“CRACK E PSICANÁLISE: uma pedra no caminho?” (texto escrito por Maria Wilma S. de Faria, psicanalista membro da EBP e especialista em Saúde Mental, para a IV Jornada de Psicanálise do CEPP)

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra

Carlos Drummond de Andrade

 

É com grande alegria que agradeço o convite feito por Cristina Abrantes e Marília Moreira através do Centro de Estudos e Pesquisas em Psicanálise (CEPP) e da UNIPAC, que me possibilitaram estar aqui, estreitando laços e trocando experiências.

Como não poderia deixar de ser, o tema desta conferência logo de partida me remeteu a Carlos Drummond de Andrade, nascido em 1902, na cidade de Itabira e que no início do século passado soube tão bem descrever as agruras de se ter uma pedra no caminho. Investigando um pouco a vida do poeta, tomei conhecimento de que, filho de fazendeiros em decadência, o jovem estudou em BH, e posteriormente em um colégio jesuítaem Nova Friburgo/ RJ, de onde foi expulso por “insubordinação mental”.  Seja lá o que isso seja, uma pedra no caminho não deteve o jovem poeta, pelo contrário, com esmero soube contorná-la! Aqui, as pedras já apontam algo mais sutil, que nos remete à insubordinação de algo, que incomoda, e que toca a vários, mas como diz o poeta, é da ordem de um acontecimento!

Proponho assim pensar o encontro com as drogas como algo de um “acontecimento”! E não é um acontecimento qualquer. Estamos falando do encontro de um sujeito. E o que quero desde já chamar a atenção é que para além da substancia, para além do crack, há um sujeito ativo no seu fazer. As drogas por si mesmas não têm poder, o uso que cada sujeito faz delas é que marca a diferença!

Antes de nos deter na particularidade do sujeito toxicômano, acho que não devemos simplificar o fenômeno do consumo de drogas restringindo-o a uma epidemia, a uma doença do século, ou eleger o crack como o demônio contemporâneo, a droga que mata! Essa visão alarmista a mídia o faz muito bem, dicotomizando como algo que precisa ser visto pela vertente da saúde, ou ser reprimido, na vertente da segurança e da polícia. O convite que faço é para ampliar o conceito pensando no fato de nunca ter existido na história do homem uma sociedade sem drogas. Em grande parte das sociedades, o uso de substâncias era algo restrito a situações que envolviam: o laço social; as comemorações; os eventos religiosos; os rituais de cura; as orgias; para aliviar tensões e se buscar o prazer. Poderíamos dizer que o consumo de substâncias esteve, até então, restrito a determinados momentos e em contextos específicos. Então, nada de sociedade e de agrupamento sem drogas!

“Não podemos pular para fora deste mundo”.

Com essas palavras, Freud no início de seu texto “O mal-estar na civilização”de 1929, vai apontar que tudo que os homens pedem da vida e esforçam para obter, é a felicidade. Tal empreitada pode visar “uma ausência de sofrimento e desprazer e por outro lado à experiência de intensos sentimentos de prazer”. Se o propósito da vida é o programa do princípio do prazer, este se encontra em desacordo com o mundo inteiro e não há a menor possibilidade dele ser executado, continua o autor.  “A intenção de que o homem seja feliz, não se acha incluída no plano da “Criação”. Para Freud o que chamamos felicidade só é possível em situações episódicas, momentâneas, envolvendo a satisfação, geralmente repentina, de alguma necessidade represada. Quando alguma situação desejada e prazerosa se prolonga, o seu brilho esmaece. As palavras de Goethe caem como uma luva, quando nos adverte que “nada é mais difícil de suportar que uma sucessão de dias belos”. Geralmente só extraímos o prazer através do contraste, e dessa forma as possibilidades de se atingir a felicidade são restritas pela própria constituição humana. A felicidade é impossível de ser alcançada, já a infelicidade é mais fácil de experienciar. O sofrimento nos ameaça a partir de três fontes segundo o autor: o nosso próprio corpo sujeito a deterioração; o mundo externo e, principalmente, nossa relação com os outros homens. Daí o sucesso obtido com o uso de substâncias através da intoxicação: sensações prazerosas vividas no próprio corpo, o afastamento do mundo exterior e da relação com os outros. Na luta para alcançar a felicidade, lançar mão das substâncias tóxicas permite afastar-se da miséria humana; encontrar o prazer de forma imediata e, ainda, alcançar uma independência do mundo. Através da intoxicação os homens podem subtrair-se das pressões da realidade e encontrar refúgio em um mundo próprio. (FREUD, 1976a).

Temos então o consumo de substâncias entrando como uma das soluções encontradas pelo homem para aliviar o mal estar que acompanha a dor de existir. A incompletude, o fato de não sermos um ser pleno faz parte da constituição de cada um. Lidar com nossa finitude, a perenidade do corpo, as intempéries da natureza e até mesmo com o fato de que nas relações com os outros, este outro falta, e não corresponde ao ideal esperado, tudo isso traz angustia ao ser falante. Para Freud há inúmeras formas de lidar com esse mal estar que é constitucional, são as chamadas “construções auxiliares”, paliativos que nos permitem seguirem frente. Assim, o uso de drogas, o amor, a religião, a sublimação, são formas de aliviar a dor de viver, o que não implica necessariamente em encontrar uma grande felicidade.

 

A TOXICOMANIA GENERALIZADA

Em seu livro “Felicidade”, o filósofo Eduardo Giannetti nos convida a refletir sobre o que aconteceu de errado no projeto iluminista de conquista da felicidade por meio do progresso científico e material. O iluminismo europeu do século XVIII pressupunha a existência de uma harmonia entre o progresso da civilização, o aumento da felicidade e a construção de um mundo melhor. Mesmo com todo o avanço científico, o aumento da produtividade e da riqueza material, o domínio da natureza pela tecnologia, a libertação das mentes (após séculos de opressão religiosa), mesmo com todas as transformações das instituições políticas e o aprimoramento intelectual e moral dos homens através das leis e da educação alguma coisa falhou, afirma o autor, pois, os anseios de felicidade, bem-estar e realização existencial dos homens não ocorreram. Não ocorreu um final feliz.

Hoje vivemos uma época onde lidamos com a toxicomania na vertente da “toxicomania generalizada”, época do consumo como suposta resposta ao mal-estar. A universalização introduzida pela ciência suprime as diferenças e homogeniza os modos de gozo, suprimindo o que é da ordem do singular, do um a um. Vivemos em uma época onde se privilegia o consumo de tudo, época regida sob a prevalência dos objetos. A inscrição da felicidade se dá por meio de objetos a serem consumidos, sendo que esses podem ser de toda ordem (carro, i-pods, quinquilharias, roupas) até a produção química de substâncias que trazem a promessa de felicidade, bem-estar e alegria. Imperativos de nossa cultura como o GOZE! COMPRE! SEJA FELIZ! nos acossa a todo momento. Para tudo há um remédio, a ponto de parecer que qualquer angústia, qualquer mal estar pode ser tratado!  Está aí a indústria farmacêutica que não nos deixa mentir. Há uma tendência generalizada ao prazer sem restrições, onde tudo vale, onde o mercado com tantas ofertas unifica a forma de gozo. Então, todos consumidores! Todos intoxicados!

O sociólogo polonês ,  Zygmunt Bauman, lança mão do significante “fluidez” para marcar a dissolução, o derretimento dos vínculos que unem o sujeito ao Outro na pós-modernidade. Podemos dizer que o discurso capitalista produz efeitos que vão muito além da felicidade, ele atualiza um gozo que vai além do princípio do prazer. 

Constatamos cada vez mais a queda de ideais norteadores, o declínio da lei simbólica como função e a incidência da técnica e da ciência, que negam de forma radical o sujeito de desejo e o inconsciente. A ilusão de que o progresso poderia colocar as invenções a serviço do bem comum se esvai, na medida em que as leis de mercado preconizam a uniformização maciça de hábitos, valores e costumes de forma a encobrir as diferenças. Como disse, bens de consumo são ofertados trazendo como promessa a satisfação e a felicidade, no esforço de reduzir o desejo ao encontro com esses objetos. Dentro da cultura do ter, o que se vale é o que se tem e não o que se é. É assim que assistimos a uma nova forma do homem colocar-se no mundo, sozinho, com seus objetos de gozo, porem tomado por sentimentos de medo, insegurança, na tentativa vã de suprimir a falta e a incompletude.

 

Frente a tudo isso, não é de se surpreender cada vez mais o uso de drogas. Mas então por que o consumo de drogas ilícitas aterroriza tanto? Por que o “crack” e agora o “oxi” tornaram-se o demônio do século?  Quando bem sabemos que o consumo em larga escala de drogas prescritas para aliviar desde a depressão, passando pela ansiedade, a insônia, a inibição, a impotência sexual, o apetite, não param de crescer? Por que o uso de algumas drogas aparece ora como solução, como um remédio, e outras vezes viram um problema a ser debelado, exorcizado?

Se formos pensar do ponto de vista subjetivo há pouca diferença entre fumar maconha, a pedra de crack, tomar cachaça, antidepressivos, anfetaminas. Todas são substâncias que produzem alteração no SNC e levam a uma alteração na consciência, no humor, na forma de perceber a realidade. Não questiono aqui a existência da dependência de drogas. Mas o convite que faço é para pensarmos que as drogas e substâncias por si, são em sua natureza, inertes. O crack sozinho não mata! Não vicia! São as pessoas que podem ou não viciarem com o crack.

O QUE A CLÍNICA PSICANALÍTICA ENSINA?

A clínica nos ensina que o enfoque não deve ser dado na substância, mas no sujeito! Um sujeito ativo no ato de se drogar! É na relação que cada sujeito estabelece com a droga, a função que ela ocupa na economia psíquica que vai nos interessar! A que ela está servindo? Quais são os momentos que cada sujeito recorre a ela? A clínica nos ensina que esta função se dá no um a um, na particularidade de cada caso. Para além das classificações dos efeitos, percebemos que o uso é absolutamente singular. É preciso desconstruir a idéia e o preconceito de que o usuário de droga é um doente e ou um delinqüente, que só tem como saída a internação ou a prisão. Ou que a culpa é da “química, a dependencia química”, como se não houvesse um sujeito! Prefiro apostar na responsabilização de cada sujeito, com o seu fazer, com o ato de se drogar!

A psicanálise ensina que devemos escutar aqueles que chegam em nossos consultórios, em nossos serviços. Nesse sentido não sou adepta da idéia de que existe uma “clínica da toxicomania”, como se todos os que usam drogas fizessem um conjunto, com dificuldades semelhantes e com saídas também semelhantes. Cabe a nós a escuta cuidadosa de cada demanda que chega, pois não é o uso de drogas que define a posição subjetiva e o sofrimento dos que nos procuram.

O toxicômano é aquele que se dirige a um serviço tentando fazer acreditar que há um problema entre ele e a droga. Endereça a um outro o apelo de que lhe seja  tirado a droga ou o álcool e aponta que, uma vez feito isso, tudo estará bem. Ou seja, ele faz da droga a causa de sua demanda. Daí toda a dificuldade encontrada nesses casos para que uma implicação subjetiva aconteça. Aquilo do que se queixam toma a dimensão de um objeto real, eles acreditam ser a droga o objeto que se presta a atender todas as suas necessidades. Se o sintoma, tal qual descrito por Freud, interroga o ser e pode ser entendido como uma resposta do sujeito (metáfora de um desejo recalcado), a toxicomania apresenta-se como uma maneira de ser, de viver e de gozar. Ou seja, a toxicomania recobre o sintoma! Não é uma questão que se coloca para o sujeito a partir da “falta a ser”. Os toxicômanos apresentam um saber sobre si mesmos, eles sabem quem são e chegam se nomeando. Com isso não trazem nenhuma pergunta, nenhuma dúvida sobre o seu fazer, sobre sua história, sobre o seu sofrimento. Geralmente quando recorrem a uma instituição isso se dá após anos de consumo e é possível observar uma certa pobreza simbólica. Chegam fora de uma demanda e de uma transferência, diversidades contemporâneas de apresentação, tais como os novos sintomas (anorexia, bulimia, fracassos escolares, doentes do pânico) para lidar com o paradoxo do gozo.

A experiência toxicomaníaca permite como nunca a introdução do conceito de gozo, para designar aquilo que se situa além do princípio do prazer, aquilo que não está ligado à experiência de satisfação e sim a um excesso, um a mais, que muitas vezes conflui para a pulsão de morte. Poderíamos perguntar então se o momento de fissura, em que o sujeito está totalmente tomado pela premência do uso da droga, não seria justamente o momento em que ele se encontra a mercê do gozo. A fissura entraria aí como uma “solução de continuidade“, da ordem de um real, impossível de ser simbolizado fora da cadeia significante. É nesse ponto de insuportabilidade, de excesso e de transbordamento que recorrem à instituição. Constatamos com isso que esses sujeitos muitas vezes pedem um lugar onde possam ser protegidos de si mesmos, pedem uma contenção física, uma internação que vá provocar um distanciamento geográfico de seu bairro, da “boca”, do traficante, da droga. Em outros momentos o pedido que se faz é de uma contenção química. É comum escutarmos o seguinte apelo: – ”Estou na maior fissura, me dê uma droga, um remédio, qualquer coisa que me tire a vontade de injetar, fumar pedra, beber”.

O tempo de chegada pode ser também marcado pelo encontro com o real do corpo, uma vez que o corpo para o toxicômano se apresenta como um lugar para gozar, e esse pode dar mostra de sua fragilidade em toda sua extensão. Às vezes há por parte do sujeito um certo reconhecimento de que se tornou ele próprio um objeto, um nada, um resto frente à droga, que o determina.

O que a psicanálise contribui e nos ensina nessas situações é que não devemos ceder à pressa nessa hora. Também não estamos ali simplesmente para atender uma demanda tal como ela se apresenta e menos ainda para refuta-la. Se para o campo da medicina a rapidez de um procedimento é o fator decisivo nas urgências, no terreno das toxicomanias é importante fazer valer uma certa escansão no tempo. Adiar indicações, prescrições, confrontar um pouco o sujeito com o que diz, perguntar sobre a fissura, escutar, atender um maior número de vezes. Consideramos que o ato de acolher é decisivo para os lances futuros de um tratamento. Aqui, não cabe então a pressa de uma resposta, de uma intervenção. Entrar na urgência dos pacientes, ou de seus familiares, imbuir-se de um “furor curandi”, entregar-se a um tarefismo sem fim, fala mais da angustia do profissional que os recebe do que de uma posição ética a ser sustentada.

Com tudo isso, consideramos assim que há um sujeito em oposição à idéia de um objeto que merece intervenção, mesmo sabendo que muitas vezes o corpo como resto, como dejeto, é o que se apresenta e que uma intervenção tal como o dispositivo do leito de desintoxicação faz-se necessária, em decorrência do quadro clínico manifesto. Em outros termos: o sujeito ainda não fala mas o corpo grita.

Regrar o gozo através de palavras, medicamentos, oficinas ou mesmo convidando o paciente a ficar na instituição em regime de permanência-dia, tudo isso são formas de lidar com uma crise e propiciar condições para que um sujeito possa advir.

Carlo Viganó, em uma conferência em Belo Horizonte, intitulada A Urgência e a Crise, trouxe importantes formulações nesse sentido. Segundo o psicanalista, para pensarmos os novos dispositivos e atendermos tais casos, não podemos desconsiderar a “pluralização da clínica”, na medida em que as instituições recebem cada vez mais pacientes que estão sem sintomas. Pacientes sem sintomas, mas em crise, sem controle das próprias emoções, vivendo uma situação inusitada. A crise, como afirma Viganó, não é um sintoma, é o momento da experiência da pessoa, tem um caráter explosivo e paradoxal. Como tomar para a análise uma crise? Ele propõe fazer com que a crise seja um ato. Ela é a manifestação contingente de um insuportável. Trata-se nesse momento de recuperar a lógica do sujeito, algo diferente da lógica do diagnóstico, pois na crise não sabemos quem é o sujeito. O efeito vem antes da causa. Tais situações apontam para a necessidade dos serviços se organizarem no sentido de poderem receber tais pacientes no momento mesmo que o ato é feito. Não é possível adiar ou agendar uma crise.

A título de conclusão mas sem fechar a questão, podemos dizer que a psicanálise aposta, para alem do real do corpo e da identificação imaginária de uma nomeação, na possibilidade simbólica dos toxicômanos  fazerem uma leitura de sua história, de sua relação com a droga, e principalmente na construção de uma verdade particular para cada sujeito. Esta aposta que impulsiona o trabalho analítico se sustenta no desejo que leva o sujeito consentir em abrir mão do gozo da droga e a buscar outra forma de satisfação. Nessa época de fragilidade simbólica a psicanálise pode ajudar a suportar a angustia de existir que, como vimos, não se aplaca jamais.

Retomando o início de minha fala, com o poeta, se o encontro de um sujeito com a pedra é da ordem de um acontecimento, o encontro com um analista também poderá ser considerado como um acontecimento, um divisor de águas. Para além das pedras de crack, apostamos no inconsciente, nas possíveis invenções que cada sujeito faz para lidar com a pedra que há no seu caminho!

Se procurar bem você acaba encontrando.
Não a explicação (duvidosa) da vida,
Mas a poesia (inexplicável) da vida.

Carlos Drummond de Andrade

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