” RÉQUIEM PARA UM SONHO” – Comentários de Glória Duarte sobre filme de Darren Aronofsky

Convidada pelo CEPP-Vale do Aço (Centro de Estudos e Pesquisa em Psicanálise do Vale do Aço) para fazer um breve comentário sobre o filme “Réquiem para um sonho” dirigido por Darren Aronofsky,optei, não por um comentário formal que abordasse os efeitos da droga nos usuários; não por sugerir saídas possíveis que apontassem soluções, contenções ou temperanças capazes de minimizar ou evitar  os estragos nos toxicômanos; optei sim, pela saída devolutiva do convite, convocando os presentes, participantes do evento, para seguirmos o percurso de Freud, Lacan e comentadores da psicanálise.

Sugerí textos básicos a serem estudados e trabalhados arduamente: “Mal estar na civilização” (Freud, 1929), as seis referências de Lacan sobre a toxicomania de 1938 a 1975 e outros textos de comentadores de Freud e Lacan, nos nossos dias.O convite-convocação, foi assim que o aceitei e o passei a todos os participantes, é instigante pelo enigma que comporta: O que fazer com isso?O     momento do psicanalista frente às drogas e aos drogados é este, ocupar os espaços e não apenas interpretá-los. A convocação é uma chamada para todos nós, comprometidos com a psicanálise. “Só há o real nu e cru diante do qual temos responsabilidade”, nos ensina Célio Garcia.O psicanalista trabalha com a palavra que ele escuta, com a palavra que leva a quem se interessar ouvi-la. Recurso não-todo, mas é de responsabilidade tomar a palavra e se posicionar, mesmo que seja só para convocar mais adeptos à reflexão.

“Não há porque esperar um clarão, a Revolução, o apocalipse; A Catástrofe é o que já se apresenta.”(comitê invisível – Revista Cult nº174  )   Verão, Outono, Inverno…Réquiem para um sonho antes do despertar da primavera. Frente ao impacto tão chocante de ” uma experiência visceral, perturbadora e deprimente”, como nos sugere pensar a autora do livro “Réquiem para um sonho – entre a psicanálise e a cultura”  Rosane Castilho, vamos apresentar a sinopse contida no seu livro:

“Harry quer ser rico. Sua mãe quer que ele seja feliz e se case. Marion, sua namorada quer ter uma grife. Enquanto sonha, Harry se encontra com um amigo que tem sempre drogas à mão. Sara sonha com uma vida mais colorida e menos solitária.Um dia o telefone toca e ela entende que está sendo chamada para aparecer no seu programa de televisão predileto. Por isso deve emagrecer tomando pílulas para perder o apetite. Marion quer abrir sua loja e pede ajuda a Harry que está traficando junto com um amigo. Rapidamente eles juntam um bom dinheiro e começam a se sentir invencíveis. Sara também está mais magra e sente-se ótima em seu vestido vermelho.

Só que os quatro não estão livres para usufruir seus sonhos. Eles estão viciados. E os sonhos de dinheiro, fama e sucesso sucumbem diante dos pesadelos distorcidos da dor e da dependência.

A partir daqui como conduzir nosso comentário?

– O tema nos faz pensar em Freud: “Mal estar na civilização”(1929) paginas 96/97 e deste texto extrairmos um recorte pertinente ao nosso propósito:

“O mais grosseiro, embora também o mais eficaz, desses métodos de influência é o químico: a intoxicação.

Não creio que alguém compreenda inteiramente o seu mecanismo; é fato, porém, que existem substâncias estranhas, as quais, quando presentes no sangue ou nos tecidos, provocam em nós, diretamente, sensações prazerosas, alterando também, tanto as condições que dirigem nossa sensibilidade, que nos tornamos incapazes de receber impulsos desagradáveis.

Os dois efeitos não só ocorrem de modo simultâneo, como parecem estar íntima e mutuamente ligados. No entanto, é possível que haja substâncias na química de nossos próprios corpos que apresentem efeitos semelhantes, pois conhecemos pelo menos um estado patológico, a mania no qual uma condição semelhante à intoxicação surge sem administração de qualquer droga intoxicante. Freud continua: Além disso, nossa vida psíquica normal apresenta oscilações entre uma liberação deprazer relativamente fácil e outra comparativamente difícil, paralela à qual ocorre uma receptividade, diminuida ou aumentada, ao desprazer. É extremamente lamentável que até agora esse lado tóxico dos processos mentais tenha escapado ao exame científico.

O serviço prestado pelos veículos intoxicantes na luta pela felicidade e no afastamento da desgraça é tão altamente apreciado como um benefício, que tanto indivíduos quanto povos lhe concederam um lugar permanente na economia de sua libido. Devemos a tais veículos não só a produção imediata de prazer, mas também um grau altamente desejado de independência do mundo externo, pois sabe-se que, com o auxílio desse “amortecedor de preocupações”, é possível, em qualquer ocasião, afastar-se da pressão da realidade e encontrar refúgio num mundo próprio, com melhores condições de sensibilidade.

Sabe-se igualmente que é exatamente essa propriedade dos intoxicantes que determina o seu perigo e a sua capacidade de causar danos. São responsáveis, em certas circunstâncias, pelo desperdício de uma grande quota de energia que poderia ser empregada para o aperfeiçoamento do destino humano.”

Lembramos também  – O Seminário – livro 23 O Sinthoma, do último ensino de Lacan, onde ele faz através de mostrações com os nós, um tecer sobre o saber-fazer de cada um, mesmo que o resultado não chegue a um final feliz.  A abordagem clínica lacaniana da droga, sustenta-se no fato de que a pulsão pode também se satisfazer com um objeto nocivo ao sujeito.

No Seminário: “O Outro que não existe e seus comitês de ética”, Francisco Hugo Fedra nos dá uma visão panorâmica da toxicomania, uma nova forma de sintoma. Na oportunidade ele cita seis referências de Lacan à toxicomania ( a primeira data de 1938 e a última de 1985). São elas:

1-  1938- Os complexos familares – toxicomania pela boca;

2-  1946- Proposição sobre a Causalidade Psíquica – intoxicação orgânica;

3-  1960 – “Subversão do sujeito e dialética do desejo- a experiência vivida do alucinógeno

“Pode-se tirar destas três referências a seguinte conclusão de Lacan: a intoxicação sob toas as suas formas é uma resposta não sintomática que tenta anular a divisão, a marca de uma posição subjetiva caracterizada por um não querer saber nada sobre o inconsciente.”

4-  1966- Psicanálise e medicina – o destino que o discurso da ciência reserva para a toxicomania;

5-  1973- Les non dupes errent: uma nova era nasce a partir da clínica borromeana;

6-  1975 – “Sessão de Fechamento dos cartéis da ex-escola Freudiana de Paris” – trata-se da relação de Angústia-Castração.

Essas referências não constituem uma teoria da toxicomania, mas dão uma certa concepção do fenômeno.

Para o psicanalista trata-se de extrair esta concepção e fundar um esboço de teoria que lhe permita orientar-se na  direção do tratamento. É importante destacar que Lacan nunca fala do toxicômano, ele fala de intoxicação, de toxicomania, de droga…Como nos esclarece melhor Hugo Freda: “Devemos postular então que o toxicômano se encontra no interior desses termos, queé preciso construí-lo, inventa-lo, torna-lo apto para a psicanálise, o que implica de alguma forma em abrir a psicanálise ao toxicômano, diferente de Freud que tende a excluir esses tipos de manifestações da ação da psicanálise, como com relação à psicose.

Lilany Pacheco em Cartas de Psicanálise – Nº 1 – Revista do CEPP, lembram-se? No artigo sobre toxicomania e estrutura:

” Toxicomanias no plural indica a presença na clínica contemporânea de diversas modalidades de usos de objetos e várias possibilidades de conexão de gozo, encontradas atualmente como respostas ao que se te intitulado como: Declínio da Função Paterna, Declínio do Ideal, etc.”

Trata-se, é bom lembrar, de um fenômeno que pode ocorrer em qualquer estrutura clínica ou em qualquer momento da vida, acrescento, como nestes momentos que apresentam os personagens do filme: juventude e meia idade.

O filme “Réquiem para um sonho”,apresenta quatro dramas caóticos estrategicamente colocados:

-Uma mulher de meia idade capturada pelas promessas de um programa televisivo, não diferente dos que conhecemos: Sílvio Santos, Luciano Huck,Gugu,Faustão, o antes e o depois dos programas de beleza, Big Brother, etc, todos oferecendo oportunidades de melhorar sua condição de vida e performance 100% para mais e melhor;

-Três jovens que sonham em serem ricos e felizes e/ou voltarem como vencedores ao aconchego e à proteção do colo materno.

Mas quantos de nós não somos ou já fomos tocados pelas promessas contidas nas novas descobertas da ciência e no ganho fácil que o discurso capitalista nos promete? Quantas vezes já tentamos usar o velho vestido vermelho que já não nos recobre, mas insistimos ainda na possibilidade caduca de vestí-lo.”Você está querendo emoção? É só querer…Venha! Você pode! Você é capaz! O caminho para a visibilidade e para o reconhecimento aí está! O que você está esperando?”

Embora em tempos cronologicamente diferentes, buscam cada um a seu modo e na sua urgência, um objeto que preencha a falta que ameaça engolir, fazer desaparecer. Contraditoriamente é a mesma falta que possibilitaria a brecha para o nascimento, enfim, do sujeito.

O toxicômano é um personagem, não é um sujeito. Um personagem com o seu fazer com a droga, cria o eu sou, que lhe permite escapar da responsabilidade que a função fálica impõe.

A minha intenção aqui com vocês é apenas convocar, instigar o desejo desaber sobre os modos de gozo, sobre os novos sintomas, sobre os efeitos dos discursos, da ciência e do capitalismo, no sujeito contemporâneo.

Finalizo com uma citação de Hugo Freda:

“A toxicomania é uma nova forma do sintoma na medida em que ela define o sujeito por uma prática e de maneira nenhuma por seu sintoma, o que aliás Jacques Lacan demonstrou em seu seminário sobre o sintoma, que não é um seminário sobre a psicose, mas um seminário sobre uma estruturanova: a joyceana.

O toxicômano é o personagem da modernidade que, a partir de seu trabalho, quer provar que o inconsciente não existe.

Cabe aos psicanalistas demonstrar o contrário.”

Glória Duarte

Ipatinga,06 de outubro de 2012

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

-Filme:”Réquiem para um sonho”

Direção: Darren  Aronofsky

–     Freud, 1930- “ O mal estar na(?)civilização”

–     Vol.XXI-páginas 96 e 97

–     Freda, Hugo-1966 – Da droga ao ics. in subversão do sujeito na clínica das toxicomanias – Atas da X Jornada do Centro Mineiro de toxicomania – BH

–     Pontuação de Hugo Freda no seminário: O outro que não existe e seus comitês de ética – 02/404/1997

–     Pacheco, Lilany V.- Cartas de Psicanálise Nº1 –“ Toxicomania e Estrutura” – Revista do CEPP

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1 Comentário

  1. 08/11/2012 às 15:06

    GLÓRIA DUARTE é Psicóloga / Psicanalista – Especialista em Psicanálise aplicada à Saúde Mental


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