro (Ⱥ), isso porque apostamos que a psicanálise é um discurso que não apenas admite a falta como coloca o furo no cerne de sua política e o reconhece como imanente a todo processo de linguagem. Visamos com isso sustentar nossas discussões mais em torno da forma de operar da psicanálise, ou seja, sua política de transmissão e transferência de trabalho em torno do vazio, do que na imposição de um saber doutrinário completo sobre o contemporâneo que nos desafia. À Ciência, conforme já mencionado, reservamos o artigo maiúsculo sugerido por Lacan no texto “A ciência e a verdade”, grafia que revela a ambição de uma parte da ciência em atingir a totalidade de um saber, dando sentidos ao que só pode ser falta de sentido, furo, barra, vazio, incompletude.
Sobre esse tema, tive a oportunidade de ministrar ao lado de Amancio Borges um seminário no primeiro semestre desse ano que contou com participação de interessantíssimos interlocutores que contribuíram enormemente para as reflexões propostas pelo CEPP esse ano. Deixo aqui meu sincero agradecimento a cada ouvinte e participante de nosso curso e aproveito para convidar todos vocês a participar conosco do Seminário que retorna em outubro próximo. Convido vocês também a participarem de outros seminários e eventos que ofertamos e divulgamos em nossa página no Facebook e em nosso Blog . Fiquem atentos às divulgações. Será um prazer tê-los conosco.
Além de agradecer àqueles que, através da frequência em nossos seminários, contribuíram com a maturação de nossas pesquisas sobre o tema que apresentamos nessa Jornada, é hora também de agradecer, e mais do que isso, parabenizar, os colegas que, além de frequentar nossos eventos e seminários, nos oferece hoje alguns frutos do nosso processo de transmissão. Refiro-me aqui aos alunos de psicologia Charlisson Mendes e Matheus Henrique de Souza Silva e aos psicólogos recém-formados Núcia Kardinale Silva Neves, Marisa Alvez Satler, Flaviana Aparecida Guedes e Márcio Alves Venâncio. Todos eles, há muito tempo frequentadores do CEPP, hoje emprestarão sua fala e escrita para animar nossa discussão sobre Ⱥ política da psicanálise e A Ciência.
Como vocês devem ter observado, dividimos os trabalhos dos colegas citados em duas mesas: uma que visa promover o debate sobre os efeitos na sociedade contemporânea de alguns produtos da ciência, onde destacaremos a droga, o medicamento e o diagnóstico; e outra que pense criticamente a política da psicanálise frente alguns discursos da contemporaneidade, a saber, o discurso religioso, o discurso jurídico e o discurso capitalista que tanto contribui para esse gozo autístico que nos alerta Miller e Laurent (2005). Para fecharmos os trabalhos teóricos, contaremos ainda com a participação mais do que especial de nossa convidada de Belo Horizonte, doutora em Ciências Humanas pela UFMG, coordenadora do PAI-PJ/TJMG e membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP), Fernanda Otoni de Barros Brisset, que nos presenteará com uma conferência sobre o tema principal da Jornada. Convido vocês a ficarem até o fim de nossa programação, quando, após a fala da Fernanda, iremos comemorar os 10 anos de CEPP apresentando um pouco dessa rica história que tem tudo para continuar por muitos e muitos anos. Agradeço a todos os presentes novamente, agradeço aos colegas do CEPP que participaram da comissão organizadora desse evento, agradeço os parceiros que apoiaram essa iniciativa, em especial o Centro Universitário do Leste de Minas Gerais (UNILESTE), e aproveito para parabenizar mais uma vez o CEPP pelos seus 10 anos de trabalho, que espero sejam o início do muito que ainda deve vir.
Antes de declarar aberta a Jornada, peço a todos que assistam ao depoimento de nossa amiga e parceira de Belo Horizonte, Márcia Rosa, pós-doutora em teoria psicanalítica pela UFRJ, membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) e membro da Associação Mundial de Psicanálise (AMP). Márcia Rosa, como vocês verão ao fim dessa Jornada, foi peça fundamental para o surgimento do CEPP e durante esses dez anos, e mesmo em anos anteriores, sempre manteve sua presença muito viva entre nós. A ela também nossos eternos agradecimentos e nosso reconhecimento de sua importância nesses dez anos. Dedicamos essa Jornada a Márcia.

Referências Bibliográficas
LACAN, J. (1965). A ciência e a verdade. In______. Escritos (pp. 869-892) Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
BARROS, M. (1985). Livro de pré-coisas: roteiro para uma excursão no Pantanal. Rio de janeiro; São Paulo: Record, 1997.
________ (1996). Livro sobre nada. 7ª. ed. Rio de Janeiro; São Paulo: Record, 1998.
MILLER, J.-A. & LAURENT, E. El Otro que no existe y sus comités de ética, Buenos Aires: Paidós, 2005.
PESSOA, F. Obra Poética, Rio de Janeiro: Ed. Aguilar, 1981.

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