Uma discussão sobre o uso de substâncias psicoativas na contemporaneidade: Aspectos Sociais (Juliana Correa Andrade)

Ao longo da história, as substâncias psicoativas foram utilizadas dentro de diversos contextos sócio-culturais, como parte de rituais religiosos, na indústria farmacológica para alívio da dor, em comemorações sociais, em condições socialmente aceitas, como parte integrante das diversas culturas, tendo aí um lugar de normalidade.

Não podemos, entretanto, falar de um uso universal destas substâncias. O tipo de substância mais utilizada, as relações que se estabelecem entre o usuário e o meio social, as formas de uso, as normatizações/sanções relacionadas ao uso são variantes dentro de cada cultura.

Ao longo do tempo, o uso social das substâncias psicoativas foi atravessado por conotações morais, ideológicas, jurídicas, médicas, econômicas, colocando este uso sob a ótica de diversas formas de julgamento. No campo jurídico temos a questão do uso e comércio legal ou ilegal, no campo médico ocorre a divisão entre uso saudável ou patológico e o usuário é tomado muitas vezes como doente, como aquele que necessita de tratamento, no campo econômico temos o comércio legal e a comercialização pelo tráfico de drogas, no campo moral a divisão recai entre uso social ou vício elegante e a criminalidade.

Estas visões possuem em diferentes dimensões conotações ideológicas, e irão permear nossos conceitos sobre o que é ser usuário de substâncias psicoativas, qual o lugar que este sujeito deve ocupar no cenário social, como lidar com esta questão.

Verificamos ainda que tais substâncias, além de ocupar um lugar na cultura, têm uma função na vida dos sujeitos. A forma como cada sujeito vai se relacionar com as substâncias vai nos sinalizar um uso subjetivo das mesmas, como bem descreve Thomas de Quincey, escritor inglês, autor de Confissões de um Opiônamo Inglês que viveu entre os séculos XVIII e XIX:

              “Dentro de uma hora, oh céus! Que extraordinária mudança! Que ressurgimento das mais inatingíveis profundezas do espírito! Que revelação do meu mundo interior. O fato das minhas dores terem desaparecido pareceu-me então uma insignificância. Esse efeito negativo foi consumido no abismo de um prazer divinal subitamente revelado. Aqui estava a panacéia para todo e qualquer sofrimento humano; aqui estava o segredo da felicidade.”

A importância do uso das substâncias psicoativas na cultura e na realidade subjetiva é discutida por Freud, em 1930, no texto O Mal Estar na Civilização, quando ele vai nos dizer que:

“O serviço prestado pelos veículos intoxicantes na luta pela felicidade e no afastamento da desgraça é tão altamente apreciado como um benefício, que tanto indivíduos quanto povos lhe concederam um lugar permanente na economia de sua libido. Devemos a tais veículos não só a produção imediata de prazer, mas também um grau altamente desejado de independência do mundo externo, pois sabe-se que, com o auxílio desse ‘amortecedor de preocupações’ é possível, em qualquer ocasião, afastar-se da pressão da realidade e encontrar refúgio num mundo próprio, com melhores condições de sensibilidade”

Para localizarmos o uso de substânicas psicoativas no mundo atual vamos fazer um recorte histórico a partir século XIX, onde verificamos uma série de transformações científicas, tecnológicas, econômicas, sócio culturais, que vão proporcionar a consolidação do sistema capitalista no mundo ocidental.

O sistema capitalista é regido por uma lógica de produção de bens e de objetos e da transformação destes objetosem necessidades. Noséculo XX nós localizamos um enorme avanço deste sistema com o advento do capitalismo globalizado, a partir dos anos 80 e com a consolidação de políticas neoliberais nos países desenvolvidos e em desenvolvimento. Estes fatoress proporcionaram aberturas de mercado, avanços tecnológicos, criação vertiginosa de uma variedade de objetos e de necessidades, sendo importante destacar aí o papel da mídia como um forte instrumento de manutenção destas necessidades. Paralelamente vimos modificar referenciais importantes na política, na instituição familiar, no trabalho, na estabilidade das classes sociais, deixando em evidência a queda dos ideais.

O que temos então é um mundo caracterizado pela evidência do consumo e da abundância, pela indústria do supérfluo, um mundo artificial, um alto investimento na imagem, no prazer, na ausência da dor, uma sociedade regida pelo discurso do capitalista.

Lacan considera o discurso do capitalista como uma nova forma de economia libidinal, específica do mundo contemporâneo, que sobrepõe o mercado à sociedade. Este discurso produz objetos que visam a saturação do sujeito, tamponando sua falta com objetos que se supõe serem capazes de satisfazer o desejo. As relações sociais não estão centradas nos laços com outros homens, mas com um objeto de consumo curto e rápido. Segundo Antônio Quinet (2003), no texto “A ciência psiquiátrica nos discursos da contemporaneidade”, este discurso promove o autismo induzido, estimulando a ilusão de completude não mais com um par, e sim com um parceiro conectável e desconectável, ao alcance da mão.

As substâncias psicoativas vão entrar então na linha de produtos fabricados para consumo, sejam eles de ordem legal ou ilegal, e que passam a ocupar um outro lugar social, duplamente marcado pela satisfação: a satisfação promovida por tratar-se de um negócio que representa a possibilidade de uma rápida ascensão financeira e a satisfação do consumo com todo aparato que este consumo representa para o sujeito contemporâneo: prazer, ausência de dor, ausência de sofrimento…

As substâncias psicoativas vão ocupando um lugar de objeto de consumo dentre tantos outros que o mundo contemporâneo oferece e com todas as tecnologias. Além das substâncias naturais temos também as sintéticas: a pílula, o pó, a pedra mágica que realiza nossos sonhos, pela via do comércio ou pela via do consumo, sem, no entanto, tocar no sujeito: trata-se de um sujeito anestesiado. Existem opções para todos os gostos e todos os bolsos, desde que o consumo não seja interrompido, para manter a satisfação do mercado.

Fabricado à base da pasta de cocaína, com adição de solventes diversos, o crack é um destes produtos. Sua fabricação, porém, não exige equipamentos sofisticados, tecnologia de ponta ou mão de obra especializada; pode ser fabricado num fundo de quintal com produtos de segunda linha, restos de restos. Podemos verificar aí uma forma de comércio cada vez mais auto-sustentável: a transformação de restos em produtos de baixo custo, que pode ser vendido a baixo preço, mas com valor agregado extremamente alto (crack e oxi) garantindo que haja sempre um público consumidor.

Duas substâncias que atendem ao desejo de satisfação plena e imediata em apenas alguns segundos, numa sociedade marcada pela busca da felicidade a qualquer custo e no menor tempo possível.

Ao mesmo tempo, a opção pelo uso de droga guia o sujeito em direção ao próprio mal, colocando o gozo antes da cautela. É um paradoxo, mas o mal passa a ser algo prazeroso e incessantemente desejado pelo sujeito.

Com relação ao mecanismo de ação no organismo, embora saibamos que a relação que cada sujeito estabelece com o objeto de satisfação pulsional é da ordem do singular, não podemos negar a qualidade da ação do produto, que produz em curto tempo o efeito desejado, a um custo imediato muito menor que outras substâncias, como a cocaína. Este fato levou o crack a ser conhecido como cocaína dos pobres, mas este conceito não é verificado na realidade, pois o uso tem sido feito por pessoas das mais diversas classes sociais, e o custo imediato, ao longo de um tempo, torna-se caro, devido ao intenso consumo.

Do ponto de vista da comercialização, não podemos esquecer que a questão está ligada a um forte e rentável mercado de varejo muito pulverizado – bocas, lojas, gangues, free lancer – uma distribuição em forma de pirâmide, ou rede, onde o vendedor é o próprio usuário. Ele se torna ao mesmo tempo devedor e credor contumaz, havendo então uma forte disputa pelo território de venda. Em 2010, no Simpósio Sul Americano de Políticas sobre Drogas, o cientista social Dr. Flávio Sapori apresentou uma pesquisa realizada desde 2008 com pessoas envolvidas no comércio de crack, entre policiais, vendedores, consumidores, onde ele apresenta exatamente essa cadeia pulverizada:

“O vendedor-usuário do crack acaba uma hora ou outra se tornando um devedor. E nessa cadeia, se alguém deve alguma coisa, essa dívida se reproduz nos outros setores de venda. Um vai devendo para o outro. E aí, se ele não paga, não se pode procurar o Procon. É quando entra a força física, a arma de fogo e as mortes. E essa cadeia de venda vira uma cadeia de mortes e de violência”.

O que percebemos é que o aumento do número de homicídios associados ao crack não acontece necessariamente pelo efeito da substância no organismo, mas pela forma de organização do comércio.

Outra questão importante é quanto ao estereótipo que vai sendo criado com relação ao usuário de crack. Denominado como crackete, saci, craqueiro, é uma figura necessária enquanto mão de obra e consumidora, e ao mesmo tempo fortemente desprezada pelo traficante por se tratar de um ser sinistro, sujo, que exala mal cheiro, exposto à pobreza, que atualiza a imagem da desordem, do delito, da desagregação social, do gozo. O usuário é visto como um depositário de todas as mazelas sociais. É uma figura que gera incômodos por traduzir, de forma exagerada, subprodutos do discurso do capitalista.

Ocorre também uma mudança no cenário urbano, com a constituição das cracolândias, territórios ocupados pelos usuários de crack de forma espontânea, normalmente localizados em áreas urbanas degradadas e com o “consentimento” do Estado. É o local onde chega a pedra e as pessoas se reúnem para fumar. Uma reunião que não é, entretanto, para rodar o cachimbo da paz, mas sim para satisfazer o gozo autista do consumidor em sua relação dual com a droga.

Podemos interrogar se as cracolândias são espaço de construção de laços sociais. Se a resposta for positiva, qual o laço possível? Não temos ainda uma resposta definida para estão questão, mas sabemos que, se há possibilidades de laço, não podemos afirmar de modo universal, apenas no caso a caso.

Para a antropóloga Regina Medeiros, as cracolândias são espaços que potencializam contatos, proteção e identificação, onde existem códigos de comunicação e regras de comportamentos próprios, onde é possível algum tipo de interação social, ainda que, ao utilizar a pedra o sujeito exclua o Outro.

As cracolândias se configuram como novos guetos, como espaços de segregação. Vistas como espaços habitados por grupos perigosos, por populações de risco, as cracolândias denunciam o sistema social: reproduzem o discurso do consumo, o mercado informal e ilegal, potencializam as diferenças sociais, reforçam a divisão dos territórios, fixam rótulos, cronificam sujeitos sociais.

Os impactos sociais que temos percebido com o advento do aumento do uso do crack estão expressos no rompimento com laços familiares, de trabalho e de escola, mas, especialmente no aumento do número de atos violentos e homicídios. Precisamos entender, entretanto, que o crack é um desafio social, mas não é o causador dos problemas sociais. Se tirarmos o crack de circulação, não vamos resolver o problema da violência. O crack é um fator de risco que estimula o surgimento de outras vulnerabilidades e torna mais visível os problemas sociais, mas a questão não está efetivamente na substância, e sim no uso que se faz dela e porque tem sido feito desta forma. Nós temos que pensar no sujeito e nas diversas situações de vulnerabilidade que o perpassam.

Entendemos que não existe uma saída de antemão para enfrentar os desafios que emergem do uso de substâncias psicoativas na contemporaneidade, mas não podemos perder de vista alguns pontos necessários para lidar com esta realidade:

– Estudo, investigação, instrumentalização, a fim de ampliar nosso olhar sobre esta questão e nos descontaminarmos do que é insistentemente apresentado pela mídia. É necessário uma leitura da realidade que considere os aspectos levantados neste texto.

– Elucidação territorial: Conhecer os dispositivos da rede que temos à nossa disposição, tanto os órgãos públicos quanto comunitários e sair do lugar de saber absoluto, trabalhar segundo a ótica da responsabilidade solidária, onde um saber tem relações de complementaridade com o outro. Conhecer também a rede de relações do sujeito e trabalhar com as possibilidades ali existentes.

– Localizar a estrutura do sujeito e o lugar que o objeto de consumo ocupa para ele. Considerar os diversos padrões de consumo e ampliar as possibilidades de saída para cada sujeito, que podem incluir a abstinência, ou não. Pode ser que a saída possível seja pela via da redução de danos.

– Considerar a redução de danos também do ponto de vista social, interrogar-se sobre como reduzir danos sociais: que tipos de estratégias podemos utilizar para evitar que as pessoas iniciem o uso, ou que uma experiência de consumo se transforme num uso regular, ou ainda que possamos intervir precocemente no padrão que traga risco social?

 Referências Bibliográficas

 BOUERI, Aline Gatto. O pecado, o crime e a doença: Fiscalização de entorpecentes no Brasil. Rio de Janeiro, 2007 Trabalho de conclusão de curso de graduação em Comunicação Social – Escola de Comunicação, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2007.

 CRUZ, Marcelo Santos e FERREIRA, Sallete Maria Barros – organizadores. Álcool e drogas: usos, dependência e tratamento. Rio de Janeiro: Edições IPUB/CUCA, 2001.

DUARTE, Danilo Freire. Uma breve história do ópio e dos opióides. Revista Brasileira de Anestesiologia. vol.55 no. 1 Campinas Jan./Fev. 2005.

FREUD, S.(1930) O Mal Estar na Civilização, in ESB, vol. XXI. Rio de Janeiro: Imago. 1980

MEDEIROS, Regina. Clínica x Croni(cidade): Impactos do uso/abuso de crack na configuração urbana. Simpósio Sul Americano de políticas sobre drogas. Crack e cenários urbanos. Belo Horizonte. Governo de Minas Gerais. Maio, 2010.

 QUINET, A. (2003) A ciência psiquiátrica nos discursos da contemporaneidade. http://lacanian.memory.online.fr/Aquinet Ciencia.rtf. Consulta em 2009.

SAPORI, Flávio. O uso do crack como fator de risco da violência. Simpósio Sul Americano de políticas sobre drogas. Crack e cenários urbanos. Belo Horizonte. Governo de Minas Gerais. Maio, 2010.  

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