Notícias sobre o Cinema Comentado do dia 19 de março de 2011

SOBRE VOZES: Ensaio sobre o filme Vozes (2009) de Anna Costa e Silva, Fabio Canetti e Luiza Santoloni. Texto escrito para ser apresentado  no Cinema Comentado promovido pelo CEPP no dia 19 de Março de 2011 e reformulado a partir dos comentários e discussões do próprio evento.

Humberto Moacir de Oliveira[1]

Ora (direis), ouvir vozes? Certo perdeste o senso, poderíamos dizer. Mas qual é o senso? Qual o sentido? Ao assistir o filme Vozes (2009), de Anna Costa e Silva, Fabio Canetti e Luiza Santoloni, a pergunta que me salta, fazendo coro ao discurso de Lacan, é: por que vozes? Percebemos logo que o filme nos apresenta exatamente esse objeto tão presente nos chamados fenômenos elementares da psicose. Digo um objeto, e não qualquer barulho, porque assim o próprio Lacan percebeu a voz e percebeu também a dimensão desse fenômeno que em psicopatologia chamamos alucinação verbal. Não digo alucinação auditiva. Não, o que se ouve não são quaisquer barulhos, embora esse fenômeno também possa acontecer como aconteceu com Schereber que escutava, além de vozes, sons de pássaros. Mas, o que está em destaque no filme é o escutar de vozes. Por que não outros barulhos? Porque esse fenômeno marca tanto o campo da loucura a ponto de uma estagiária de psicologia, mais preocupada em fazer um diagnóstico do que uma escuta, perguntar a um usuário da Associação Loucos por você: O senhor escuta vozes quando está sozinho? Ao que o senhor responde: Vozes, quais vozes, a da Cristina? referindo-se a uma terapeuta ocupacional da casa.

Tentemos uma resposta partindo das hipóteses levantadas por Freud no caso Schereber e dos avanços lacanianos, principalmente a partir do Seminário 3. Se seguirmos o raciocínio freudiano, poderíamos nos perguntar: quem não ouve vozes? Pois Freud, durante toda a sua obra, chamará a atenção para a existência de um lugar na mente que se comunica com outro através de algo que algumas vezes chamamos, não por acaso, a voz da consciência. Voz, porque assim escutamos esses pensamentos, assim escutamos nossos próprios pensamentos, no formato de vozes. Embora talvez não seja exatamente e exclusivamente da consciência que se trate. Também Freud irá levantar a hipótese de que nos sonhos, embora eles sejam mais visuais do que auditivos, as vozes que escutamos são palavras que possivelmente tínhamos escutado quando acordados. Mas no caso da psicose, e, principalmente, no caso do filme assistido, não se trata de um sonhador, nem tampouco de uma voz que o sujeito identifica como uma voz interior. Em uma cena específica do filme, uma voz nos diz: “Vozes, eu escuto 24h, não há como escapar. Nunca pára de comunicação (sic) dentro da cabeça”

No que ficou conhecido como “O Caso Schereber”, Freud coloca em estudo as memórias de um juiz de direito que relata em determinada noite ter escutado ou pensado, não se sabe ao certo (ou os dois, por que não?), a seguinte frase: “Afinal de contas, deve ser realmente muito bom ser mulher e submeter-se ao ato da cópula”. Freud adverte que tratava-se de uma idéia que o próprio sujeito teria rejeitado com a maior indignação, se estivesse plenamente consciente. Esse pensamento, ou essa voz, retorna tempo depois e aparece como uma voz externa. Para Freud, trata-se de um mecanismo de projeção, ou seja, o que o sujeito excluiu do seu mundo interno, por parecer estranho ou ofensivo, reapareceu projetado no mundo real. Nas palavras de Lacan, o que foi foracluído (subscrito, invalidado) no simbólico, retorna no real. É o que diz também uma das vozes do filme: “o interno me esmaga”.

É claro que esse fenômeno nos aparece como estranho, e como tudo o que causa estranhamento também nos fascina, a ponto de capturar o olhar dos diretores do filme, e também o nosso, para essa dimensão de “ouvir vozes”. Para Freud, o estranho é, principalmente, o que nos foi familiar um dia e superamos ou recalcamos, o que o próprio autor diz ser de difícil distinção. É claro que ouvir vozes, seja do além, seja de antepassados, seja a nossa própria voz, remonta algo da nossa história infantil e do nosso modo de pensar primitivo. Quantas crianças não devem ter acreditado que seus pensamentos poderiam ser ouvidos? E quantas não superaram essa crença apenas pela crença substitutiva de que Deus, mas ainda assim um ser, poderia escutar seus pensamentos, suas vozes internas? Isso talvez explique, ainda que apressada e superficialmente, o estranhamento e o fascínio que o ouvir vozes nos provoca e que não deixa de ser um dos efeitos do filme.

O filme explora exatamente essa condição assustadora e fascinante de nos remeter à posição do, digamos, “escutator de vozes”. O filme extrai de suas próprias gravações, suas próprias pesquisas, esse objeto que é a voz de seus personagens principais. Aliás, é a voz que, de fato, se torna a protagonista do filme. Essas vozes são desvinculadas de suas imagens originais e agora postas em evidência com mais força talvez do que se mantivessem a relação inicial. A imagem dos autores das vozes é preservada, é escondida, camuflada, e no lugar dela aparecem novas imagens, que curiosamente compõem a cena quase como uma trilha sonora completa o visual em um filme que tem como protagonista a imagem. Os diretores invertem os ingredientes da receita do cinema e colocam em primeiro plano a voz, nos lançando à estranha sensação de escutar vozes. Estranha não só porque faz parte do campo da loucura, mas porque, seguindo a hipótese freudiana, nós mesmos já confundimos em época primitiva, ou em sonhos, nossos registros mnêmicos com vivências externas.

Mas se isso lança luz sobre um dos efeitos do filme, ainda estamos longe de responder a pergunta principal aqui lançada: por que o privilégio de vozes? Talvez a explicação freudiana de que a psicose projeta para o mundo externo o que lhe é desprazeroso no mundo interno, somado à teoria que Lacan extrai do próprio Freud de que o inconsciente funciona como uma linguagem, possa nos ajudar. Afinal, se o que é expulso do mundo interno retorna, e o inconsciente é o que há de mais primitivo no nosso mundo interno, é natural que esse retorno apareça sob uma das formas da linguagem, estrutura do inconsciente. Portanto, na alucinação verbal, como lembra Quinet (2009), é a cadeia significante que se impõe ao sujeito em sua dimensão de voz. O importante aqui, é que a alucinação do psicótico não é redutível aos órgãos do sentido, às orelhas ou aos ouvidos, mas ao verbo.

É também por isso que em seu Seminário destinado às psicoses, encontraremos Lacan dizendo que a neurose é o sacrifício, a escotomização da realidade psíquica (LACAN, 2008, p.58); ou então, que o sujeito normal é aquele que não leva a sério seu discurso interior (LACAN, 2008, p.247). O psicótico leva a sério o seu discurso interior e, mais importante, ele não sacrifica, não escotomiza sua realidade psíquica, ou a faz parcialmente. A realidade psíquica sacrificada, realidade que por sua própria condição só pode ser simbólica, pois não se equivale ao real exterior, faz-se ouvir no neurótico pela forma simbólica. Mas no psicótico, essa realidade psíquica não sacrificada, ou sacrificada parcialmente, faz-se ouvir no real. O sujeito ouve vozes da sua realidade e isso o distingue do que Lacan chama de o sujeito normal. Normal é aquele que cala algo do seu discurso interior, o psicótico deixa falar, ou é falado por esse algo.

Para Lacan, não se trata de acreditar ou não nas vozes como os psicopatólogos poderão fazer crer. Não se trata sequer de realidade, esse não é o problema. Pelo contrário, Lacan considera fácil conseguir que um sujeito psicótico reconheça que só ele tenha ouvido as vozes. Lacan chama isso de confissão: “sim, está bem, foi só eu que o ouvi” (Lacan, 2008, p.93). Mas a questão não é essa, não se trata de realidade, mas de certeza. Tem-se certeza de que se ouviu alguma coisa, pouco importa a realidade. O que deveria ser sacrificado no simbólico o é somente parcialmente, pois retorna no mundo exterior, seja ou não realidade, mas retorna como uma certeza. Essa também é a lógica que constitui o fenômeno elementar mais desenvolvido na psicose segundo Lacan: a crença delirante.

Eis então, mais uma vez, o fascínio das vozes. Pois é justamente o que é sacrificado na vida neurótica que aparece nas vozes da psicose. O neurótico se assusta, mas também se encanta diante desse discurso sacrificado por ele. O que assusta nesse discurso é o que faz a sociedade, em uníssono com uma parte da psiquiatria, buscar calar essas vozes. Cala-se essas vozes através de remédios, mas também através de manifestações do tipo, “isso é fala do louco, não deve ter importância”. Novamente lembro-me de uma estagiária da Associação Loucos por Você, que ao fazer uma visita a um usuário ficou sabendo, por ele mesmo, que um deputado federal conversou com ele à tarde. Ela traz essa fala na supervisão e eu digo que o deputado deve ser o senhor Paulo Delgado que esteve na Associação nesse mesmo dia. Ela se espanta e diz que não pensou que isso fosse verdade. Tirar o crédito do louco, considerando toda sua fala uma ficção que nada tem a ver com a realidade, é uma das formas também de calar o discurso que atravessa o psicótico e tanto nos assusta e nos encanta.

Aqui sou levado a introduzir um elemento novo ao meu texto que apareceu a partir do “Cinema Comentado” a respeito do filme discutido. No evento realizado pelo CEPP tivemos o prazer de receber o documentarista regional Sávio Tarso que levou sua contribuição do ponto de vista da estética, mas que como toda estética esbarra em questões éticas de profunda pertinência para a Psicanálise e para a Psicologia em geral. Sávio destaca a beleza do filme do ponto de vista de quem entende desse tipo de estética e dentre as diversas contribuições que nos trouxe afirma que um dos pontos fortes do documentário foi justamente explorar a voz desses sujeitos, mais do que suas falas corriqueiras. Para Sávio, um documentário ou uma pauta jornalística pode recorrer a duas expressões. Uma fala massificada, onde o sujeito reproduz os ditos da sociedade a seu respeito e uma voz que diz respeito do que há de mais interior, mais original e único nesse sujeito. Aqui nos esbarramos, como na ocasião observou Virgínia Souto Maior Sanábio com a mesma distinção que Lacan faz entre a fala vazia e a fala plena. Ao documentarista, nos diz Sávio, interessa a fala plena, a voz original e única do sujeito. Nesse ponto o documentarista partilha da mesma busca do psicanalista. Também ao psicanalista não interessa calar essas vozes que aparecem na clínica, vozes que protegem e escondem o sujeito. Pelo contrário, a perspectiva psicanalítica desde as primeiras descobertas de Freud é justamente de fazer o sujeito aparecer, com todo risco e angústia que isso pode trazer. Novamente recorrendo às observações de Virgínia, lembramos que Lacan situa a voz como um dos objetos que ele vai chamar de objeto a. Essa dimensão de objeto que Lacan empresta a voz faz com que destaquemos nela a presença da estética, mas também do horror e da angústia que um objeto pode nos lançar. Enfim, a principal impressão que me ficou da discussão foi exatamente que a fala vazia serve ao propósito de apagar, aniquilar o sujeito, enquanto o que Sávio chamou de voz, a fala plena, faz aparecer o que de mais intrínseco habita esse sujeito. Daí, mais uma vez, a recomendação de Lacan de que devemos fazer o que a psiquiatria nunca se permitiu, levar a sério o discurso do alienado, servir de testemunho do delírio, fazer o secretariado do louco.

Se há horror e angústia nessas vozes, também há algo que nos encanta, nos captura. E talvez seja exatamente o que levou os diretores do referido filme a fazer essas vozes falarem mais. E escutarem essas vozes. Impossível não lembrar de Estamira, filme documentário de Marcos Prado e José Padilha , que traz à tela a vida de uma catadora de lixo que se situa nesse ponto do discurso. Que ponto é esse? O ponto em que o sujeito não habita a linguagem, mas é habitado por ela. Estamira não parece falar, parece ser falada pelo discurso do Outro, um Outro que ela situa no “além dos além”, mas que não precisa ser outro que não o discurso do próprio inconsciente. Quem se deixa tocar pela voz de Estamira ou pelos vários discursos que aparecem no filme Vozes não deixa de admirar o sentido que fazem certas falas vindas de pessoas que a sociedade afirma que só dizem coisas sem sentido. Como vimos no filme, são dois sentidos que apontam para a cabeça do psicótico como facas cortantes. É a realidade apresentada pelo pequeno outro, seu semelhante, e a certeza das vozes apresentada pelo grande Outro do inconsciente, pois também no inconsciente nunca se trata de realidade, mas de certeza.

O filme nos apresenta, além do áudio de um discurso que se destaca mais pelo atravessamento das vozes do que pela construção harmônica e textual delas, uma diversidade de imagens que também prestam-se ao trabalho significante. Uma atriz se apresenta em uma banheira solitária num quarto. A nudez, explorada de forma poética, metaforiza a própria nudez do real com que àquele que escuta vozes se depara o tempo todo. Em um determinado momento do filme diversos atores amarram essa mesma personagem com fitas coloridas justamente quando uma voz fala da opressão da sociedade, da prisão em que ela vive e do tanto que isso a sufoca. Em outro momento, um grupo de personagens indistintos, fantasiados, começam a imprimir na pela branca da personagem uma variedade de tintas que além da beleza estética trazem à tona nossa condição de moldados, pintados pelas mãos dos outros. Mas outra voz também nos conta que de vez em quando pode sentir a verdadeira textura da vida. O que pode ser isso? O real, a realidade sem suas tintas? Quem sabe?

Mas talvez a imagem que mais me marcou foram as formadas pelas cenas em que um grupo de pessoas fantasiados dos pés à cabeça realizam uma dança que lembra um carnaval libertino onde tudo é possível. Talvez seja desse lugar que as vozes falam, e talvez seja um lugar desse que o neurótico sacrifica em sua realidade psíquica. Aqui também vale a pena lembrar a voz acelerada que pergunta: “Quem aceita sua própria realidade? Até que ponto o que eu vivo só existe pra mim? O que é real?” Quem poderá responder a essas perguntas? O normal, que como Lacan diz, cala sua voz interior, ou a própria voz da loucura que fala lá onde o neurótico se cala?

O filme termina com outra imagem que me tocou bem fortemente e com a qual gostaria de encerrar esse texto: a mulher imersa na banheira levanta a cabeça e sai de um mergulho que parece a tirar de um afogamento. Lembrei-me da experiência de afundar a cabeça na água, nesse momento é o mundo externo que se silencia e somos obrigados a escutar nós mesmos. Não podemos dizer que nos escutamos de verdade, vimos que escotomizamos uma parte dessa voz interior, mas de toda forma, as vozes da loucura podem muito bem representar um mergulho dentro de cada um de nós. Resta saber se os efeitos desse mergulho nos atormentarão ainda mais ou se podem nos lançar, não sem antes nos causar um mal estar, em uma loucura menos alienante.


[1] Mestre em psicologia pela UFMG, Professor da Faculdade Pitágoras de Ipatinga e membro do CEPP.

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