Tornar-se mulher: o Édipo Feminino (Amancio Borges)

No Encontro Marcado de 22 de Outubro passado, propusemos os esquemas seguintes para distinguir entre as formulações do Édipo para a menina e para o menino, tomando por base escritos de Freud a respeito do tema.

Isolamos uma primeira e sensível diferença na duração da fase chamada por Freud de “pré-edipiana”, que introduziria o complexo de Édipo, e que nas meninas teria desenvolvimento mais longo.

Uma segunda diferença está na posição do complexo de castração. Se nos meninos ele finaliza o Édipo, adequando os rapazes à vida social por meio de inibição da masculinidade e incremento de passivação, concomitante à passagem do ato à palavra, nas meninas a castração é que inicializa o Édipo, ao ponto de nos perguntarmos se de fato a castração para as mulheres não é algo de indecidível.

Outro dos efeitos da passagem pelo Édipo, é que ele inaugura a sexuação. Não haveria sentido em dizer, por princípio, que alguém nasce homem ou mulher. Parece que só depois de atravessar o complexo de Édipo é que essa opção encontra registro no inconsciente. A posição feminina não remete, então, a nenhum “ser” de mulher, mas, antes, é uma questão de “tornar-se” mulher. Depende de como se faz a travessia. Levantou-se, durante o debate, a ideia de que o tempo verbal apropriado à sexuação edipiana, tanto para os homens quanto para as mulheres, seria o gerúndio: alguém não “é” homem ou mulher, em definitivo; pelo menos até a fase da escolha de objeto, talvez mesmo depois, o sujeito encontra-se “sendo”, está se “tornando” um ou outro —- podendo deixar de “ser” nalgum momento…

Freud localiza um momento em que se dá um ponto de basta nesse deslizamento contínuo. Isso se daria quando a menina abandona o desejo de ter um pênis e põe em seu lugar o desejo de um filho, tomando o pai, com esse fim, como objeto de amor, e elegendo a mãe como fonte de ciúmes: aí, então, “a menina transformou-se em pequena mulher” (FREUD, 1925/1980, p. 318).

Por fim, destaca-se o fato de que os investimentos de libido no objeto original acabam em parte dessexualizadas e sublimadas e em parte inibidas em seu objetivo, transformando-se, de interesse erótico, em afeto. Para as meninas, no entanto, esse movimento exige um esforço a mais, pois no mesmo instante em que ela é levada a rejeitar a mãe como objeto de amor, com toda a hostilidade disso decorrente, ela precisa se identificar à mãe para encontrar outro lugar junto ao pai. Esta, a dificuldade própria e o desafio do Édipo feminino: conservar, a título de identificação, o que deve ser abandonado a título de objeto de amor.

Por enquanto, limitamos nossa pesquisa à argumentação freudiana. Pretendemos, no início de 2012, voltar ao tema acrescentando as contribuições de Lacan sobre o gozo feminino.

 

 

Referências Bibliográficas

 FREUD, Sigmund. Fantasias Histéricas e sua relação com a bissexualidade [1908]. In:____. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, v. IX. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1980,  pp. 167-171;

 _______. A organização genital infantil: uma interpolação á teoria da sexualidade [1923]. In: ____. ESB, v.XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1980, pp. 179-185;

 _______. A dissolução do Complexo de Édipo [1924]. In:____. ESB, v. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1980, pp.  198-227;

 _______. Algumas conseqüências da diferença anatômica entre os sexos [1925]. In:_____. ESB, v. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1980, pp. 309-320;

 _______.  Sexualidade Feminina [1931]. ESB, v. XX. Rio de Janeiro: Imago, 1980, pp. 263-280.

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