Contribuição do CEPP para a matéria do Diário do Aço sobre TDAH (vide post abaixo)

O texto que se segue foi gentilmente recebido pela equipe do Jornal Diário do Aço e pela autora do artigo sobre TDAH que nele fazemos referência. É com sinceridade que agradecemos tanto ao Jornal quanto a autora que possibilitaram que esse texto fosse publicado no Diário do Aço no dia 29 de março de 2012. O texto também pode ser acessado através do site do Jornal pelo link: http://www.diariodoaco.com.br/noticias.aspx?cd=62352.

O BATISMO BUROCRÁTICO E O TDAH

Humberto Moacir de Oliveira*

Domingo passado tive a oportunidade de ler uma matéria dedicada a um dos transtornos mais comentados na atualidade: o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) (vide matéria no post abaixo: https://ceppvaledoaco.wordpress.com/2012/03/29/tdah-oni-fernandes/)

Muita coisa tem sido dito a esse respeito, seja no âmbito científico ou jornalístico, mas algumas perguntas ainda são de extrema importância para a polêmica em torno desse e de outros transtornos mentais. Uma delas é: afinal de contas, como é realizado o processo de criação desses novos diagnósticos? Outra pergunta importante é a respeito de como esses diagnósticos, e não a doença em si, afeta a vida das pessoas.

Para começar esse debate, é importante destacar o número crescente da demanda de diagnóstico nos mais diversos serviços. Da clínica particular aos serviços públicos todos querem saber em qual diagnóstico o filho, o estudante, o funcionário ou o paciente se encaixa. O diagnóstico cumpre assim a função que o presidente da Associação Mundial de Psicanálise, Jacques-Allain Miller, chama de batismo burocrático. Ou seja, supondo que aos problemas de saúde mental é mais útil dar um nome do que questionar a trama de seu funcionamento, a sociedade ordena que os especialistas coloquem o sujeito no rol dos classificados para poder encaminhá-lo com mais segurança; não segurança clínica, mas burocrática.

Isso explica o fato de na citada reportagem encontrarmos a descrição do conceito e do diagnóstico de TDAH, ou seja, a maneira como esse batismo é feito, mas não encontrarmos nenhuma informação a respeito do que causa a desatenção e a impulsividade dessas crianças. Isso se deve não a falta de pesquisa da autora, que buscou ler psiquiatras e neurologistas de universidades famosas, além do manual da Associação Americana de Psiquiatria (APA). Talvez a explicação para o fato de não encontrarmos nessas discussões os possíveis motivos que levam as crianças ao estado de agitação e desatenção seja que na construção desses diagnósticos a causa não é levada em conta, ou o é apenas secundariamente.

Tomando como exemplo o livro disponibilizado pela APA, vemos que se trata de um Manual de Diagnóstico e Estatística das Doenças Mentais (DSM-IV). Ou seja, trata-se de um manual de estatística e diagnóstico, o que explica tantos problemas sociais, disciplinares, familiares, pedagógicos, entre outros, estarem se tornando problemas de saúde mental. Basta haver uma recorrência estatística para receber o nome de doença. Como alerta a psiquiatra e psicanalista Agnés Aflalo, esse mecanismo faz desses manuais um verdadeiro supermercado de diagnósticos e torna a psiquiatria atual “a única disciplina médica cujos diagnósticos se estabelecem não a partir da causa real da doença, mas a partir do efeito que os medicamentos exercem sobre ela”.

Mas como esse batismo burocrático afeta a vida das pessoas? Ora, a principal descoberta de Freud foi entender que os sintomas neuróticos são expressões dos conflitos internos do sujeito. Não se trata apenas de déficit orgânico que deve ser compensados com uso de medicamentos. As pessoas adoecem também pelas emoções, pelas relações humanas, pela culpa, pelo ciúme, pelo luto, pelo amor e pelos desejos ambíguos. E, no entanto, o que os médicos estudam dessas questões em seus cursos de medicina e psiquiatria? Apesar de concentrarem suas pesquisas no corpo orgânico, é a eles que a autora da matéria de domingo e muitos outros profissionais encaminham os pais que identificarem um dos sintomas de TDAH em seus filhos.

Ou seja, a sociedade, os pais, os professores, a própria criança e diversos outros atores sociais, não precisam mais se responsabilizar sobre essas mazelas. Trata-se de um problema médico e a ele deve ser direcionado.  Mas como o médico pode interferir na vida emocional dos sujeitos? Será que podemos dar pílulas para a cena de violência que a criança assistiu ou assiste diariamente, para o despreparo dos professores das escolas públicas e privadas, para a organização da sociedade que cobra de nós uma constante mudança do foco de nossa atenção? Ou será que nada disso tem a ver com a agitação e impulsividade das crianças?

Enquanto não aceitarmos que os sintomas são sinais de conflitos psíquicos que merecem, mais do que uma extirpação imediata através de remédios, uma investigação que busque encontrar no caso a caso suas causas, viveremos a mercê da estatística e do diagnóstico sem entendermos as reais motivações das nossas dores. Fiquemos, então, com a máxima do psicanalista carioca Antonio Quinet que, subvertendo a recomendação das bulas farmacêuticas, adverte: “Persistindo o médico, procure seu sintoma”.

*Humberto Moacir de Oliveira é Psicólogo, Mestre em Estudos Psicanalíticos pela UFMG e atual coordenador do CEPP (Centro de Estudos e Pesquisas em Psicanálise do Vale do Aço).

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2 Comentários

  1. grid said,

    30/03/2012 às 20:03

    EXCELENTE OBSERVAÇAO, A SOCIEDADE ESTA CADA VEZ MAIS QUERENDO DIAGNOSTICO PARA AMENIZAR SEU SOFRIMENTO, POIS NAO DAO CONTA DA SUA PROPRIA REALIDADE.


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