O declínio do pai e os novos arranjos familiares: o que é a família? – Seminário 30/06

06 Homer-simpson-with-doughnutComo previsto, o próximo encontro do Seminário “Moral sexual Civilizada no século XXI” será neste sábado, dia 30/06. Abordaremos na ocasião o tema “O declínio do pai e os novos arranjos familiares: o que é a família?”
A proposta é trabalharmos as possibilidades de construção de um conceito psicanalítico de família para pensá-lo na contemporaneidade e suas relações com a sexualidade, tema principal do seminário. Para tanto, usaremos o texto “Assuntos de família no inconsciente”, de Jacques-Allain Miller,  e o artigo “Novos sintomas e declínio da função paterna: um exame crítico da questão”, escrito por um grupo de autores de São João Del-Rey. Ainda sobre o tema da família, recomendo aos mais interessados, o livro “A família em desordem”, de Elizabeth Roudinesco, publicado pela editora Jorge Zahar.
No vemos dia 30/05, às 10h.
Abraços
Beto Oliveira

Sobre o gozo feminino

Para enriquecer nosso debate sobre o feminino, peço aos participantes do Seminário sobre “A moral sexual civilizada no século XXI” para acessarem as obras da artista Mariel Clayton que faz uma releitura interessante do feminino através da boneca Barbie.

As obras me foram apresentadas pela psicanalista Loren Costa e estão disponíveis no link: http://www.facebook.com/pages/the-photography-MARIEL-CLAYTON/19626416014

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A mulher e seus lugares: o gozo feminino na contemporaneidade – Seminário 09/05

Após trabalharmos o corpo, a moral, a identidade e a escolha objetal é hora de falarmos do feminino. Que lugar o feminino ocupou na cultura e na psicanálise? Sabemos que para Simone de Beauvoir, ninguém nasce mulher, torna-se mulher. Para Lacan, “A mulher” não existe, por isso precisa ser contada uma a uma, nunca em uma generalização. Mas com os avanços das discussões do século XX, quando podemos falar de generalização? Não vimos que a própria sexualidade carece sempre de ser inventada? E como nossa sociedade lida hoje com os novos arranjos do feminino? Para Miller, para quem o mundo vive atualmente um momento de feminização, toda cultura pode ser pensada como maneiras de conter o “gozo feminino”. Mas o que a psicanálise chama de gozo feminino e como ele se relaciona com a cultura contemporânea?
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Eis algumas perguntas que sustentarão o tema do próximo encontro do Seminário “Moral Sexual Civilizada no século XXI”: “A mulher e seus lugares: o gozo feminino na contemporaneidade”.
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Para o debate usaremos o texto de Lacan “Diretrizes para um Congresso sobre a sexualidade feminina” (presente em seu livro Escritos) e o texto de nossa colega Maria Célia Saraiva Martins Lanna, “A mulher e o feminino: um gozo não-todo regido pela lógica fálica” (inédito).

Também será interessante a leitura do texto de Maria Rita Kehl, “A mínima diferença”, já anexado no blog do CEPP.

Nos vemos no sábado dia 09 de maio às 10h na sede do CEPP.

Att.

Beto Oliveira

Coordenador do CEPP

Maria Rita Kehl: A mínima diferença

Compartilho aqui o link do ótimo texto de Maria Rita Kehl, escrito em 1992, mas que serve bem ao nosso seminário sobre a sexualidade no século XXI e para tantas questões de nosso tempo. O texto está disponível no blog da Editora Boitempo e o acesso é gratuito. Para acessar, basta clicar no link embaixo da foto:

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http://blogdaboitempo.com.br/2015/03/02/maria-rita-kehl-a-minima-diferenca/

Orientação e escolha sexual: qualquer objeto não é um objeto qualquer – Seminário 25/04

No último encontro começamos a abordar a questão da identidade de gênero na contemporaneidade. Vimos que a contemporaneidade demanda da psicanálise algumas revisões em busca de encontrar novas respostas para o problema da sexualidade e que não podemos recuar diante dos novos desafios.
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Neste sábado, dia 25 de abril, abordaremos o tema: “Orientação e escolha objetal: qualquer objeto não é um objeto qualquer“.
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Apesar das vagas estarem esgotadas, divulgo aqui o filme que usaremos como suporte para nosso debate a fim de que outros colegas, mesmo que não participem presencialmente do evento, possam acompanhar nossa discussão que culminará em uma Jornada sobre a “Moral Sexual Civilizada no Século XXI” – prevista para o segundo semestre de 2015.
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Solicitamos que os participantes assistam ao filme “Hoje eu quero voltar sozinho”, de Daniel Ribeiro, para fazermos não apenas um debate sobre a construção das escolhas objetais como também uma recuperação dos temas abordados até agora: “corpo utópico”, “moral sexual civilizada” e “identidade de gênero”. Penso que o filme é ótimo para discutir tudo isto, já que aborda um adolescente em plena construção de sua sexualidade, construção essa feita às cegas, como na verdade, sempre fazemos. Não exibiremos o filme no dia do encontro, por isso os participantes devem assistir ao filme em casa.
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Para enriquecer ainda mais o debate sugiro a leitura do capítulo “Back in Bahia”, do livro “Verdade Tropical”, do Caetano Veloso.
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Bom filme, boas leituras e bom trabalho a todos.
Nos vemos sábado, dia 25, às 10h na sede do CEPP.
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Abraços
Beto Oliveira
Coordenador do CEPP
 

Artigo “Redesenhando o menino: o real, o imaginário e o simbólico em Clarice Lispector”

claricePublicado na revista “Psicanálise e Barroco em revista” (UNIRIO) artigo de Humberto Oliveira (coordenador do CEPP) a partir do conto da escritora Clarice Lispector: “Menino a bico de pena”.

O conto foi tema de abertura do seminário “O (que) saber da criança no século XXI?”, realizado no CEPP no primeiro semestre de 2014. Agradecemos muito aos participantes do seminário (colegas, alunos e parceiros) pelas trocas que ampliaram a leitura do texto ajudando-nos a pensarmos o processo de subjetivação da criança segundo a teoria do psicanalista francês Jacques Lacan.

Aproveitamos aqui as palavras do Editorial da revista que resume de forma interessante o trabalho:

“O artigo “Redesenhando o menino: o real, o imaginário e o simbólico em Clarice Lispector”, de Humberto Moacir de Oliveira, discute o processo de subjetivação em suas vertentes real, simbólica e imaginária a partir do conto “Menino a bico de pena”, da escritora e jornalista Clarice Lispector. Os registros sugeridos por Lacan para pensarmos o sujeito (real, simbólico e imaginário) serão destacados e analisados a partir de três elementos fundamentais do conto: o menino, o retrato de O Menino e a mãe. A análise do conto encontra-se impregnada pela arte da escritora que revela sutilmente os sacrifícios e as possibilidades envolvidas na passagem de uma pura existência ao que ela chama de vida”.

Aos interessados, o artigo “Redesenhando o menino: o real, o imaginário e o simbólico em Clarice Lispector” está disponível em versão eletrônica da revista “Psicanálise e Barroco em revista”, Volume XII, n. 01: http://www.psicanaliseebarroco.pro.br/revista/revistas/24/PeBRev24_09_Oliveira.pdf

Macho ou Fêmea: a questão do gênero na contemporaneidade – Seminário 11/04 (VAGAS ESGOTADAS)

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Após estudarmos nos dois primeiros encontros como o corpo se estrutura como uma Utopia e como a sexualidade se orienta por uma moral que varia de cultura para cultura ou mesmo dentro da mesma cultura, avançaremos com nosso Seminário abordando o tema: “Macho ou Fêmea: a questão do gênero na contemporaneidade”.
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Apesar das vagas estarem esgotadas, divulgo aqui o texto que usaremos como ponto de partida e algumas outras coordenadas do nosso debate para que os colegas, mesmo os que não participam presencialmente do evento, possam acompanhar nossa discussão que culminará em uma Jornada sobre a “Moral Sexual Civilizada no Século XXI” – prevista para o segundo semestre de 2015.
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Portanto, divulgo aos interessados o link do texto “Sexualidades: fronteiras, limites, limiares”, escrito por Jô Gondar e publicado na última revista “Cadernos de Psicanálise: http://www.cprj.com.br/imagenscadernos/caderno31_pdf/Sexualidades_fronteiras_limites_limiares.pdf
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O texto de Jô Gondar servirá de base para discussão, mas também é objetivo do encontro debater, a partir do texto, alguns aspectos polêmicos sobre a questão do gênero que vêm ganhando a mídia, como o caso do menino Romeo, que ficou famoso em vários lugares do mundo – e no Brasil esteve nas pautas das redes sociais a partir de uma publicação da Revista “Nova Escola”, da editora Abril:http://revistaescola.abril.com.br/formacao/educacao-sexual-precisamos-falar-romeo-834861.shtml
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Também é atual e forte as ideias de Judith Butler e Beatriz Preciado, principalmente o que esta última tem chamado de “Manifesto Contrassexual” (http://www.revistaforum.com.br/blog/2015/02/manifesto-contrassexual-de-beatriz-preciado-e-lancado-brasil/). Quem puder se informar a respeito desses temas, com certeza irá contribuir com o debate anual do CEPP.
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O próximo encontro do Seminário acontecerá dia 11 de abril, às 10h.
Att.
Beto Oliveira
Obs: Imagem retirada do clip Tous Les Mêmes, de Stromae: https://vimeo.com/82376442

O CORPO UTÓPICO: Seminário 07/03

foucault08Resumo: Nesta conferência de Michel Foucault – que acaba de ser publicada em espanhol – o corpo é, em primeiro lugar, “o contrário de uma utopia”, lugar “absoluto”, “desapiedado”, com o qual a utopia da alma se confronta. Mas, finalmente, o corpo, “visível e invisível”, “penetrável e opaco”, é “o ator principal de toda utopia” e cala apenas diante do espelho, do cadáver ou do amor. A conferência “O corpo utópico”, de 1966, integra o livro El cuerpo utópico. Las heterotopías, cuja versão espanhola acaba de ser publicada (Ed. Nueva Vision). Esta versão está publicada no jornal argentino Página/12, 29-10-2010. A tradução é do Cepat.

Texto retirado do site: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/38572-o-corpo-utopico-texto-inedito-de-michel-foucault

Basta eu acordar, que não posso escapar deste lugar que Proust[1], docemente, ansiosamente, ocupa uma vez mais em cada despertar. Não que me prenda ao lugar – porque depois de tudo eu posso não apenas mexer, andar por aí, mas posso movimentá-lo, removê-lo, mudá-lo de lugar –, mas somente por isso: não posso me deslocar sem ele. Não posso deixá-lo onde está para ir a outro lugar. Posso ir até o fim do mundo, posso me esconder, de manhã, debaixo das cobertas, encolher o máximo possível, posso deixar-me queimar ao sol na praia, mas o corpo sempre estará onde eu estou. Ele está aqui, irreparavelmente, nunca em outro lugar. Meu corpo é o contrário de uma utopia, é o que nunca está sob outro céu, é o lugar absoluto, o pequeno fragmento de espaço com o qual, em sentido estrito, eu me corporizo.

Meu corpo, topia desapiedada. E se, por ventura, eu vivesse com ele em uma espécie de familiaridade gastada, como com uma sombra, como com essas coisas de todos os dias que finalmente deixei de ver e que a vida passou para segundo plano, como essas chaminés, esses telhados que se amontoam cada tarde diante da minha janela? Mas, todas as manhãs, a mesma ferida; sob os meus olhos se desenha a inevitável imagem que o espelho impõe: rosto magro, costas curvadas, olhos míopes, careca, nada lindo, na verdade. Meu corpo é uma jaula desagradável, na qual terei que me mostrar e passear. É através de suas grades que eu vou falar, olhar, ser visto. Meu corpo é o lugar irremediável a que estou condenado.

Depois de tudo, creio que é contra ele e como que para apagá-lo, que nasceram todas as utopias. A que se devem o prestígio da utopia, da beleza, da maravilha da utopia? A utopia é um lugar fora de todos os lugares, mas é um lugar onde terei um corpo sem corpo, um corpo que será belo, límpido, transparente, luminoso, veloz, colossal em sua potência, infinito em sua duração, desligado, invisível, protegido, sempre transfigurado; e é bem possível que a utopia primeira, aquela que é a mais inextirpável no coração dos homens, seja precisamente a utopia de um corpo incorpóreo. O país das fadas, dos duendes, dos gênios, dos magos, e bem, é o país onde os corpos se transportam à velocidade da luz, onde as feridas se curam imediatamente, onde caímos de uma montanha sem nos machucar, onde se é visível quando se quer e invisível quando se deseja. Se há um país mágico é realmente para que nele eu seja um príncipe encantado e todos os lindos peraltas se tornem peludos e feios como ursos.

Mas há ainda outra utopia dedicada a desfazer os corpos. Essa utopia é o país dos mortos, são as grandes cidades utópicas deixadas pela civilização egípcia. Mas, o que são as múmias? São a utopia do corpo negado e transfigurado. As múmias são o grande corpo utópico que persiste através do tempo. Há as pinturas e esculturas dos túmulos; as estátuas, que, desde a Idade Média, prolongam uma juventude que não terá fim. Atualmente, existem esses simples cubos de mármore, corpos geometrizados pela pedra, figuras regulares e brancas sobre o grande quadro negro dos cemitérios. E nessa cidade de utopia dos mortos, eis aqui que meu corpo se torna sólido como uma coisa, eterno como um deus.

Mas, talvez, a mais obstinada, a mais poderosa dessas utopias através das quais apagamos a triste topologia do corpo nos seja administrada pelo grande mito da alma, fornecido desde o fundo da história ocidental. A alma funciona maravilhosamente dentro do meu corpo. Nele se aloja, evidentemente, mas sabe escapar dele: escapa para ver as coisas, através das janelas dos meus olhos, escapa para sonhar quando durmo, para sobreviver quando morro. A minha alma é bela, pura, branca. E se meu corpo barroso – em todo o caso não muito limpo – vem a se sujar, é certo que haverá uma virtude, um poder, mil gestos sagrados que a restabelecerão em sua pureza primeira. A minha alma durará muito tempo, e mais que muito tempo, quando o meu velho corpo apodrecer. Viva a minha alma! É o meu corpo luminoso, purificado, virtuoso, ágil, móvel, tíbio, fresco; é o meu corpo liso, castrado, arredondado como uma bolha de sabão.

E eis que o meu corpo, pela virtude de todas essas utopias, desapareceu. Desapareceu como a chama de uma vela que alguém sopra. A alma, as tumbas, os gênios e as fadas se apropriaram pela força dele, o fizeram desaparecer em um piscar de olhos, sopraram sobre seu peso, sobre sua feiúra, e me restituíram um corpo fulgurante e perpétuo.

Mas meu corpo, para dizer a verdade, não se deixa submeter com tanta facilidade. Depois de tudo, ele mesmo tem seus recursos próprios e fantásticos. Também ele possui lugares sem-lugar e lugares mais profundos, mais obstinados ainda que a alma, que a tumba, que o encanto dos magos. Tem suas bodegas e seus celeiros, seus lugares obscuros e praias luminosas. Minha cabeça, por exemplo, é uma estranha caverna aberta ao mundo exterior através de duas janelas, de duas aberturas – estou seguro disso, posto que as vejo no espelho. E, além disso, posso fechar um e outro separadamente. E, no entanto, não há mais que uma só dessas aberturas, porque diante de mim não vejo mais que uma única paisagem, contínua, sem tabiques nem cortes. E nessa cabeça, como acontecem as coisas? E, se as coisas entram na minha cabeça – e disso estou muito seguro, de que as coisas entram na minha cabeça quando olho, porque o sol, quando é muito forte e me deslumbra, vai a desgarrar até o fundo do meu cérebro –, e, no entanto, essas coisas ficam fora dela, posto que as vejo diante de mim e, para alcançá-las, devo me adiantar.

Corpo incompreensível, penetrável e opaco, aberto e fechado: corpo utópico. Corpo absolutamente visível – porque sei muito bem o que é ser visto por alguém de alto a baixo, sei o que é ser espiado por trás, vigiado por cima do ombro, surpreendido quando menos espero, sei o que é estar nu. Entretanto, esse mesmo corpo é também tomado por uma certa invisibilidade da qual jamais posso separá-lo. A minha nuca, por exemplo, posso tocá-la, mas jamais vê-la; as costas, que posso ver apenas no espelho; e o que é esse ombro, cujos movimentos e posições conheço com precisão, mas que jamais poderei ver sem retorcer-me espantosamente. O corpo, fantasma que não aparece senão na miragem de um espelho e, mesmo assim, de maneira fragmentada. Necessito realmente dos gênios e das fadas, e da morte e da alma, para ser ao mesmo tempo indissociavelmente visível e invisível? E, além disso, esse corpo é ligeiro, transparente, imponderável; não é uma coisa: anda, mexe, vive, deseja, se deixa atravessar sem resistências por todas as minhas intenções. Sim. Mas até o dia em que fico doente, sinto dor de estômago e febre. Até o dia em que estala no fundo da minha boca a dor de dentes. Então, então deixo de ser ligeiro, imponderável, etc.: me torno coisa, arquitetura fantástica e arruinada.

Não, realmente, não se necessita de magia, não se necessita de uma alma nem de uma morte para que eu seja ao mesmo tempo opaco e transparente, visível e invisível, vida e coisa. Para que eu seja utopia, basta que seja um corpo. Todas essas utopias pelas quais esquivava o meu corpo, simplesmente tinham seu modelo e seu ponto primeiro de aplicação, tinham seu lugar de origem em meu corpo. Estava muito equivocado há pouco ao dizer que as utopias estavam voltadas contra o corpo e destinadas a apagá-lo: elas nasceram do próprio corpo e depois, talvez, se voltarão contra ele.

Uma coisa, entretanto, é certa: o corpo humano é o ator principal de todas as utopias. Depois de tudo, uma das utopias mais velhas que os homens contaram a si mesmos, não é o sonho de corpos imensos, sem medidas, que devorariam o espaço e dominariam o mundo? É a velha utopia dos gigantes, que se encontra no coração de tantas lendas, na Europa, na África, na Oceania, na Ásia. Essa velha lenda que durante tanto tempo alimentou a imaginação ocidental, de Prometeu a Gulliver.

O corpo é também um grande ator utópico quando se pensa nas máscaras, na maquiagem e na tatuagem. Usar máscaras, maquiar-se, tatuar-se, não é exatamente, como se poderia imaginar, adquirir outro corpo, simplesmente um pouco mais belo, melhor decorado, mais facilmente reconhecível. Tatuar-se, maquiar-se, usar máscaras, é, sem dúvida, algo muito diferente; é fazer entrar o corpo em comunicação com poderes secretos e forças invisíveis. A máscara, o sinal tatuado, o enfeite colocado no corpo é toda uma linguagem: uma linguagem enigmática, cifrada, secreta, sagrada, que se deposita sobre esse mesmo corpo, chamando sobre ele a força de um deus, o poder surdo do sagrado ou a vivacidade do desejo. A máscara, a tatuagem, o enfeite coloca o corpo em outro espaço, o fazem entrar em um lugar que não tem lugar diretamente no mundo, fazem desse corpo um fragmento de um espaço imaginário, que entra em comunicação com o universo das divindades ou com o universo do outro. Alguém será possuído pelos deuses ou pela pessoa que acaba de seduzir. Em todo o caso, a máscara, a tatuagem, o enfeite são operações pelas quais o corpo é arrancado do seu espaço próprio e projetado a outro espaço.

Escutem, por exemplo, este conto japonês e a maneira como um tatuador faz passar a um universo que não é o nosso o corpo da jovem que ele deseja:

“O sol lançava seus raios sobre o rio e incendiava o quarto das sete esteiras. Seus raios refletidos sobre a superfície da água formavam um desenho de ondas douradas sobre o papel dos biombos e sobre o rosto da jovem em sono profundo. Seikichi, depois de ter corrido os tabiques, tomou entre as suas mãos suas ferramentas de tatuagem. Durante alguns instantes permaneceu imerso numa espécie de êxtase. Precisamente agora saboreava plenamente a estranha beleza da jovem. Parecia-lhe que podia permanecer sentado diante desse rosto imóvel durante dezenas ou centenas de anos sem jamais experimentar nem cansaço nem aborrecimento. Assim como o povo de Mênfis embelezava outrora a terra magnífica do Egito de pirâmides e de esfinges, assim Seikichi, com todo o seu amor, quis embelezar com seu desenho a pele fresca da jovem. Aplicou-lhe de imediato a ponta de seus pincéis de cor segurando-os entre o polegar, e os dedos anular e pequeno da mão esquerda, e à medida que as linhas eram desenhadas, picava-as com sua agulha que segurava na mão direita”.

E quando se pensa que as vestimentas sagradas ou profanas, religiosas ou civis fazem o indivíduo entrar no espaço fechado do religioso ou na rede invisível da sociedade, então se vê que tudo quanto toca o corpo – desenhos, cores, diademas, tiaras, vestimentas, uniformes – faz alcançar seu pleno desenvolvimento, sob uma forma sensível e abigarrada, as utopias seladas no corpo.

Mas, se fosse preciso descer mais uma vez abaixo das vestimentas, se fosse preciso alcançar a própria carne, e então se veria que em alguns casos, em seu ponto limite, é o próprio corpo que volta contra si seu poder utópico e faz entrar todo o espaço do religioso e do sagrado, todo o espaço do outro mundo, todo o espaço do contra-mundo, no interior mesmo do espaço que lhe está reservado. Então, o corpo, em sua materialidade, em sua carne, seria como o produto de suas próprias fantasias. Depois de tudo, acaso o corpo de um dançarino não é justamente um corpo dilatado segundo todo um espaço que lhe é interior e exterior ao mesmo tempo? E também os drogados, e os possuídos; os possuídos, cujo corpo se torna um inferno; os estigmatizados, cujo corpo se torna sofrimento, redenção e salvação, paraíso sangrante.

Bobagem dizer, portanto, como fiz no início, que meu corpo nunca está em outro lugar, que era um aqui irremediável e que se opunha a toda utopia.

Meu corpo, de fato, está sempre em outro lugar. Está ligado a todos os outros lugares do mundo, e, para dizer a verdade, está num outro lugar que é o além do mundo. É em referência ao corpo que as coisas estão dispostas, é em relação ao corpo que existe uma esquerda e uma direita, um atrás e um na frente, um próximo e um distante. O corpo está no centro do mundo, ali onde os caminhos e os espaços se cruzam, o corpo não está em nenhuma parte: o coração do mundo é esse pequeno núcleo utópico a partir do qual sonho, falo, me expresso, imagino, percebo as coisas em seu lugar e também as nego pelo poder indefinido das utopias que imagino. O meu corpo é como a Cidade de Deus, não tem lugar, mas é de lá que se irradiam todos os lugares possíveis, reais ou utópicos.

Depois de tudo, as crianças demoram muito tempo para descobrir que têm um corpo. Durante meses, durante mais de um ano, não têm mais que um corpo disperso, membros, cavidades, orifícios, e tudo isto não se organiza, tudo isto não se corporiza literalmente, senão na imagem do espelho. De uma maneira mais estranha ainda, os gregos de Homero não tinham uma palavra para designar a unidade do corpo. Por mais paradoxal que possa parecer, diante de Tróia, sob os muros defendidos por Hector e seus companheiros, não havia corpo, havia braços levantados, havia peitos valorosos, pernas ágeis, cascos brilhantes acima das cabeças: não havia um corpo. A palavra grega que significa corpo só aparece em Homero para designar o cadáver. É esse cadáver, por conseguinte, é o cadáver e é o espelho que nos ensinam (enfim, que ensinaram os gregos e que ensinam agora as crianças) que temos um corpo, que esse corpo tem uma forma, que essa forma tem um contorno, que nesse contorno há uma espessura, um peso, numa palavra, que o corpo ocupa um lugar. O espelho e o cadáver assinalam um espaço à experiência profunda e originariamente utópica do corpo; o espelho e o cadáver fazem calar e apaziguam e fecham sobre um fecho – que agora está para nós selado – essa grande raiva utópica que deteriora e volatiliza a cada instante o nosso corpo. É graças a eles, ao espelho e ao cadáver, que o nosso corpo não é pura e simples utopia. Ora, se se pensa que a imagem do espelho está alojada para nós em um espaço inacessível, e que jamais poderemos estar ali onde estará o nosso cadáver, se pensamos que o espelho e o cadáver estão eles mesmos em um invencível outro lugar, então se descobre que só utopias podem encerrar-se sobre elas mesmas e ocultar um instante a utopia profunda e soberana de nosso corpo.

Talvez seria preciso dizer também que fazer o amor é sentir seu corpo se fechar sobre si, é finalmente existir fora de toda utopia, com toda a sua densidade, entre as mãos do outro. Sob os dedos do outro que te percorrem, todas as partes invisíveis do teu corpo se põem a existir, contra os lábios do outro os teus se tornam sensíveis, diante de seus olhos semi-abertos teu rosto adquire uma certeza, há um olhar finalmente par ver tuas pálpebras fechadas. Também o amor, assim como o espelho e como a morte, acalma a utopia do teu corpo, a cala, a acalma, a fecha como numa caixa, a fecha e a sela. É por isso que é um parente tão próximo da ilusão do espelho e da ameaça da morte; e se, apesar dessas duas figuras perigosas que o rodeiam, se gosta tanto de fazer o amor é porque, no amor, o corpo está aqui.

[1] A recuperação do corpo no processo do acordar é um tema recorrente na obra de Marcel Proust – Nota da Redação

NUCLEO DE INVESTIGAÇÃO EM PSICANÁLISE E SAÚDE MENTAL

Caros colegas,está aproximando o dia do encontro do núcleo de psicanálise.Coloquem na agenda este compromisso. O encontro será dia 033 às 20h na sede do CEPP. Mais informações com Margareth Mendes:  (31) 3824-6068 e Cássia Túlio:  (31) 3848-1260.

Segue abaixo a  programação deste semestre.

CEPP Nucleo 2015

Seminário 2a Tópica Freudiana

Seminário da 2a tópica Freudiana começa dia 07 de março. Para mais informações clicar na imagem abaixo:

 

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