Subjetividade retórica e defasagem epistemológica nas terapias cognitivo-comportamentais

Amancio Borges (Psicanalista Mestre pela UFMG e membro do CEPP)

Durante uma aula de Psicopatologia, tivemos uma pequena surpresa. Após termos mencionado cerca de vinte autores, de pelo menos três abordagens clínicas diferentes em psicopatologia, quando alguém falou que as TCC (terapias cognitivo-comportamentais) não consideram a palavra do paciente em sua singularidade, tivemos forte discordância. Foi citado um professor da Unipac que teria dito o contrário.

Nossa referência são as fontes primárias, aquelas dos autores originais.

Tentaremos esclarecer nosso ponto de vista sobre o tema da subjetividade na TCC,  sem a pretensão de encerrar o assunto.

 

 

Por que TCC?

 

Nossa primeira observação é quanto ao fato de reunirmos, no mesmo sintagma, o cognitivismo e o comportamentalismo.

Embora alguns considerem que a terapia comportamental constitui abordagem inteiramente distinta do cognitivismo, sustentamos que, em termos éticos, técnicos, históricos e epistemológicos, o cognitivismo compartilha com o comportamentalismo alguns princípios ou diretrizes básicos.

Os fatores que justificam tal posicionamento seriam: i) a TCC situa sua ação no plano da atividade consciente (MORO & LACHAL, 2008, p.15) Por exemplo, “a consciência do reforço é necessária `a modificação do comportamento” –  Idem, p. 152); ii) seja no modelo da psicologia animal ou da informação computacional, o paciente é entendido como sistema disfuncional a ser reeducado, readestrado para a modelagem ou recuperação de um funcionamento “normal” (em ambos a importância da aprendizagem é decisiva); iii) a disfunção cognitiva e o comportamento-problema são erros, bugs num sistema, e os sintomas recebem peso clínico meramente negativo: o valor adaptativo do sintoma não é retido em sua radicalidade (o delírio, por exemplo, é admitido como verbalização bizarra a ser substituída por outra mais adaptada ao meio (MIRANDA, 2005, p. 17);  o sintoma não “representa” nem “significa” nada além de um equívoco no processo de condicionamento e de aprendizagem (Ibid, p. 154); iv); o terapeuta e o paciente estão em busca de uma solução normativa, no sentido estatístico (MORO & LACHAL, 2008, p. 154 e DALGALARRONDO, 2008, p. 33) v), a atividade do terapeuta é importante e seu estilo é francamente diretivo (MORO & LACHAL, 2008, p. 161), apoiando-se efetivamente no poder de seu saber e na “sugestão”; vi)  a TCC supõe escalas ou grades de avaliação dos objetivos da terapia e de avaliação de eficácia clínica da técnica, supostamente depuradas de influência moralizadora ou dominação do paciente pelo terapeuta (embora essas grades se revelem, para o paciente, como símbolos e provas do saber do terapeuta, portanto, do poder deste e de sua categoria profissional).

Ainda que o cognitivismo trabalhe com pensamentos e o behaviourismo com comportamentos, o modo de abordar a ambos é comum: os pensamentos são tratados como comportamentos, por vezes disfuncionais, a serem modificados por aprendizagem, condicionamento e influência do terapeuta. Seja como for, o tema ainda admite controvérsia, e a avaliação dos cognitivistas a respeito seria bem vinda.

 

 

Paixão pelo controle

 

Em O Mito da Liberdade, Burris Frederick Skinner expõe a tese de que “nós não podemos nos dar ao luxo da liberdade; assim, esta deve ser substituída pelo controle sobre o homem, sua conduta e sua cultura”. A noção de liberdade é, portanto, um bem supérfluo, os homens não têm condições de viver em coletividade sem um controle estrito de seu livre arbítrio; a rigor, o livre arbítrio não existiria: é uma ficção, um substituto, enquanto se desconhece os verdadeiros condicionantes do comportamento.

No mesmo texto, ele procura aproximações entre suas idéias e o pensamento freudiano, ao dizer que Freud pensava que o “estágio mental” seria, na verdade, físico, e esperava que a fisiologia explicasse o funcionamento do aparelho mental e dos estados intrapsíquicos. Skinner também procura apoio em Freud (“Freud foi um determinista”) para sustentar sua afirmação de que o comportamento humano pode ser inteiramente explicado pela interação do indivíduo com o ambiente e pelas contingências passadas que reforçaram ou tenderam a extinguir os comportamentos do presente. Para o determinista, novamente, o livre arbítrio e a liberdade de escolha significam, apenas, o desconhecimento das causas ambientais que condicionam nossos comportamentos. O homem não seria, de fato, responsável por suas escolhas: a análise do comportamento transfere tanto a responsabilidade quanto a realização para o ambiente. A comparação com a obra freudiana mostraria, portanto, essa semelhança: determinismo significaria explicar o presente a partir do passado (de-Farias, 2010, p. 32).

As semelhanças, porém, terminam aí. Skinner chama Freud em seu apoio, neste particular, mas a hipótese do inconsciente é inaceitável para o behaviourista. Freud, de passagem, nem de longe desconheceu a importância do ambiente na determinação dos fatos psíquicos.

 

Adverte-nos um provérbio de que não sirvamos a dois senhores ao mesmo tempo. O pobre do ego passa por coisas ainda piores: ele serve a três severos senhores e faz o que pode para harmonizar entre si seus reclamos e exigências. Esses reclamos são sempre divergentes e frequentemente parecem incompatíveis. Não é de se admirar que o ego tantas vezes falha em sua tarefa. Seus três tirânicos senhores são o mundo externo, o superego e o id.

                                                (FREUD, [1933] 1980, p. 99)

 

 

O psicanalista sustenta a importância do meio social, mas tem o cuidado de distinguir entre terapia e condicionamento, direção da cura e direção do indivíduo, tratamento e educação, ideais e fantasia, sintoma e queixa, adaptação a uma norma coletiva e satisfação pulsional singular, e por aí vai.

Se tudo levaria Freud a se manter equânime entre um pólo e outro, ele, no entanto, surpreendeu: argumentou que o gozo, as pulsões, se satisfazem longe do que é previsível e controlável.

T. E. Frazier é um personagem de um romance de Skinner, chamado Walden Two, escrito em 1948. O livro apresenta o que seria uma sociedade inteiramente normatizada pelos princípios comportamentais.

Em certa passagem do texto, Skinner, pela boca de Frazier, esclarece o seu ideário.

 

 

Eu tive uma única idéia na minha vida — uma verdadeira idéia fixa. Para colocar tão direto quanto possível, a idéia de ter meu próprio caminho. ‘Controle’, expressa essa ideia. O controle do comportamento humano. Nos meus primeiros dias de experimentação, isso representou um frenético e único desejo de dominar. Eu me lembro da fúria que costumava sentir quando uma predição dava errado. Eu poderia ter gritado para os objetos de meus experimentos: ‘Comportem-se, desgraçados, comportem-se como deveriam! (Behave, damn you! Behave as you ought).

                                                         (BORGES, 2008, p. 1)

 

 

É precisamente essa paixão pelo controle e pela disciplina que, no entender de Figueiredo (1994), permite uma aproximação epistemológica entre o behaviourismo de Skinner e o utilitarismo disciplinar de Jeremy Bentham.

Bentham criou Utilitarismo, forma de pensar o bem-estar social baseado em eficiência, interesse e utilidade. O Utilitarismo substituirá a crença na defesa dos direitos naturais do indivíduo pelo “cálculo racional da felicidade”. Para ele, a missão dos governantes consiste em promover a felicidade da sociedade, punindo e recompensando. Isto porque a natureza colocou o gênero humano sob o domínio de dois senhores soberanos: a dor e o prazer. Somente a eles compete apontar o que devemos fazer bem como determinar o que de fato faremos. Segundo Figueiredo, uma forma acabada e sofisticada do funcionalismo de Bentham foi justamente aquela desenvolvida no século XX, na engenharia comportamental de Skinner.

 

 

A paixão na prática: reversão de bizarrices por meio de condicionamento

 

Um experimento de análise funcional nos orienta neste sub-tema.

Trata-se de um caso de aplicação das TCC a uma paciente psiquiátrica institucionalizada. A pesquisa, realizada no contexto da redação de uma dissertação de mestrado, tem por título “A esquizofrenia sob a perspectiva dos princípios da análise do comportamento”, e foi realizada dentro de uma instituição psiquiátrica.

Elaine Miranda (2005) dedica-se a aplicar os princípios comportamentais para controlar comportamentos-problema em uma mulher considerada esquizofrênica e portadora de retardo mental. Pelos critérios de de-Farias (2010), aos quais retornaremos um pouco adiante, essa mulher internada evidentemente não corresponde a alguém cujo “mundo interno” merece consideração: ela não é uma pessoa jovem, nem atraente, verbaliza pouco, socializa ainda menos e não aparenta ser inteligente. De fato, não foi preciso, em momento algum, perguntar à própria paciente o que, para ela, seria um comportamento equivocado, um sofrimento, uma angústia: bastaram os relatos e observações de terceiros. Como se deu a intervenção?

A princípio, foi determinado que a mulher seria considerada um caso de paciente único,  que N, essa mulher, era igual a 1 no conjunto dos pacientes psiquiátricos institucionalizados com esquizofrenia e retardo, apresentando comportamentos considerados, não anormais ou patológicos, mas comportamentos-problema. N = 1 é o delineamento de contorno da amostra. Delineamentos de N = 1 não devem ser confundidos com um estudo de caso no sentido psicanalítico ou psiquiátrico, eles visam apenas, num modelo experimental de intervenção, incluir fases para demonstrar que mudanças observadas no desempenho são realmente causadas pelo tratamento.

 

 

Com a intervenção, esperava-se mudar a probabilidade de ocorrência de comportamentos desejados que possibilitariam melhor adequação da participante ao seu ambiente institucional, bem como intervir nos comportamentos-problemas emitidos por ela. Assim, o objetivo da intervenção foi identificar um conjunto de medidas que tornassem os comportamentos-problema irrelevantes e ensinar comportamentos requeridos para as atividades ali desenvolvidas”. (MIRANDA, 2005, p. 73)

 

 

Miranda informa que ilusões, sentimentos de grandiosidade, negação dos indícios de realidade e outras formas de comportamento bizarro dos esquizofrênicos são comportamentos aprendidos, por meio de contingências de reforçamento transmitidas pelos pais. Afirma, também, que esses comportamentos são reforçados pela atenção que a eles dedicamos, nós, técnicos de referência em saúde mental.

Delírios e alucinações, nesta perspectiva, são falas bizarras, comportamentos-problema. Se o paciente diz que “o diabo não me deixa sorrir” (MIRANDA, 2005, p. 19), trata-se de um comportamento verbal inapropriado, bizarro, que deve ser extinto, substituído por uma fala apropriada. Isso se faria por meio de um “delineamento de reversão”.

A pesquisadora começa por apresentar aos médicos e enfermeiros um questionário onde se identificariam os “comportamentos-problema”. Sete comportamentos-problema foram elencados: não manter contato “olho a olho” por, pelo menos, três segundos; ficar sozinha, sem atenção; dar tapas, empurrar pessoas e fazer ameaças; recusar-se a participar das tarefas ou eventos; executar uma atividade que possa fazer para ocupar-se durante o tempo livre; não beber água no copo de plástico; não interagir socialmente, por exemplo, batendo palmas ao ritmo de uma música. Esses comportamentos são identificados pela análise funcional em virtude de “seu caráter estritamente topográfico e descritivo, sendo, portanto, constituídos sob critérios estatísticos de normalidade”[1] (Idem, p. 26).

Feito isso, passou-se à observação direta e a filmagens dessa paciente em diferentes ambientes, registrando-se aqueles comportamentos e sua duração.

Em seguida, foi apresentada à participante uma lista de comestíveis para a identificação dos potenciais reforçadores.

 

Itens previamente identificados junto à equipe de enfermagem foram utilizados, tais como, pão de queijo, bolo de cenoura, requeijão, pamonha, mortadela de frango, abacate, queijo minas, etc. A mestranda anotava em uma folha de registro, os nomes dos itens escolhidos pela participante além de oportunizar solicitação de algo mais. Assim, tornou-se possível estabelecer um escalonamento hierárquico entre os diversos reforçadores utilizados, quer de natureza comestível, não comestível e social. (MIRANDA, 2005, p. 41)

 

 

Já na fase de Intervenção (Modelagem e Reforçamento Positivo), a psicóloga apresentava comandos para cada comportamento problema, por exemplo,“Olhe dentro dos meus olhos”, ou “Quero que você se aproxime dela e diga ‘Bom dia!’”. Se a paciente apresentasse os comportamentos esperados, era reforçada com comestíveis e elogios; se não fizesse o esperado, os reforçadores eram retirados e a atenção da psicóloga para com a paciente, suspensa. A expectativa da pesquisa foi de “adequação” da paciente ao ambiente institucional, por meio de um “conjunto de medidas que tornassem os comportamentos-problema irrelevantes e ensinar comportamentos requeridos para as atividades ali desenvolvidas” (Idem, p. 73). A conclusão do estudo é de que, mais uma vez, teria ficado confirmada a posição skinneriana expressa nos procedimentos de modelagem dos estudos da análise do comportamento.

 

 

A eficácia dos procedimentos utilizados no presente estudo ficou de tal monta comprovada que, no início de cada contato, a participante respondia às contingências programadas especialmente no que diz respeito aos reforçadores: procurando visualmente nos objetos conduzidos pela pesquisadora, palpando seus bolsos do jaleco e até mesmo se expondo a receber o costumeiro cumprimento através de um abraço. (MIRANDA, 2005, p. 73)

 

 

Embora o follow up tenha registrado importante diminuição na frequência de comportamentos esperados, houve, segundo a autora, “eloqüente comprovação” da relevância dos reforçadores na modificação dos comportamentos indesejados. A extinção dos comportamentos condicionados, e o retorno às bizarrices, segundo a autora, parece se dever em muito ao fato de que os técnicos responsáveis pelo cuidado dos pacientes psiquiátricos não estão treinados para funcionar como analistas do comportamento, em tempo integral. Assim, outro achado da pesquisa reitera a necessidade de se informar os profissionais da saúde mental quanto aos princípios da análise funcional do comportamento. O exemplo é o da função da atenção como reforçadora de comportamentos e  verbalizações sem sentido.

A primeira medida a ser tomada pelas equipes seria de aparentar indiferença, não dar atenção a delírios, atos tresloucados ou bizarros, e, em seguida, apresentar contingências comestíveis, sociais e outras para modelar[2] os comportamentos comandados.

 

 

 

Naturalização e subjetividade retórica no funcionalismo comportamental

 

A ideia de que os homens possuem uma vida interior, autonomia e auto-determinação teria surgido com o liberalismo do século XVIII. Marco dessa realização foi a publicação de “On Liberty” por John Stuart Mill, em 1859. Para Mill, são “nossos” não apenas o entendimento, a razão e a vida comunitária: “Desejos e impulsos fazem parte do ser humano perfeito” —- sentença que Freud pronunciaria com desenvoltura, exceto, talvez para o “perfeito”. A noção de uma subjetividade é, portanto, uma construção da história e da cultura, desenvolvida ao longo de séculos (FIGUEIREDO, 1994).

Pela insistência desse tema na cultura, ou pelo fracasso das tentativas de adequação comportamental sem considerar o aspecto inconsciente dos sintomas, pouco a pouco o comportamentalismo se viu obrigado a reincorporar à doutrina certos estados antes considerados, pejorativamente, como subjetivos.  

Assim, embora, em sua origem, fortemente orientadas para a supressão da subjetividade, verificamos a tentativa, por parte das abordagens derivadas do behaviorismo (em que se inclui o cognitivismo), de abordar, não sem ressalvas, o “mundo interno”.

É possível traçar uma rápida série histórica desse empreendimento.

James Watson e, de início, também Skinner, rejeitam qualquer noção de evento psicológico interno; Edward Tolman (1948) propõe a noção de “mapa cognitivo” como intermediário entre o estímulo e a resposta; Homme cria o termo “coverant” para designar processos encobertos e operantes (“covert-operants”); Albert Ellis desenvolve sua Terapia racional-emotivo-comportamental (TREC); Aaron Beck propõe a Terapia Cognitiva (mencionada acima) e, finalmente, com base nos trabalhos de Maturana e Varela (1995), pesquisadores como Mahoney, Greenberg, Guidano, Gonçalves e outros procuram articular processos de informação conceituais a processos vivenciais, concedendo à representação um papel central na constituição de um “mapa interno do mundo”. Ainda mais recentemente, entre nós Fábio Thá (2007), de Curitiba, menciona um Freud cognitivista e informa que a psicanálise oferece, em relação à ciência, “o outro lado da experiência com os objetos, ou seja, sua relação com o interior do corpo, ou com o chamado ‘mundo interno’”.

Hoje, cognitivistas e behaviouristas radicais, alertados de que seus objetos não se comportam como deveriam, procuram encontrar algum lugar para a “subjetividade” em seu edifício tecnológico. Assim, eventos “encobertos” não têm status explicativo para os comportamentos manifestos, mas, “pontualmente”, podem fazer parte das variáveis que controlam o comportamento “publicamente observável” (MOROZ, RUBANO et al., 2005).

Na mesma perspectiva, De-Farias (2010) esclarece que, nos modelos iniciais de intervenção, os eventos privados não eram levados em conta, pois o público-alvo era de pacientes internados em instituições psiquiátricas. Foi somente quando as técnicas passaram a ser aplicadas em ambientes verbais não institucionalizados, como o consultório particular, que pensamentos e sentimentos foram levados em consideração. Diferentemente dos pacientes psiquiátricos, dizem as autoras, esse novo público requeria atenção para o “mundo sob a pele”: eles são os YAVIS: young, attractive, verbal, inteligent and social person (pessoas jovens, atraentes, verbais, inteligentes e sociais).

A subjetividade corresponderia, assim, à objetivação de comportamentos internos. “Eventos internos” tais como fantasias, sonhos, desejos, intenções, se caracterizam por não serem diretamente observáveis; mas, transformados em palavras, poderiam ser, supostamente, objetivados. Pois qualquer intervenção em análise funcional do comportamento depende da

 

 

seleção de comportamentos que sejam objetos de estudo através da atividade observável do organismo, quando ele se movimenta e permanece imóvel, pega objetos, empurra e puxa, emite sons, faz gestos e assim por diante.

                                                     (CORDEIRO, 2011, p. 4)

 

 

 Não é que se rejeite a subjetividade, o singular, mas sim que o singular só pode ser entendido a partir do momento em que se comporta, e a fala é apenas um comportamento como outro qualquer[3], ela não se diferencia de um arroto em local impróprio (e então trata-se de uma fala “bizarra”, sem sentido), ou de um comando a ser entendido do outro ponto da linha, de preferência, sem ruídos (e então a linguagem se resume a uma função de comunicação).

No caso do behaviourismo radical, qual a operação epistêmica necessária para se lidar com eventos internos?

Não é certo que o behaviourismo precise de uma teoria, já que se constitui como um recurso essencialmente técnico —- como da aplicação de um laser; mas o monismo experimental que ele professa como método ignora a maior parte do que a psicopatologia tem produzido em duzentos anos. Da distinção feita por Charcot, entre epilepsia e neurose histérica, até o que se seguiu em termos de pesquisa psicopatológica, com Kraepelin, Krafft-Ebbing, Kalbaun, Schneider, Jaspers, Henri Ey, etc,  incluindo a nosologia freudiana, todo esse conhecimento se tornaria dispensável, na medida em que “conteúdos” como memória, cognição, aparelho psíquico são considerados “não-físicos”, portanto, desprezíveis.[4]

Retomando a questão, como, portanto, abordar os fenômenos “internos” como a linguagem, memória, afetos e pensamentos, a partir do behaviourismo radical?

Moroz, Rubano et al (2005) esclarecem: i) Eventos internos (também chamados de eventos “privados”) têm a mesma natureza de eventos externos (também chamados de eventos públicos), são um produto social e sua origem deve ser encontrada no ambiente; ou seja, o comportamento foi originariamente público e, em seguida, retrocedeu para o nível encoberto; ii) eventos internos não possuem status de causa para outros comportamentos: a “causa” de qualquer comportamento encontra-se nos reforçadores ambientais externos ao indivíduo; iii) a única diferença de monta entre os dois tipos de eventos reside no fato de que, ao contrário dos eventos externos, somente temos acesso aos eventos internos por meio do relato de um único indivíduo, aquele que “experimenta” o evento interno; iv) a acessibilidade aos comportamentos internos requer que o indivíduo os verbalize ou os expresse de algum modo; v) no processo de verbalização de um evento interno, este evento se torna um evento externo, físico e observável, como outro qualquer.

O projeto de subjetividade do behaviourismo radical se revela, desse modo, um processo de naturalização da linguagem e objetivação de uma “subjetividade”  encontrada no “mundo debaixo da pele”.

Neste sentido é que podemos falar de uma perspectiva de naturalização do humano, a partir da redução dos comportamentos aos seus aspectos físicos, biológicos e ambientais, ou, no limite da analogia, a certos aparelhos cognitivos vagamente semelhante a sistemas de dados com linguagem programável. A mente é software[5]. Software, equipamento leve, suave.

Nesse mundo, oque um corpo representa para alguém deve ser objeto de reeducação. A substância do gozo permanece um problema repetitivo: como localizar o dado empírico, factual de um comportamento?

Onde está a matéria? Estaria, em princípio, no corpo. Ele atua, se movimenta, interage com o ambiente, e os reforçadores primários se organizam para determinar o comportamento futuro.

Aquilo que um corpo, e a existência desse corpo no campo da linguagem, possa significar para alguém, não importa, assim como não importa o aspecto simbólico do discurso, o fato de que o erro às vezes diz a verdade. Nem sempre a razão, o cálculo e as regularidades precisam encontrar-se em oposição ao imprevisto dos afetos e das paixões. Mas, para pensarmos uma organização complexa e comensurável entre esses mundos, não basta uma adesão radical aos modelos de ciência. Teríamos, então, que dar lugar à filosofia, à literatura, às artes e à cultura em sentido amplo, como saberes tão e às vezes mais competentes que o discurso da ciência, para manejar o que há de essencialmente humano, “sob a pele”.

Mundo interno, mundo subjetivo, vida interior, não importavam às TCC porque, em primeiro lugar, não possuem existência física observável.

Ocorre, então, um paradoxo: a subjetividade recusada nos primórdios do behaviourismo watsoniano, é admitida, mas ao preço ser naturalizada, esvaziada de conteúdos e, afinal, inteiramente anexada à história de reforçamentos que seria sua verdadeira origem.

Os argumentos behaviouristas quanto aos eventos internos lembram aqueles de Fidel Castro, a respeito das liberdades civis em Cuba. Castro afirma peremptoriamente a existência de liberdade na ilha, porém, desde que se entenda que a proibição da livre expressão e do pensamento discordante faz parte do conceito de “liberdade”.  Mussolini o fez quanto trocou ristorante por trattoria, ou o inverso —- tanto faz. O mesmo fez Bush Jr. com a questão dos mísseis nucleares de Sadan, aliás, jamais encontrados: qualquer realidade nominalista é tão boa como qualquer outra, desde que a mídia, a princípio, e a sociedade, depois, a comprem ou engulam.

Estamos, portanto, diante de uma subjetividade formal, retórica, vazia, quando o que de fato conta é a manipulação de contingências com vista um controle do comportamento que nada espera do sujeito em sua indeterminação fundamental.

Partindo deste princípio, torna-se claro que a palavras e os pensamentos são mera expressão de uma história de comportamentos que lhes preexistem e determinam.

A expressão behaviourismo radical visa justamente consumar este ideário. “O termo Radical vem de raiz (parte não diretamente observável de uma planta) e serve para distingui-lo de outros modelos behaviouristas que não consideram os eventos privados (parte não diretamente observável do comportamento humano) como objeto de estudo da Psicologia” (de-Farias, 2010, p. 31). Na operação finalmente efetuada, para efeito de observação direta, troncos e galhos substituem, metonimicamente, a raiz de uma planta, do mesmo modo como nosso mundo interno pode ser completamente substituído por comportamentos públicos dedutíveis de definições lingüísticas apropriadas. Desse ponto de vista, “coexistência social” pode significar apenas olhar nos olhos de outros por mais de trinta segundos. Participar de atividades coletivas pode ser simplesmente não xingar, não jogar fezes em alguém, ou bater palmas ao som de música, e tornar-se afetivo, lançar beijos quando jogamos uma balinha de recompensa. Define-se previamente o que seria um comportamento social “bem adaptado”, por exemplo, “manter os olhos nos olhos do outro por 3 segundos”, e em seguida se exige o comportamento, modelando-o. Mas, qual a prova de que manter os olhos fixos no outro por “n” segundos traduz vida social saudável?

Higienizada das bizarrices e contradições tão humanas, essa vida interior é oca de equívocos, tanto quanto de humanidade.

Devemos viver na ciência, em termos de saúde mental, segundo os padrões e critérios da ciência. Somente esta é capaz de nos informar sobre o que é a realidade última e a verdade empírica implicadas num procedimento científico decisivo. [6]

Estamos falando de uma espécie de vida de laboratório, supostamente controlada em sua previsibilidade, em sua regularidade monótona de organismo. Na prática, a análise funcional aplicada, extensão do laboratório, se encarrega de reproduzir a sequência de intervenções necessárias à reeducação de comportamentos-problema que deixam à enunciação de seus objetos de estudo, humanos, uma participação rigorosamente nula.

A noção de subjetividade decorrente de tal doutrina se mostra, por tudo isso, um exercício de retórica (FERREIRA, 2008). A subjetividade surge, aqui, como um dado artificial, superficial e sem conteúdo. E a alegação de subjetividade presente na teoria parece revelar, ademais, um recurso preventivo contra eventuais protestos de sonegação da humanidade de seus objetos de estudo.    

 

 

 

 

A defasagem histórico-epistemológica do critério comportamental de validação científica

 

Nosso último ponto diz respeito às alegações de cientificidade por parte dos representantes das TCC.

Para o behaviourista, a busca de explicação para os comportamentos em estados internos ao organismo obscurece as variáveis que estão ao alcance de uma análise científica, pois tais variáveis estão, não dentro, mas “fora do organismo”, em seu ambiente imediato e em sua história ambiental.  Não é que não existam tais estados internos, mas eles seriam irrelevantes do ponto de vista de uma análise funcional que se quer científica. Esta se volta, então, para a identificação das relações sistemáticas entre o comportamento e as alterações no ambiente com o qual o organismo interage. Para a identificação dessas interações, dois termos são fundamentais: a observação sistemática do comportamento e seu registro por meio de freqüência estatística. Para se observar as interações organismo-meio, o dado mais importante é a freqüência de resposta, que aumenta quando ocorre reforçamento e controle do comportamento-alvo. Somente gravando ou observando diretamente os comportamentos podemos extrair sua determinação por contingências ambientais. Esse é um dado que condiciona a doutrina à observação, ao ver e ao experimentar. Finalmente, aquilo a que se quer chegar não é à topografia dos comportamentos, mas a sua capacidade de predição, a expectativa de probabilidade de ocorrências de tal comportamento em tal situação.

Segundo Elaine Miranda (2005), os métodos da ciência do comportamento são os métodos da ciência, e sua matéria de estudo são o comportamento e as leis que regem as relações entre este e as variáveis que o controlam. O compromisso do analista funcional é “acompanhado da convicção de que o controle das variáveis deve ser buscado no ambiente do organismo”. A autora observa que, ao aplicar princípios “selecionistas e empíricos” de sua ciência para outras ciências (sic), Skinner formulou a filosofia do behaviorismo radical, demonstrando nesse trabalho “estilo científico, conteúdo e fundamento filosófico”; e finaliza afirmando que

 

 

[…] por meio de melhorias na validação e na confiabilidade das observações através do desenvolvimento de tecnologias observacionais, vem conquistando credibilidade dentro da ciência e tem demonstrado, através de evidências, que a análise do comportamento pode ser eficaz e funcional.

         (MIRANDA, 2005, p. 9)

 

 

A disciplina que tem como objetivo verificar qual o critério de demarcação entre um argumento científico e outro, não científico, é a Epistemologia. Ela visa responder a uma questão essencial que, desdobrada, seria: qual a fronteira entre a ciência e a especulação; o que é o conhecimento ordinário (comum) e o que é o conhecimento científico?

A preocupação do epistemologista está em refletir acerca das bases e condições do conhecimento, e ainda, como esse conhecimento, ordinário ou científico, progride.

De maneira abreviada, podemos relacionar quatro nomes e momentos cruciais do pensamento epistemológico: Dilthey, o Círculo de Viena, Sir Karl Popper e, mais recentemente, Thomas S. Kuhn.

Para nosso interesse imediato, bastará examinarmos, sucintamente, as diretrizes lançadas pelo Círculo de Viena e por aquele que lhe sucedeu, Karl Popper.

Na primeira metade do século XX, na Áustria, alguns filósofos, matemáticos e cientistas[7] se reuniram para estudar o problema dos critérios de ciência e não-ciência, naquele que ficaria conhecido como o “Círculo de Viena”. No entender de um de seus membros, já se pode ver que é por meio do verificacionismo, ou da verificabilidade, que os pressupostos maiores do conhecimento científico seriam contemplados.

O verficacionismo propõe uma retomada da ideia clássica de que a verdade de uma sentença qualquer se encontra em sua estrita correspondência com os fatos.

Para Schlick,

 

[…] a correspondência pode ser analisada como um  procedimento verificacional constituída da comparação entre o conteúdo de uma hipótese e a experiência perceptiva que a verifica. Se houver identidade entre o conteúdo de ambas, a hipótese é verificada, caso contrário, ela é falseada…, localizando essa correspondência dentro de um sistema de contextos lingüísticos.

   (SCHLICK, 1980, pp. 81-84)

 

 

Schlick e colegas preconizavam, para uma compreensão científica do mundo e da própria ciência, critérios que ficaram conhecidos como neopositivistas, positivistas lógicos ou empiristas lógicos, sob os quais se abriga, justamente, o behaviourismo radical. Observação direta, registro de freqüência de ocorrências e probabilidade de predição são os termos principais desse procedimento. A capacidade de generalização a partir de um experimento, por exemplo, N = 1, caracteriza o procedimento como sendo indutivo.

Esses critérios enfatizavam as exigências de clareza e precisão nas descrições dos objetos do conhecimento, e propunham a condição de “verificabilidade”, ou verificação empírica, como referência para a validação de qualquer pesquisa científica  (COTRIM, 2002: 239-250).

Será com Karl Popper (1902-1994) que a Epistemologia iria conhecer um desenvolvimento transformado, no que concerne ao exame do método e do progresso científicos.

De acordo com Popper, a ciência teria, intrinsecamente, a necessidade de crescer, uma “sede de progresso” sem a qual ela mesma se desqualificaria. Mas tal crescimento não se caracteriza por mera acumulação de dados observacionais; sobretudo, relaciona-se com a regra do jogo científico tal como a entende Popper, qual seja, a provisoriedade do conhecimento. Desse modo, para que o campo da ciência se desenvolva, é necessário que teorias sejam substituídas por outras, as quais apresentam melhores graus de testabilidade, capacidade explicativa mais satisfatória e, consequentemente, maiores conteúdos informativos.

A partir dessas premissas, foi possível exercer uma crítica do critério de verificabilidade proposto pelo Circulo de Viena e afirmar, como única possibilidade para o saber científico, a condição de não-verificabilidade ou de “falseabilidade”. Ou seja, o critério central de cientificidade de uma teoria, capaz de decidir que tal sistema teórico representa um progresso no conhecimento, passa a ser o princípio de refutabilidade. Contrariamente à concepção indutivista do método científico originário de Bacon, Popper argumenta que, na medida em que uma afirmação científica fala sobre a realidade, deve ser falsificável; e na medida em que não é falsificável, não fala sobre a realidade.

Pelos critérios de demarcação de Popper, doutrinas com pretensão de cientificidade como o marxismo, a psicanálise e o behaviourismo caem por terra.

No que diz respeito à psicanálise, a especificidade do seu objeto de estudo – o inconsciente em suas relações com as pulsões e as representações – põe obstáculos intransponíveis entre a psicanálise e os quesitos de observação, classificação, generalização e verificação que configuram o indutivismo. Do mesmo modo, a psicanálise jamais conseguiria operar com os critérios do método hipotético-dedutivo de Popper: problema, conjectura, tentativa de falseamento.

Köche (1997) exemplifica com precisão como o indutivismo “supérfluo” do método psicanalítico, ao não admitir falseadores potenciais no confronto com sua base empírica, acarretaria uma rejeição da qualificação de científicas a algumas de suas hipóteses centrais.

 

A hipótese “todos os homens têm um complexo de Édipo, quer de forma manifesta ou reprimida”, não possibilita indicar situações falseadoras, assemelhando-se a uma tautologia que só pode ser confirmada pelas evidências empíricas, não sendo, portanto, científica.                              

            (KÖCHE, 1997, p. 74)

 

 

Os princípios da refutabilidade e da probabilidade metafísica também põem em questão as alegações de cientificidade do behaviourismo radical.

A quantificação por meio de escores estatísticos define probabilidades, mas, a partir de probabilidades, é inadequado extrair macroleis que estabeleceriam uma explicação para os fenômenos. A generalização a partir de regularidades estatísticas constitui, para Popper, uma “metafísica especulativa”. O problema não é que a quantificação nada explica, mas sim que ela explica qualquer coisa, com base em probabilidades de ocorrência.

A probabilidade de ocorrência de um evento não serve para justificação de um sistema teórico, e não atesta a garantia de verdade da reprodução do mesmo evento, em situações distintas. Nesse sentido Popper dizia de uma probabilidade metafísica.

 

 

Com efeito, uma vez que enunciados de probabilidades não são falseáveis, deverá sempre ser possível “explicar” dessa maneira, através de estimativas de probabilidade, quaisquer regularidades que desejemos. […] As teorias que se valem da probabilidade não serão, portanto, científicas —- se não forem utilizadas com certa precaução. É preciso afastar seu emprego metafísico, se queremos que tenham alguma utilidade nas aplicações práticas das ciências empíricas.

                         (POPPER, [1943] 1975, pp. 216-218)

 

Finalmente, os critérios mencionados por Miranda dizem respeito ao indutivismo empirista: observação, classificação, verificação e generalização. Até aqui, o behaviourismo apresenta uma defasagem histórico-epistemológica que derroga sua aspiração à validação científica; seus critérios de ciência permaneceram atrelados ao início do século, sem passar ao contemporâneo.

Pela demarcação proposta por Popper, o behaviourista deveria responder, não pelo que confirma suas hipóteses centrais, mas pelo que as infirma. O que escaparia às teses básicas da doutrina? Por exemplo, se a hipótese central for de que “todos os homens respondem ao reforçamento adequado com aumento de freqüência dos comportamentos-alvo”, seria necessário demonstrar que, em pelo menos um caso, isso não ocorre. Do contrário, a proposição tida como irrefutável se encontra trivializada e seu poder explicativo é posto em suspeição. Mas é certo que caberia ao cognitivista e comportamental responder pelo que sua abordagem não responde. Não em termos de indicação no sentido médico: TOC, comportamental; depressões, cognitiva; histéricos, psicanálise. Responder pelo que não funciona no arsenal de trabalho teria o efeito direto de iniciar a construção de um plano alertado do discurso da ciência, mas orientado por suas contradições, mais que por sua eficácia. Esta mudança de perspectiva muda o foco de orientação de nossa escuta, às vezes.

A rigor, a psicanálise não lida com a subjetividade. Sua noção de sujeito não pressupõe uma vida interior imanente, nem permanente: o sujeito é contingente à manifestação do inconsciente em suas diversas formações e apresentações, sintoma (inibição, angústia), lapsos, sonhos, etc. Ainda assim, o campo da subjetividade disputado pelas psicoterapias nos interessa, pois oferece parâmetros de comparação e distinção em relação àquelas.

 

 

Conclusão

 

Neste artigo, procuramos trazer ao debate pelo menos três hipóteses: i) há uma raiz comum e pontos de confluência teórica que nos permitem posicionar o cognitivismo em sintonia com o comportamentalismo; ii) a subjetividade de que falam os cognitivistas e comportamentais compõe um exercício de retórica carente de fundamentação; iii) a posição epistemológica das TCC está muito distante do critério mais apurado de validação de teorias científicas, pelo método hipotético-dedutivo, proposto por Popper.

Restam, no entanto, várias indagações e temas a serem abordados.

Como se pode desconhecer o delírio, quando ele se impõe a nós por uma demanda de escuta? Será que reforçamos primordialmente o comportamento de delirar, ou ele se manifestou pela tentativa de constituir uma ordenação no caos da psicose?

O behaviourismo tem uma importante contribuição a dar para o ensino e a pesquisa do comportamento humano. Ele se baseia em leis que, no fundo, remetem à pesquisa do reflexo neurológico mais comum, de estímulo-resposta. É o modelo mais simples para se explicar por que nos aproximamos ou nos afastamos de tais pessoas e coisas. Uma perereca dissecada sobre um prato mexe as pernas depois de morta. Isso é o reflexo motor de um morto. Um morto pode se comportar de maneira observável. Ou isso não é comportamento?

Se o comportamento precisar de vida para se traduzir como, propriamente, humano, ele deve procurá-la em outro lugar.

O behaviourismo pode propor esquemas de instrução úteis, se respeitosos à inteligência dos meninos e meninas que eles visam educar. O mesmo para quadros em que síndromes neuroorgâncias específicas retirem o sujeito de uma possibilidade de contato comunitário.

Mas, há mais.

Do primeiro homem que botou uma semente na boca de um macaco, até chegarmos à Supernanny, o condicionamento sempre teve seu lugar, embora não como uma tecnologia pretensamente científica.

O Circo, com seus animais amestrados, já encenava os resultados do condicionamento muito antes de Pavlov viciar um cão numa campainha.

O potencial da tecnologia comportamental é promissor no que diz respeito a certos quadros clínicos neuroorgânicos, e eventualmente em empresas, escolas, haras, etc. Mas, frequentemente irá se deparar com a necessidade de, primeiramente, eliminar a enunciação como veículo de uma verdade singular, e, em segundo, coletivizar as técnicas de condicionamento até que todos atuemos, todo o tempo, como agentes de reforçamento e controle.

A viabilidade de tal projeto dependerá de renunciarmos a falar de nosso sofrimento e de nossos desejos, em primeira pessoa; dependerá também de nossa capacidade de submeter a vida espontânea a uma programação universal de bem estar coletivo.

Ao fim, é em relação à ética que orienta nossa ação que nossa posição se esclarece. Tudo parece mudar se consideramos o semelhante como um pombo, um computador ou um sujeito falante.

Por que, então, técnicos em saúde mental, psicólogos, psiquiatras, tendem a endossar o mero adestramento adaptativo, ou a reprogramação cognitiva, sem levar em conta a significação do sintoma?

Parece-nos que essa tendência está associada ao status do Outro na modernidade, mais precisamente, ao declínio da primazia do simbólico e consequentemente, a certa perda de consistência do Outro como lugar de endereçamento de nossas angústias, desejos e interrogações. A sociedade tende a responder a isso com os recursos que o discurso do Mestre e o tecnicismo oferecem, e esses recursos não deixam lugar à elaboração e à reflexão de um sujeito responsável por suas escolhas de gozo.

Algumas mudanças no regime de gozo contemporâneo apontam para a substituição dos sintomas transferenciais clássicos por casos em que se prescinde do Outro, com atuações, impulsos e compulsões encontrados em presumíveis patologias do ato.  Tais mudanças tornam necessário esclarecer qual a política da psicanálise para uma cultura que estabelece  modalidades alternativas de apresentação da demanda e de satisfação pulsional.

 

 

 

 

 

 

 

Referências Bibliográficas

 

 

BORGES, A. Argumentos de Burris Frederick Skinner para uma tecnologia do comportamento. Trechos selecionados. Ipatinga (MG), 2008. Inédito.

 

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DALGALARRONDO, P.  Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008.

 

FERREIRA, A. B. H. Aurélio: dicionário da língua portuguesa. Curitiba, PR: Ed. Positivo, 2008.

 

FIGUEIREDO, Luís Cláudio. A invenção do psicológico: quatro séculos de subjetivação (1500-1900). São Paulo: Educ: Escuta, 1994.

 

FREUD, S. Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise: A dissecação da personalidade psíquica  (1933 [1932] a). In:_____ ESB, vol. XXII, Rio de Janeiro: Imago Editora, 1980, pp. 75-102.

 

KÖCHE, José .Carlos. Fundamentos de metodologia da pesquisa. Teoria da ciência e iniciação à pesquisa. Petrópolis (RJ): Editora Vozes, 1997.

 

MILLER, J-A. A era do homem sem qualidades (2004). Disponível em: <www.opcaolacaniana.com.br>. Acesso em: 01 de março de 2007.

 

MIRANDA, Elaine. A esquizofrenia sob a perspectiva dos princípios da análise do comportamento. Disponível em: www. 4shared.com/Office/…/Miranda_A_esquizofrenia_sob_a.html. Acesso em: 11/4/2012.

 

MORO, M. R. & LACHAL, C. As psicoterapias: modelos, métodos e indicações. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

 

MOROZ, M; RUBANO, D. R. et al. Subjetividade: a interpretação do behaviourismo radical. In:_____. Psic. da Ed. São Paulo, 20, 1º sem. de 2005, pp. 119-135. Disponível em: pepsic.bvs-psi.org.br/pdf/psie/n20/v20a07.pdf. Acesso em: 11/4/2012.

POPPER, K. A lógica da pesquisa científica (1943). São Paulo: EDUSP, 1975.

 

SCHLICK, Moritz. Positivismo e Realismo. In: Schlick-Carnap. São Paulo: Abril Cultural (Coleção Os pensadores), 1980.

 

SKINNER, B. F. O mito da liberdade. São Paulo: Summus Editorial, 1983.

 

THÁ, Fábio. Categorias conceituais da subjetividade. São Paulo; Annablume, 2007.                                    

 

 

                                 ____    Ipatinga, MG, 25 de Abril de 2012     ____


[1] “É um critério muitas vezes falho em saúde geral e saúde mental, pois nem tudo o que é freqüente é, necessariamente, ‘saudável’, e nem tudo o que é raro ou infreqüente é patológico. Tomem-se como exemplos fenômenos como as cáries, os sintomas ansiosos e depressivos leves, o  uso pesado de álcool, fenômenos que podem ser muito freqüentes, mas que evidentemente não podem, a priori, ser considerados normais ou saudáveis”. (DALGALARRONDO, 2008, p. 33)

[2] Mais exatamente, não se trata de modelar ou pedir. “O problema não consiste em achar na estrutura do comportamento observado algum indício de como fazê-lo desaparecer, mas, antes, em exigir o comportamento que está faltando” (SKINNER, apud MIRANDA, 2005, p. 28) —- grifo nosso.

 

[3] “O comportamento é aquilo que o organismo faz, independentemente de ser público ou privado” (de-Farias, 2010, p. 34)

[4] “Quem se comporta é o organismo, e não a mente ou a cognição. E o organismo é biológico, faz parte do mundo natural” (de-Farias, 2010, p. 32).

[5] […] o behaviorismo, assim como a psicanálise, são dessas disciplinas que trouxeram a desidealização à era do homem sem qualidades. A imagem é sanguinolenta, mas participa do grande movimento de desidealização do qual a psicanálise faz parte, e do qual foi possível censurá-la por ter se afastado sublimando a linguagem. Mas, nas terapias, no behaviorismo, no cognitivismo e nas terapias que vimos deles se deduzirem, não é o animal que é o modelo, mas, antes, a máquina, o objeto-máquina (MILLER, 2004, p. 15).

 

[6]  Discussão mais detalhada no subtema seguinte.

[7] Moritz Schlick (1882-1936), Otto Neurath (1882-1945), Rudolf Carnap (1891-1970), Carl Hempel, Hans Hahn (1879-1934), Herbert Feigl, Friedrick Waismann (1896-1959).

 

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1 Comentário

  1. Adriana Condessa Torres said,

    06/05/2012 às 21:38

    Excelente o percurso teórico sobre o tema, quantos esclarecimentos e argumentos interessantes!! Parabéns pelo texto.


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