SEXUALIDADE e INCONSCIENTE: COMPILAÇÃO E COMENTÁRIOS (Aula 2)

*Compilação produzida pelo Prof. Amancio Borges das aulas ministradas pelo Prof. Dr. Guilherme Massara, na disciplina “Sexualidade e Inconsciente”, do curso de Doutoramente em Psicologia pela FAFICH\UFMG,  no primeiro semestre de 2015.

Segunda Aula: 13 de Março de 2015

Se, para Laplanche, existe uma sexualização da ou na pulsão de morte, para Lacan, toda pulsão é, preliminarmente, pulsão de morte.

Alenka Zupančič (2008) compreende que distorções subjetivas não são distorções de alguma coisa que é objetivamente outra, são distorções no lugar de alguma coisa que não é. Se uma estrutura deve ter-se como estável, certa hiância da estrutura[1], não como déficit, defeito ou sintoma imediatamente decorrentes, mas como propriedade de indeterminação produtiva, deveria ter lugar, pois pode conduzir a um ato clínico advertido para o ponto de fuga das classificações. Uma negatividade produtiva, com potencial para localizar a repetição e o real em toda sua importância para o tratamento.

Essa indeterminação, seja de um marco ontológico para a diferença sexual, seja para a definição de estrutura em sentido mais amplo, estrutura subjetiva, pode provocar sintomas, mas não ao modo de um automatismo reflexo, e sim, admitindo a conformação da estrutura a uma forma indispensável, exterior, que realoca o narcisismo.

Podemos supor que a realocação do narcisismo é o que dá sustentação imaginária às formas de subjetivação. Nas escolas contemporâneas, como se apresenta a relação entre forma de viver, forma de sofrer e forma de adoecer?

Estilos de subjetivação incluem formas de viver que não têm a ver, necessariamente, com anormalidade patológica, e sim com variações da normatividade.

Existem formas de vida (DUNKER, 2015), e somente por uma alguma decorrência contingente tais formas de vida chegariam a constituir sofrimento, mal-estar e sintoma. Os sintomas codificados pelos manuais não estão nesse nível de apresentação do mal-estar (forma de conviver), do sofrimento (forma de sofrer) e das formas de viver.

 

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A retração do sujeito no sofrimento já é uma forma de auto-preservação.

Nesse estágio, é comum o apego à ideação mística, a compulsões religiosas, a exortações públicas, protestos vexatórios, taquipsiquismo, aceleração global do psiquismo, sem que isso comporte uma doença em si. ´

Como exemplo, os chamados transtornos de personalidade que se tornam histerias radicais, não estão suficientemente definidos em seu funcionamento pelo código da CID-10 que compartilham[2].

Tais práticas estão ainda confusamente mescladas com adoecimento, mas se integram a formas de vida sem apelo ao Outro, em que a pessoa procura somente o primeiro contato do olhar, a divisão de uma respiração compartilhada pelo medo, a procura de que já não há mais, mas não espera nada mais de seu semelhante.

Nenhuma solução terapêutica, num momento em que o sujeito se dirige para o pior, pode conter a realização libidinal que consiste em contrariar a vida, por uma satisfação a mais.

Parte do inconsciente, regido pela pulsão, é indiferente ao estatuto do sujeito. Há inconsciente, por certo, mas não mais atrelado ao sujeito e a sua vida diária. Se não existe o inconsciente, senão na forma de uma lacuna do entendimento, neste ponto de nosso tempo, onde vivemos, a esperança de entendimento, de um esclarecimento consensual definitivo das causas, já foi deixada à porta muito antes do sujeito entrar no consultório

 

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A sexualidade é intrinsecamente sem sentido ou, com Lacan, fora do sentido, não comporta um horizonte final do sentido produzido pelo homem, ao risco de uma perspectiva teleológica, de uma Cosmovisão (Weltaschaüung).

O que um médico veria nisso? Imprevisibilidade mínima dos efeitos do curso da doença e da cura. Um psicólogo veria uma caixa vazia de amor, técnica mal executada, falta de alguma coisa que preencheria um buraco ou que desentupiria um cano —- a hipótese hidráulica do desejo, mencionada por Simanke como um excesso ou falta a serem “corrigidos”.

Algo mais seria preciso.

Para Freud foi importante recolher, das aberrações sexuais, o germe da sexualidade normal, confundindo a fronteira entre o normal e o patológico, pois era isto que sua clínica mostrava: havia uma diferença pulsional quantitativa a ser determinada, mas não só ela explicava a mutação qualitativa que o sintoma, ou sua decifração, acarretam para o sujeito.

A sexualidade humana é intrinsecamente inadaptadável; e, se somos afetados dessa forma por ela, seria por isso que existe o inconsciente, pretendendo assegurar uma base sensível à estrutura?[3]

A fonte da pulsão são os buracos do corpo, existentes ou factícios. A história da satisfação pulsional de cada sujeito do inconsciente é reconhecível na narrativa daquilo que cada um experimenta com seu corpo. Num primeiro estágio, o espelho é lugar de se ganhar corpo. Passo a passo, o modelo do espelho passa a ser identificado pelo olhar do Outro. Num segundo estágio, o olhar do Outro é colonizado por significantes, que agora decidem, tanto quanto a imagem do outro, a conformação de um eu-corpo[4].

Ainda que uma bissexualidade constitutiva se apresente de início, ela se mantém como definição negativa, como impossibilidade de totalização do campo da experiência. Ela não é inscrita enquanto tal como diferença irredutível, de estrutura.

Isso seria debatível, mas, para Freud, não haveria limite ontológico para a realização da pulsão. Os modos de satisfação da pulsão obedecem a fins transversais à saciação do instinto. A pulsão se desempenha da busca de satisfação por vários meios, mas seu funcionamento em termos de economia libidinal seria relativamente simples: uma força constante, diferentemente do instinto, episódico, que promove uma impressão particular em certos eventos, ainda não, que serão em seguida tratados por um banho de sentido, e  pretensamente capaz de satisfazer a demanda que emerge, a partir do momento em que o Outro, em substituição à mãe, comparece ao chamado da criança.

Temos, então, de um lado, saciação instintual, de outro satisfação libidinal.

Em certo momento, a dificuldade de se imaginar um sujeito para o qual certa negatividade ou indeterminação assumisse o papel de fundamento, faz com supor que a auto-preservação de uma unidade identitária recalca a bissexualidade. Se assim for, quais os efeitos da bissexualidade no inconsciente?

Persiste uma impossibilidade de totalização ou especificação da norma identitária. E todo um regime de identificações individuais é posto em ação nesse momento, como antecipado por Freud no capítulo IV da Psicologia das Massas.

 

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Lacan não predica o sexo, ele predica o gozo. O gozo, e não os sujeitos sexuados. Ele está menos interessado em como se conformam os sujeitos em classificações, do que no modo como eles sempre driblam as classificações em proveito de uma forma de viver que não implica, em momento algum, a forma pela qual o mundo vive ou a forma como os especialistas julgam que eles têm que viver. Talvez por isso que auto-escarificadores, neste momento, mostram as cicatrizes do ato de se cortar como fator de reconhecimento e identificação coletiva, algo a ser assimilável pela cultura como uma forma de vida, em parte como uma forma de sofrer, mas em nenhum aspecto como uma forma de adoecer.

Há uma incontornável passagem pela noção de sintoma, antes de chegarmos a toda a produção contemporânea do campo da psicopatologia.

Lacan predica o gozo entre um gozo fálico e um Outro gozo. Sob o impacto do conceito de gozo, a sexualidade se torna um ponto de referência de negatividade. A coincidência entre a satisfação e o prazer não se mantém na obra de Freud. Trata-se de montagens, arranjos não-totalizantes; potências de indeterminação e, como tal, não necessariamente sintomáticas, se o sintoma for considerado, imediatamente, sofrimento.

Modos de montagem e arranjo são modalidades de aparelhamento do gozo sensível.

A natureza preserva suas leis (como interessa a uma leitura das ciências duras) mas, em algum momento, ela é sensível às leis do significante. A função de auto-conservação se distingue da função de auto-preservação. Preservar serve para a espécie, conservar pode servir apenas a um.

A ciência da libido designa o fato de que toda satisfação determinada (pela necessidade) traz o risco de uma satisfação a mais, não-deteminada, contingente.

Há, de fato, certo paradoxo quando se trata desse real: é o indeterminado, mas retorna sempre ao mesmo lugar… O que lembra a afirmação de a posteriori de Zĭzĕk: em psicanálise, a causa é o que se introduz por seus efeitos.

Na perspectiva de Zupančič (2008), a libido seria entendida como uma satisfação disfuncional, par de uma sexualidade atópica e inessencial: o sexual não existe.

O sexual pode ser visto como um operador inumano: crítica explícita à racionalidade humanista, de seu método hermenêutico como totalidade racional do conhecimento da pulsão.

Foucault, Deleuze, Lyotard, problematizam o inumano.

No plano fonológico, o que se perde na passagem do humano ao inumano, é o “H” de “homem”, H de certa marca de alteridade normativa e complementar entre os sexos. Ney Matogrosso: “sou homem com H, e como sou!”.

O sexual como apropriação de um real sem lei é incongruente com qualquer abstração neutra de propriedades humanas.

Em Lacan, não há um conjunto que defina a mulher a partir de suas propriedades. O Outro sexo está não-todo submetido à ordem fálica. Mas, norma identitária e posição de gozo são termos distintos.  A sexualidade corresponderia a um universal não-totalizável que aponta para a inconsistência do Outro. Há uma espécie de cisão ontológica que, à primeira percepção, indicaria um sujeito irracional; mas não, trata-se na verdade de um sujeito lâmina, ou lamela, como mostra Lacan no Seminário XI. Da libido como energia, em Freud, Lacan parte para o órgão irreal. O laminular remete ao tissular. Até onde a torção necessária a se pensar o inconsciente pode forçar a substância material?

A substância existente perde algo ao entrar em contato com a necessidade da diferenciação sexual.  Um objeto extraído do campo do Outro instaura um Outro barrado [ A – a = A ]. Esse é o Outro para um grande número de pessoas, conhecidas por serem neuróticas das mais variadas formas Nas psicoses, o Outro recebe um tratamento diferenciado.

Na passagem da reprodução ao sexo, o sujeito perde uma parcela de seu ser. O ser do sujeito está no seu objeto —- uma parte do que me é mais próprio e que se encontra fora de mim.

O encontro entre as metades sexuadas engendra um plus.

A solda do gozo, ou da linguagem, fixa os objetos díspares, ou fixa a libido nos objetos. Para Freud, essa solda seria o eu, o Monarca Constitucional de O Eu e o Isso.

O plus do encontro sexuado, tem ou não a ver com o amor? Para Lacan, a própria angústia se torna signo da presença do objeto inconsciente. Em que medida esse desejo permite o recurso a um enamoramento, no caso, ao amor de transferência? Em certo momento, só o amor permite ao gozo condescender ao desejo. Se o desejo não é incompatível com o amor, ao contrário, poderia o gozo igualmente ser tolerante ou, em alguma medida, ainda abordável pela via do amor transferencial? Que recursos seriam precisos para tanto? Já se nota a dificuldade que representa, para o analista, tratar do amor como um conceito operacional

 

Conclusão

A psicoterapia incide sobre o caráter disfuncional da sexualidade, visando corrigi-la.

A sexualidade que concerne à psicanálise não é a sexualidade disfuncional, mas a sexualidade que não existe.

Essa versão do sexo, porém, tem um peso ontológico próprio. Não deve ser concebida como negação, suspensão ou transgressão da lei, mas, essencialmente, como contingência e potencial de encontro com o desejo.

Pode-se chamar esse inexistente objeto por outros nomes, mas sua propriedade central ainda resiste a denominações e permanece como uma indeterminação, um impossível de se representar pela via da palavra.

A indeterminação que funda a falta de uma equidade sexual seria o que constitui a necessidade de uma estrutura, para dar nomes, identificar, reduzir essa indeterminação.

Entre os nomes que doamos a essa indeterminação fundamental, quantos não confluem para as categorias diagnósticas da doença mental?

A época em que o pai determinava o que era um corpo, para um menino, menina, homem, mulher, parece ter se exaurido e, assim, transferido grande importância, não à designação do corpo por um pai, mas à nomeação do pai por meio de um corpo.

 

O que um retorno à histeria poderia causar seria menos danoso do que continuar a empurrar a histeria para o domínio dos transtornos de personalidade. Quando se cai ali, não se sai jamais. E nenhum esclarecimento se tem sobre o modo de funcionamento pulsional desse alguém em particular.

 

Quando Lacan aponta no pai um sintoma como outro qualquer, que conseqüências isso tem para a clínica? Nossa cegueira não permite ver outro princípio orientador; estamos condicionados. Obnubilados, não nos eximimos de considerar que tanto na esquizofrenia como na mania e outros fenômenos, qualquer fronteira entre tipos classes, estruturas subjetivas ou clínicas é contestado. Que confinar a histeria nos transtornos de personalidade, não fornece o modo de funcionamento a partir do qual mudar o comportamento. Nesse nível, estamos ainda na análise funcional do comportamento. Não saímos da lógica intersubjetiva, por mais que esta procure interpor a superação da relação eu-outro.

Nota

A indiferença do criminoso em relação à loucura mudou: atualmente, ele passou a ter interesse nos diagnósticos de saúde mental. Sob restrição de liberdade, o sujeito em conflito com a lei passa a ter volúpia por relatórios de saúde mental. Em certas localidades dos EUA, foragidos da justiça não podem ser retirados de clínicas de internação para drogas, para fins do processo penal. Não apenas o criminoso, mas o mais humilhado dos afastados por doença também se aproxima dos técnicos de saúde mental em busca de laudos; aqueles técnicos, por sua vez, lidam com vácuos na assistência, “buracos” em que vidas se esvaem nas filas, vilas, favelas e presídios. Como  dissemos, o aumento da procura por afastamento médico ou psicológico em casos prevalentes de transtorno de personalidade (CID-10), nos serviços de saúde mental, já se impõe como importante objeto de estudo. O fato é que entre os transtornos de personalidade, nenhum preenche critério de afastamento por doença mental. Em sua maioria, são pessoas colhidas em algum déficit de acolhimento (déficits de reconhecimento social), mas não só dos serviços de saúde, já que, a essa altura de desagregação, vários elos da rede comunitária já haviam faltado. Nossa hipótese é de que esses transtornos, na maioria das vezes, constituem mais desvios de uma norma ou da defesa social, do que patologia mental.

Referências Bibliográficas

DUNKER, Christian. Sintoma, sofrimento, mal-estar. São Paulo: Boitempo, 2015.

FOUCAULT, Michel. O nascimento da clínica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1977.

ZUPANČIČ, Alenka. Sexualidade e ontologia. In: Rev. Estudos Lacanianos. Belo Horizonte (MG). V. 1, n. 2, jul-dez de 2008, pp. 311-326.

[1] “A estrutura, portanto, é real. Em geral, isso se determina pela convergência para uma impossibilidade”. É por isso que é real” (LACAN, J. O Seminário, livor XVI: De um Outro ao outro… Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., [1968-1969] 2008, p. 30).

[2] “A psicanálise de hoje não tem outro recurso senão a histérica que não está na moda: quando a histérica prova que, virada a página, ela continua a escrever no verso, ninguém compreende” (LACAN, Idem, p. 146). Ou seja, a histeria não apenas “subverte” a neuroanatomia, mas também mostra facilidade de adaptação —- complacência somática —- a sintomas de outros.

[3] Tese atribuída a Zupančič (2008).

[4] Se agora nos dedicarmos a considerar a vida mental de um ponto de vista biológico, um ‘instinto’ nos aparecerá como sendo um conceito situado na fronteira entre o mental e o somático, como o representante psíquico dos estímulos que se originam dentro do organismo e alcançam a mente, como uma medida da exigência feita à mente no sentido de trabalhar em conseqüência de sua ligação com o corpo” (FREUD, S. Ariigos sobre metapsicologia – Os instintos e suas vicissitudes (1915). In: ______. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, v. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1974, p. 142.

SEXUALIDADE e INCONSCIENTE: COMPILAÇÃO E COMENTÁRIOS (Aula 1)

*Compilação produzida pelo Prof. Amancio Borges das aulas ministradas pelo Prof. Dr. Guilherme Massara, na disciplina “Sexualidade e Inconsciente”, do curso de Doutoramente em Psicologia pela FAFICH\UFMG,  no primeiro semestre de 2015.

6 de Março

No campo da epistemologia da ciência, interroga-se os fundamentos de uma realidade objetiva, coerente e ordenada. Como pensar a sexualidade a partir desses termos?

A libido freudiana comporta uma oscilação entre um sentido “terminal” —- o pansexualismo, em que tudo do humano se definiria a partir da sexualidade —- e um fora-de-sentido radical.

A consideração das vicissitudes da pulsão revela o valor de uma indeterminação fundamental.

Embora existam cadeias de determinação sexual na formação dos sintomas, a sexualidade humana passa pela via de uma indeterminação, em vários níveis.

Tendemos a crer que existe uma norma sexual, a partir da qual registramos seus desvios.

Nas psicopatias sexuais descritas por Kraft-Ebbing[1], por exemplo, tratava-se de recolher as formas empíricas do desvio da norma, as quais chamou de parafilias. Parafilias  correspondem a práticas sexuais que, mais tarde, Freud  como irá tratar como uma versão do normal.

Nesses casos, algo se fixou de um conteúdo que habitaria em todos nós, provocando, não ainda sintomas, com sofrimento e distonia, mas desvios, versões, perversões de uma norma de conduta socialmente compartilhada.

Versões multiculturais da normatividade permitem descrever a sexualidade como uma arbitrariedade da norma, tese preferencial do feminismo. Mas, igualmente, pode-se entender o Outro sexo pela vertente de uma insuficiência da norma.

O tema do desvio no campo da pulsão nos leva, então, a imaginar acessos alternativos: i) quanto ao objeto (o adulto do sexo oposto); ii) quanto ao alvo (a finalidade reprodutiva ou genitalidade)[2].

Nos Três Ensaios, Freud afirma que, entre a pulsão e seu objeto, não há senão uma solda. Não haveria, portanto, um laço natural, original e obrigatório entre as pulsões e o objeto de escolha.

As chamadas “anomalias” do desenvolvimento psicossexual se reportam à sexualidade infantil, perversa e polimorfa, que, por sua vez, nos remete à constituição bissexual do ser humano.

A espécie humana é aquela que “trai” seu instinto animal, em benefício da fantasia e das pulsões. Como uma espécie pode ser “traída” por seus próprios indivíduos? A trama pulsional prevê um alvo não reprodutivo para a sexualidade.

Portanto: i) fins adaptativos ou filogenéticos são afastados: não há conexão entre sexo e adaptação; ii) se fins adaptativos encontram-se prescritos, cai por terra, também, a finalidade heteronormativa da sexualidade (se o fim não é a reprodução instintiva, mas a satisfação pulsional, qualquer objeto pode servir).

Se assim é, o que ainda subsiste da tendência à reprodução?

O que permanece é a reprodução de um gozo. Seja na tentativa de se defender dele, nesse caso temos o sintoma, possivelmente a sublimação, seja na tentativa de levá-lo a um fim embora com a desaparição do próprio sujeito.

Algumas versões de psicanálise “flertam” com a naturalização da norma. Mas, contrariamente à regularidade quase teleológica que se tentou imprimir à organização psicossexual, na qual as fases se sucedem em direção a uma genitalidade final, o analista trabalha justamente nas “falhas” desse processo.

Estaríamos assistindo —- ou participando —- da falência dos semblantes sexuados? De fato, se o semblante sexuado fálico é mais evidente, o semblante sexuado não-todo não é tão evidente assim. É possível reencontrar os semblantes do feminino em Freud, mas lateralmente, “pelos cantos”. Freud teria antecipado, por meio da expressão “sentimento oceânico”, alguma coisa de um gozo que não seria regulado pelo falo.

Quando nos encontramos diante de fenômenos de indeterminação, atribuir aos sujeitos uma psicose é uma saída tentadora. Mas uma indeterminação se torna, rapidamente, uma atribuição, e em seguida chegamos à codificação; depois da codificação, o diagnóstico; por fim, um protocolo e um tratamento. Isso é o correto, do ponto de vista da aplicação protocolar de uma avaliação; mas preocupar-se somente o correto, não é o bastante. Lembro de uma anedota médica: os residentes seguiram um protocolo e viram todos os pacientes. Satisfeitos, informaram a seu preceptor disso. Ele disse: “Já pra lá, depressa, vocês devem ter matado uns dois ou três”. Se a ousadia de um médico em desafiar o protocolo é possível, em prol da clínica, é porque mesmo o médico reconhece que, no campo dos transtornos mentais, mas também na doenças orgânicas, muito do que constitui ao diagnóstico, ao tratamento, e mesmo à sensação de melhora do paciente, encontra-se turvado por afeto, equivocidade da linguagem, sentimento, impressões necessariamente subjetivas, amor. Pelo inconsciente, inclusive.

Protocolos não têm como tratar do amor. No sentido lato, o amor envolve tudo o que não é assimilável a protocolos. O encontro de um operador do amor no tratamento é uma condição da transferência, mas ele não se encontra em forma de método. Trata-se de um operador que funciona para determinados tipos de clínica, em que o desejo do analista assume o lugar da adoração da figura do mestre. Isso acontece em momentos fortuitos, contingentes, assim como a “doçura” que Lacan depôs no trato com a Bela Açougueira, que lhe permitiu abordar o doente com respeito. Essa doçura é uma das pequenas loucuras de Lacan. Nada tem a ver diretamente com amor, mas sim com respeito. A intenção de tratar é o que lhe faz deformar seu método que não existe, sob certa abordagem. Deformar, sem inalcançar um certo limite da ética da cura.

 

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Seria preciso articular, com Dunker (2015), entre formas de sofrer, formas de adoecer e formas de viver.

Assim, um paciente pergunta: “Doutor, esse bloqueio na minha mente é do remédio ou da doença?”. Digo que provavelmente não é do remédio. Ele completa: “Ah, então não tem problema, porque eu não sofro com a minha doença”.

O que parece abarcar a totalidade do sofrimento mental relacionado à sexualidade, não passa de uma concessão: cada um no seu quadrado. Cada um no seu quadrado, é o tema de um funk em que alguém reclama que estão pisando no seu quadrado, no seu posto sexual.

Eventualmnte defasado, como é normal na indústria da música, cada um no seu quadrado descreve uma impossibilidade da lógica sexual.

Tão equivocado quanto identificar, apressadamente, excedentes de gozo inassimiláveis pelo significante com o Outro gozo das mulheres, seria classificar tais experiências de gozo com formas opacas de satisfação psicótica. Satisfação, descarga ou escoamento seriam formas indeterminadas de identificação, do ponto de vista do sujeito.

 

 

Seriam formas indiferenciadas de identidade pessoal, e de conseqüentes diferentes apresentações da experiência sexual. Dizem respeito a um gozo inarticulado, porém, não necessariamente delirante ou feminino.

O narcisismo é o suplemento libidinal das pulsões de auto-conservação. A organização libidinal é uma montagem, a partir da qual muitos arranjos não-totalizantes da sexualidade podem se dar. Pulsões de auto-conservação são distintas de instintos de auto-conservação, assim como há disjunção entre o orgânico e o psíquico. Mais tarde, como veremos, auto-preservação, cuidado de si, separa-se de auto-conservaçáo, cuidado ta

Num exemplo emprestado de Žižek, uma mulher prepara seu suicídio, mas, quando um monstro gigante invade sua cidade e se aproxima de sua janela, ela corre e se esconde. O instinto que, de certo modo, perturba, põe a pulsão em marcha. Uma morte sonhada não é igual a morte escolhida. Ela deseja morrer, mas, à sua própria maneira. A escolha definiria uma segunda morte que poucos conseguem levar a termo. Por escolha, identificamos um dos termos mais imprecisos em nosso campo, quando se trata de uma escolha inconsciente. Poderíamos dizer que a voz da razão falou mais alto, em alguns casos, mas, em outros, está fora de si. Fora de condições de auto-determinação. No entanto, na anedota, a mulher foge da morte imposta, em direção a uma morte escolhida.

“Saio da vida para entrar na história”—- escreveu Getúlio Vargas. Isso não seria mais possível hoje. Entrar na história, hoje, é uma opção facilmente descartável, pelo ambiente do mercado. O que sobra de penetração na história é recapturado pelo ISIS, ou, pelo menos, alguns dos grupos que, como em outras ocasiões de guerra, fornecem uma identificação muito precisa e letal do que é o outro opositor. Canudos talvez lembre algo no mesmo sentido do que Hegel refere como o transe entre o senhor e o escravo.

A história suporta formas de vida de sempre, mas a capacidade de acessar uma noção de história que equilibre o jogo da pulsão, é outra história.

A histeria subverte a anatomia. Há diferença entre orgânico e somático. No sintoma histérico, o somático submete o orgânico a um plano de desconexão entre a anatomia e o sofrimento. Como lembra Christian Dunker (2015), formas de vida não equivalem, necessariamente, a formas de adoecimento, nem de mal-estar.

Alunos perguntam: somos todos doentes, por entrar numa versão de estrutura psicótica, neurótica ou perversa?

 

 

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Arranjos que supõem totalização do conhecimento sobre o sexo são desmontados pela análise das gambiarras pulsionais, os sinthomas.

Na análise se faz a desmontagem de arranjos pulsionais —- chegando a arranjos não-totalizantes. A queda das identificações ideais, na análise, seria exatamente isso.

A queda das identificações ideais da análise prenuncia a queda do nome do pai como referência simbólica, na civilização? A análise, porém, já trata do pai decaído desde seus primórdios. Alguns acharam que ela promovia a queda do pai, o que foi uma leitura simplória do processo em marcha.

Montagem é um termo utilizado por Georges Bataille em A história do erotismo, O erotismo, A parte maldita.

Nessas condições, o real emerge como potência de indeterminação. Trata-se de conservar o gozo, e não a espécie. Pois, no próprio suplemento libidinal do narcisismo, associado ao contingenciamento das pusões de auto-conservação, já está esboçada a pulsão de morte.

Agora podemos acrescentar mais uma conclusão às anteriores. O desvio não ocorre somente quanto ao objeto (o adulto do sexo oposto) e quanto ao alvo (a finalidade reprodutiva ou genitalidade), mas os arranjos da sexualidade ainda se mostram muito sensíveis ao aparelho do significante —- ao inconsciente —- de modo que a linguagem aparelha o gozo do sensível. Nos termos de Radiofonia, a linguagem entra no real e cria a estrutura, mas não sabemos se é a economia libidinal que elicia toda a cadeia de determinações envolvida. Libido, que aporta uma satisfação a mais, suplementar ou contingente à realização orgânica do ato sexual. Tal forma de autonomia da satisfação libidinal em relação a qualquer outra sugere que a ordem da libido é atópica: não exclui o orgânico, mas a ele não se subordina, em seus sintomas.

Parece que há duas ordens de causalidade concorrendo em paralelo.

O “sexual” não existe como unidade ontológica, menos ainda como objeto sensível. O que existe, concretamente, é o membro, órgão ou superfície que se serve desse condicionante econômico: o corpo tem o dever de expelir regularmente seus excessos de substância, principalmente, daquela substância que não existe como tal, de que se formam as zonas erógenas. A fonte, o tecido excitável em questão, pouco importa, desde que contenha um buraco. É o buraco —- ou o corte —- que delimita condições de transporte de uma superfície a outra, na banda de Moebius e no toro: objetos topológicos em que uma torção no espaço reconfigura as formas originais, podendo levar a superfícies descontínuas que rompem, por um momento, com as três dimensões, ao retratar como bidimensional uma superfície —- topologicamente —- tridimensional. A adoção de um quarto nó, numa segunda tópica lacaniana, equivaleria, então, a essa torção libidinal dos três registros: real, simbólico e imaginário. Seja como for, nessa versão específica de objeto, as condições de transporte de certo fluxo libidinal determinam transformações no espaço de conformação desse objeto mesmo, modificando-o; o que o conceito de transferência nos desafiaria a explicar, em outro momento.

É possível que se registre um desvio da norma que seja uma variante do sofrimento mental, e não uma patologia como aquele sofrimento. —- e o desvio da norma como forma de vida seria então uma das formas como o diagnóstico se apresenta no tecido social e, assim, faz girar toda uma engrenagem de financiamento, seja de pesquisa, seja de produção, seja de desvio. Não existe desvio sem infecção social. Corruptos são vermes, por causa disso.

Este é um tema constante, do debate sobre o delito e a privação de liberdade de jovens infratores depois de experiências em que, de certo modo preciso, não lhe restavamm experiências de sofrimento produtivas.

Casos que oscilam em áreas de atenção do judiciário ou da saúde, e vice-versa, são comuns em serviços de saúde mental. E reconduzem ao tema fundante do desvio da norma sexual e de muitas outras (o que se possa pensar exceto os preconceitos fundamentais), de modo que simplesmente, não por excesso de dados, nem por insuficiência descritiva, menos ainda por correção metodológica, perdemos o sujeito.

Tudo o que concerne a pensar a posição de um sujeito, seja frente ao Outro, ao outro, se terminaria aí.

Do ponto de vista do inconsciente, o sintoma, como tentativa do eu de exercer controle sobre o isso, é uma tentativa de restabelecimento, porém, esse controle não alcança influenciar o imperativo do supereu. Há limites para o eu, assim como para a consciência dos cuidados de si —- objetivo das curas, terapias e outras formas de atenção que surgiram com o século XVIII, como registrado por Foucault, também foram, desta maneira, delimitadas. Delimitar o cuidado do outro como função socialmente reconhecida parece ter o cuidado de si como predecessor.

O desvio das pulsões seria um desvio constitutivo. A sexualidade humana é o desvio —- paradoxal —- de uma norma que não existe. O desvio é a norma[3].

 

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Referências Bibliográficas

DUNKER, Christian. Sintoma, sofrimento, mal-estar. São Paulo: Boitempo, 2015.

FOUCAULT, Michel. O nascimento da clínica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1977.

MASSARA, G. Sexualidade e inconsciente. Aulas do doutoramento de Psicanálise da UFMG.  Etc…

ZUPANČIČ, Alenka. Sexualidade e ontologia. In: Rev. Estudos Lacanianos. Belo Horizonte (MG). V. 1, n. 2, jul-dez de 2008, pp. 311-326.

[1] Psychopathia Sexualis. Stuttgart: Verlag von Ferdinand Enke, 1886. Em seu tratado, Krafft-Ebing dispõe os desvios sexuais em quatro  categorias: i) o paradoxo: desvio experimentado em etapas de vida equivocadas, isto é, na infância ou na velhice; ii) a anestesia, ou falta de desejo sexual; iii) a hiperestesia, ou excesso de desejo; e iv) a parestesia: desejo sexual sobre um objeto errôneo, na homossexualidade, no fetichismo, no masoquismo, etc.

[2] Quanto à fonte da pulsão, observamos que qualquer superfície do corpo, por meio de uma manobra topológica, pode se tornar um buraco apto ao gozo.

[3] Em solidariedade a esta tese, lembramos o momento em que Christian Dunker examina de que modo a estratégia de apreensão dos fenômenos psíquicos pela psicanálise se afasta do raciocínio médico ou psicoterapêutico, que pressupõem um estado inicial de saudável harmonia, interrompido pela eclosão de um adoecimento, para a ele retornar com o tratamento e a cura.. Para Freud, ao contrário, “Apenas depois de estudar o patológico se aprende a compreender o normal”. Aqui, o próprio sentido do patológico e do normal se alteram. Não mais se trata do inconsciente como um sucedâneo do patológico, mas de um “inconsciente ordinário” a ser apreendido por meio de uma abordagem em que “o desvio é o próprio critério do método” (DUNKER, 2015, p. 43).

Seminário: “O sentido dos sintomas” – com Humberto Oliveira

Atenção pessoal, em Março o CEPP retoma suas atividades. Nesse primeiro semestre ofereceremos um seminário sobre a lógica do sintoma em Freud e Lacan. Não deixem de participar e nos ajudem a divulgar! Para inscrever entrem em contato com Beto Oliveira (no facebook ou no email indicado no folder).

Seminario CEPP 2016 1

Núcleo de Investigação em Psicanálise e Saúde Mental (NIPS 1º sem 2016)

Núcleo de Investigação em Psicanálise e Saúde Mental

Local: Sede do CEPP às 20h ( vídeo conferência )

Interessados procurar Maria Margareth Mendes – Tel: 38246068

Coordenadora : Fernanda Otoni

Coordenação Adjunta: Henri Kaufmanner

A partir da precariedade simbólica de nossos tempos e a profusão de objetos imaginários, abandonadas as referências parentais, como podem se virar os adolescentes, para que seus corpos encontrem uma nova inscrição no Outro? Que Outro seria esse em jogo na Saúde Mental?

 27 de fevereiro: Apresentação de Paciente em Uberlândia. ( Atividade adiada de 2015) – Henri Kaufmanner

15 de março: Seminário: Os Adolescentes e a inexistência do Outro: Repensando um lugar para a Saúde Mental – Henri Kaufmanner

12 de abril:   Conversação Clínica: Relato de Caso por Montes Claros – Debatedora: Helenice de Castro

17 de maio: Seminário: Adolescentes, seus corpos e linguagens. What’s up? – Fernanda Otoni

14 de junho: Atividade conjunta com o Núcleo de Psicanálise e Direito –                             Conversação sobre a Entrevista de Orientação Psicanalítica com adolescente do CATU – Coordenação: Fernanda Otoni

02 de julho: Apresentação de Paciente em Montes Claros – Henri Kaufmanner

Pós-Graduação Clinica Psicanalítica na Contemporaneidade do Unileste

Caros colegas,

É com muito prazer que informo sobre a abertura da campanha 1º / 2016 para o Curso de Pós-Graduação Clinica Psicanalítica na Contemporaneidade do Unileste.

As inscrições estão abertas; mais informações no site http://www.unilestemg.br/posgraduacao,  ou na Secretaria de Cursos de Graduação e Pós -Graduação – Tels. – 0800 283 7944 – (31) 3846 – 5677.

Gostaria muito de continuar contando com a participação de vocês no Curso que esperamos iniciar no  primeiro semestre de 2016. As expectativas para formar nova turma são boas.

À medida que as informações sobre o Curso forem chegando, repasso à vocês.

Abraço,

Patrícia Guedes

As primeiras sessões com Sara, a colaborativa – uma adolescente a procura de suas asas

Publicado n12270313_831259036986651_716895845_na Revista Brasileira de Psicanálise (FEBRAPSI), volume 49, n.3, 2015, artigo escrito por Humberto Oliveira, coordenador do CEPP, sobre o tratamento psicanalítico na adolescência a partir de três casos clínicos. A Revista ainda não disponibilizou o Volume 49 na internet, mas ele já encontra a disposição para vendas no próprio site da revista e conta com artigos interessantes.

 

Segue link do sumário: http://rbp.org.br/revistas/#collapse8

Para adquirir um exemplar acesse: http://rbp.org.br/assinatura-e-vendas/

A família e a moral sexual

Texto da psicanalista doutorando em Psicologia pela UFMG Virginia Sanábio Souto Maior para a VI Jornada de Psicanálise

Em 1908 Freud discute o aspecto duplo da moral sexual imposta dentro do casamento. As restrições feitas às mulheres eram mais severas, pois elas só podiam ter relação sexual dentro do casamento monogâmico. Freud aponta para as consequências danosas, isto é, para o surgimento das doenças nervosas atribuídas aos sacrifícios exigidos por esta moral. Freud defende a tese de que as doenças nervosas são desencadeadas devido à repressão da vida sexual imposta pela civilização.

E distingue três estágios da civilização:

Um primeiro em que a pulsão sexual pode manifestar-se livremente sem que sejam consideradas as metas de reprodução; um segundo em que tudo da pulsão sexual é suprimido, exceto quando serve ao objetivo da reprodução; e um terceiro no qual só a reprodução legítima é admitida como meta sexual. A esse terceiro estágio corresponde a moral sexual “civilizada” da atualidade (FREUD, 1969, p. 194).

Com a descrição destes três estágios verifica-se que as exigências de civilização proíbem toda atividade sexual descrita como pervertida, ao mesmo tempo em que concedem ampla liberdade às relações sexuais chamadas normais, isto é, que estão associadas à reprodução e ao casamento.

Mas, seria possível a educação sexual? Qual será a consequência da manutenção da abstinência sexual até o casamento? Freud dirá que a consequência da abstinência é a produção da neurose. Em relação às mulheres, ele diz:

o resultado é que, quando a jovem recebe a súbita autorização de seus guardiões para apaixonar-se, não esta apta a essa realização psíquica, e chega ao matrimônio insegura dos seus sentimentos. Em consequência dessa retardação artificial de suas funções eróticas, ela nada tem a oferecer além de desapontamentos ao homem que poupou todos os seus desejos a ela (FREUD, 1969, p. 202).

A restrição da vida erótica traz consequências inevitáveis e indesejadas no casamento, tais como a impotência e a frigidez. O casamento que deveria ser o momento da realização das pulsões sexuais, desperta as doenças nervosas.

Freud, então, indaga: “a nossa moral sexual “civilizada” vale o sacrifício que nos impõe”? E cabe-nos indagar, na virada do século XX para o sec. XXI – quais são os ideais civilizatórios que regulam o gozo? Eles existem? Quais são?

Um novo sistema de parentesco

Na virada do século é pertinente levantar uma questão: na atualidade, o sistema de parentesco encontra-se transformado? Se sim, em que medida mudanças no nível dos costumes intervém na estrutura subjetiva?

Para iniciar este debate apresento o fragmento de uma reportagem publicada na Revista Vida e Estilo, online – Casal de transgêneros dá à luz um filho em Porto Alegre.

Helena Freitas, 26 anos, e Anderson Cunha, 21, se conheceram durante uma festa no inverno de 2013. Entre sorrisos e olhares, o jovem tomou a iniciativa e resolveu pagar uma bebida para a morena vaidosa de cabelos longos. Depois de uma madrugada de conversa, trocaram telefones. Após vários encontros, a relação, que no início parecia amizade, evoluiu.

Os dois começaram a namorar no Natal do mesmo ano. Em 2014, o casal resolveu morar junto. A estudante estava com o curso de Letras na Faculdade Porto-Alegrense (Fapa) trancado no terceiro semestre, e o rapaz era atendente em uma lanchonete. A rotina ia bem, até que um pequeno deslize mudou o destino dos jovens. Após muito nervosismo, suspeita e um teste de farmácia, veio a certeza: Anderson estava grávido.

Acontece que Anderson nasceu Andressa e, aos 15 anos, assumiu uma identidade masculina. Helena, por sua vez, nasceu homem. Depois de ter diversas relações homossexuais e se travestir, assumiu a identidade transgênero aos 19 anos.

– Eu sempre quis ter filho. Mas nunca imaginei que seria fruto de uma relação própria. Quando começamos a namorar, vi que essa possibilidade era viável – recorda Helena.

Esta nova forma de organização familiar tem sido muito debatida no meio psicanalítico e Miguel Bassols questiona, “quantos sexos podem ser contados neste novo século? Parece estarmos vivendo em uma era dos fins de dois sexos e o princípio de sua multiplicação ao infinito” (BASSOLS, 2014, s/p).

A psicanalista Silvia Ons (2013) comenta que o conceito de gênero surgiu na ciência médica para explicar os casos de intersexualidade e das ambiguidades sexuais e teve impacto nas ciências sociais para explicar a construção cultural da diferença sexual.

Para a filósofa Judith Butler, sexo e gênero são construções culturais “fantasmáticas” que demarcam e definem o corpo. “O gênero não é um substantivo, mas demonstra ser performativo, quer dizer, constituinte da identidade que pretende ser” (BUTLER apud SALIH, 2013, p. 72).

A ideia de performatividade de Butler não significa liberdade, ou seja, que o sujeito seja livre para escolher que gênero ela ou ele vai escolher para encenar. “Teremos de nos livrar da noção de “liberdade de escolha”: uma vez que estamos vivendo dentro da lei ou no interior de uma dada cultura, não há possibilidade de nossa escolha ser inteiramente livre” (BUTLER apud SALIH 2013, p. 72). Ao contrário disso é provável que a escolha de nossas “roupas metafóricas” seja ajustada às expectativas de nossa origem social. Mas, como o gênero é subversivo a essas expectativas é possível a ele alterar as roupas metafóricas que lhe são designadas de modo convencional – “rasgando-as ou pregando-lhes lantejoulas ou vestindo-as viradas ou do avesso” (BUTLER apud SALIH 2013, p. 73).

Com as mutações ilimitadas de gênero modifica-se também a estrutura de parentesco. Em algumas uniões há que se perguntar: quem será o pai, quem será a mãe?

Em A família Lacan sustenta a tese de que “as relações de parentesco no interior da família, com toda sua complexidade, se realizam a partir do casamento, casamento que não se apoia nos laços sanguíneos, mas nos laços significantes” (LACAN apud FLEISCHER, 1999, p. 270).

Afirma Marie-Hèléne Brousse que, “em seu último ensino, Lacan constrói uma teoria pós-edípica do inconsciente. Separa o modo de gozo do sujeito e do Outro” (BROUSSE, 2006, p.140). E usa o termo parentalidade para a nova ordem familiar. Com a parentalidade inscreve-se uma semelhança ou uma equivalência no lugar da diferença entre o pai e a mãe.

A parentalidade implica que o pai seja substituido pelos pares. Ela se declina, por outro lado, com a noção de coparentalidade ou de monoparentalidade. A previsão de Lacan da ascenção da segregação é correlata a este apagamento da diferença em vantagem da semelhança: os mesmos com os mesmos (BROUSSE, 2006, p. 144).

Jacques-Alain Miller mostra que ao modificar-se o sistema de parentesco, o que surge é um sintoma. E explica que “para alcançar o significante família é necessário o objeto “criança” (MILLER, 2005, p. 146). Cito Miller,

A modernidade se define pela “ascensão do objeto a”. A criança é um modo eminente deste objeto, e isto há muito tempo. Mas se antes a criança não era tomada pela preocupação devido à descendência e a transmissão do nome, os historiadores tem demonstrado que com a modernidade a relação da criança se modifica e que seu valor não se sustenta mais nestas coordenadas do sistema de parentesco (MILLER apud BROUSSE, 2005, p. 146).

Há, então, na atualidade, um novo modo de realização erótica nos homens e nas mulheres? Estamos diante de uma nova moral sexual?

Conclusão

Concluo este trabalho sobre “A família e a moral sexual” com a hipótese de que os ideais civilizatórios contemporâneos não estão sustentados no sacrifício, mas nos ideais de transparência, “devemos mostrar tudo, dizer tudo”. Com essa transparência iremos tocar na base da estrutura de família e abolir os segredos de família. Cito a definição de família proposta por Jacques-Alain Miller, Assuntos de família no inconsciente,

O que define a família? Ela tem origem no casamento? Não, a família tem origem no mal-entendido, no desencontro, na decepção, no abuso sexual ou no crime. Que ela seja formada pelo marido, pela esposa e suas crianças, etc..? Não a família é formada pelo Nome-do-Pai, pelo desejo da mãe e pelo objeto a. Que eles são unidos por laços legais, por direitos, por deveres e etc…? Não, a família é essencialmente unida por um segredo, ela é unida pelo não dito, é sempre um segredo sobre o gozo; de que gozam o pai e a mãe? (MILLER, 2007, s/p).

Referências Bibliográficas

BASSOLS, Miguel. El objeto (a) sexuado. In:______. Tiresias. Publicación de las 13ª jornadas de la Escuela Lacaniana de Psicoanálisis. Madrid: Campo Freudiano, 2014. Disponível em: jornadaselp.com. Acesso em: 13 julho 2014.

BROUSSE, Marie-Hélène. Um neologismo de actualidade: la parentalidade. In:______. Revista Enlaces nº11. Buenos Aires: Grama, 2006. p.139-148.

FLEISCHER, Deborah. As transformações familiares. Texto apresentado em Belo Horizonte: IPSMMG. 1999. p.267-283.

FREUD, Sigmund. Moral sexual civilizada e doença nervosa moderna. In: _______. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1974, volume IX, p. 185-208.

MILLER, Jacques-Alain. Assuntos de família no inconsciente. In: ______. Revista eletrônica do Núcleo Sephora, v.2 n.4, maio a outubro 2007. www.isepol.com/ascephallus/numero 04/traducao 01.htm (acesso em agosto 2015).

ONS, Sílvia. O corpo na hipermodernidade. In: _______. VI Encontro Americano de Psicanálise de Orientação Lacaniana. Buenos Aires: Campo Freudiano, 2013. Disponível em: http://www.enapol.com Acesso em: 01 de agosto de 2014.

SALIH, Sara. O Gênero. In: ______. Judith Butler e a teoria Queer. Belo Horizonte: Autêntica, 2013. p. 63-101.

A Feminização do Mundo

Texto da psicanalista Cássia Túlio para a VI Jornada de Psicanálise

O objetivo deste artigo é conceituar e localizar este acontecimento denominado a “feminização do mundo”, um acontecimento que impactou e desencadeou vários fenômenos sociais, como por exemplo, a violência desmedida, os atos criminosos realizados “porque sim”. Diante de tais mudanças como pensar os efeitos que esta nova lógica tem causado na mulher contemporânea e nas suas parcerias amorosas?

1 Introdução:

O tema “feminização do mundo” foi destacado por Miller em 1997 com o intuito de ler os fenômenos que atravessam a nossa época, além de levantar as consequências clínicas que advêm deste acontecimento.

A época atual, também denominada “globalização” é caracterizada pela queda da função paterna e o declínio do viril, afetando diretamente os grandes referenciais que balizavam o mundo. Se antigamente as escolhas dos sujeitos eram norteadas pelas leis oferecidas pela tradição, pela autoridade ou religião, hoje se observa um desmoronamento daquilo que guiava o homem. Ele se vê sem uma grade de leitura que lhe permita decifrar os acontecimentos do mundo.

Este é um dos temas trabalhados por Miller em seu artigo “O Outro que não existe e seus comitês de Ética”: “o declínio da função paterna foi enunciado por Lacan desde 1938 quando ele constata uma evolução na forma das neuroses desde o tempo de Freud, podendo-se reconhecer a grande neurose contemporânea, designando aí a determinação principal na carência do pai cuja personalidade é ausente, humilhada, dividida ou postiça”.

Ele continua:

“Podemos falar de uma grande neurose contemporânea? Se se pudesse fazê-lo, poder-se-ia dizer que seu determinante principal é a inexistência do Outro – na medida em que ela faz o sujeito sair à caça do mais-de-gozar. O supereu freudiano produziu coisas como o interdito, o dever, até mesmo a culpabilidade. Termos estes que só fazem existir o Outro. São semblantes do Outro. Eles supõem o Outro. O supereu lacaniano produz um imperativo diferente – Gozar. Esse supereu é o supereu de nossa civilização.” (Miller, 1998)

Portanto se na época de Freud o mal-estar era o sintoma que mostrava sua renúncia pulsional – “deves deixar de gozar!”, como mandato paterno da civilização, hoje as coisas mudaram. O imperativo atual da civilização tornou-se o “deves gozar!”.

Ernesto Sinatra, psicanalista argentino em seu livro “@s Nov@s Adit@s”, vem tratar dos efeitos da globalização na subjetividade, percorrendo extensamente a construção teórica deste acontecimento que Jacques-Alain Miller denominou “feminização do mundo”, estabelecendo uma correspondência entre o estado de globalização e o lado feminino das fórmulas da sexuação. Seguiremos a partir daqui os desdobramentos que este autor faz em seu livro citado acima.

A hipótese que Ernesto Sinatra pretende demonstrar é que há uma sequência à qual a civilização alcançou: 1) à queda do pai – se segue 2) o “declínio do viril” – ao que responde – 3) a “feminização do mundo”. Então, ao declínio do pai a primeira consequência seria a desvirilização, e a esta constatação Miller aplicou uma operação lógica: a extração da função da exceção, que era condição necessária para a formação do conjunto. (Sinatra, 2013:27)

Para entendermos esta operação lógica é necessário que façamos uma breve localização das fórmulas da sexuação construídas por Lacan.

2. A sexuação

Sabemos que Lacan formulou a partilha dos sexos não a partir do atributo peniano que dividiria os seres em portadores ou privados de pênis, mas a partir da função fálica. Ele indicou que a sexualidade humana não pode ser reduzida a distribuição dos corpos entre homens e mulheres, a escolha do sexo atravessa o natural, a criatura humana pode situar o seu corpo de um lado ou de outro, para além do seu destino anatômico.

Lacan propõe então uma partilha de gozos: o gozo fálico é masculino e o feminino é o gozo Outro. Trata-se portanto, de duas posições sexuais que localizamos a partir da barra vertical: o lado macho (do Todo) e o lado feminino (ou Não-Todo). (Sinatra, 2013:21)

Do lado masculino da sexuação encontramos a função universal do falo, pois todos os seres deste lado estão inscritos na função fálica. Para que essa proposição universal seja verdadeira, é necessária uma proposição que a negue, ou seja, é necessária uma exceção que confirme a regra. “A exceção não só confirma a regra como a funda, a faz existir ao dar-lhe consistência”. (Sinatra, 2013:27)

Se a regra é a castração simbólica para todos os homens (é o que implica a função fálica), é necessário estruturalmente que exista uma exceção fora do universal da castração, que diga “não” à função fálica. (Quinet, 2012:61)

Esse “pelo-menos-um” fora da função fálica é o que encontramos na figura do pai da horda primitiva de “Totem e Tabu”, que como Pai gozador, proibia o gozo fálico a todos os seus filhos. O mito freudiano veicula que a existência da exceção do pai fundador possibilita o aparecimento do clã, ou seja, o conjunto dos filhos castrados. (Quinet, 2012:62)

Agora podemos entender que a “extração da função da exceção” é o que resta do lado da sexuação masculina se tiramos a parte esquerda superior, ou seja, este “pelo-menos-um”. “Que características têm esse conjunto agora que a autoridade do pai foi retirada, agora que esse pai está em fuga, aquele que até ontem encarnava a função da exceção, do dizer não”? (Sinatra, 2013:29)

Ernesto Sinatra citando Jacques Lacan responde:

“Jacques Lacan fazia referência, já em 1938, à queda da imago paterna para ratificá-la em 1945; inclusive, em 1956, chega a referir-se a “um estilo: o dos homens tipo Hans”, o daqueles que, para aceder ao ato sexual, se caracterizariam por “esperar que as damas lhes baixem as calças”. (Sinatra, 2013:29)

A partir das fórmulas da sexuação pode-se dizer que o mal-estar na época freudiana era um mal-estar que obedecia à lógica que Jacques Lacan atribuiu à posição masculina: o conjunto sustentado no Todo, a partir da culpa e do castigo. Hoje, a leitura que fazemos dos fenômenos da globalização obedece a outra lógica, à lógica do Não-Todo, ou seja, a posição feminina da sexuação.

Deste lado direito da sexuação, o lado feminino, não há o conjunto das mulheres, pois não existe uma exceção para fundar o universal de todas as mulheres. Podemos pensar em uma lógica distinta da lógica do Todo, é a lógica do Não-Todo (“pas-toute”), na medida em que a mulher está “não toda” inscrita na lógica fálica. (Quinet, 2012:63)

“É o Não-Todo, então, o modo lógico de organização que comanda atualmente a subjetividade. Denominá-lo feminização do mundo decorre justamente de ler a risca esta subtração da exceção, encarnada até ontem na autoridade do pai”. (Sinatra, 2013:30)

Ao nos referirmos a esta lógica do Não-Todo, como sinaliza Sinatra, “localizamos uma estrutura particular: não se trata de um todo falhado, mas sim de uma entidade com uma estrutura diferente”. (Sinatra, 2013:34)

Acompanhando a leitura deste autor, ele compara esta posição de pensar a lógica do Não-Todo como um Todo falhado a mesma do menino, e também da menina, quando observam e comprovam a diferença dos sexos: eles não veem ali o sexo feminino, mas a ausência do sexo masculino. É este um momento de máxima angústia, no qual o sujeito infantil lida a partir de seu imaginário fálico, interpretando essa constatação como uma perda.

“Ao corpo feminino não falta ter o pênis, à menina-mulher não “falta” nada: é a leitura fálica no nome do pai que lê a sexuação em termos de falta, castigo e proibição”. (Sinatra, 2013:35)

Portanto, o que se situa do lado do “Não-Todo” é a impossibilidade de fechar o conjunto se estabelecendo não como incompleto, mas como inconsistente. O “Não-Todo” carece do limite que permite a exceção, como não há exceção, não existe a condição necessária para se estabelecer o universal, o todo não se constitui, assim, é preciso considerar cada mulher como única, uma a uma, numa série infinita.

Com efeito, pode-se destacar então que o modo de gozo contemporâneo não está mais determinado a partir da perspectiva do pai e de sua função de proibição, já não mais a partir da negativização do gozo, e sim a partir da sua positivação, “o gozo, o mais de gozar, tragou o Ideal: é a satisfação que rege o estado atual da civilização e não mais o Ideal”. (Sinatra, 2013:34)

Nesta mudança de cenário, ou seja, do universo fechado do pai, no qual as mulheres não encontravam um lugar de pleno direito, ao universo infinito do Não-Todo que leva o seu traço, como elas se localizam? Teriam um lugar mais “confortável”?

3 A “feminização do mundo” e o feminino

Pelo exposto acima já podemos perceber que a “feminização do mundo” não quer dizer atributos femininos, nem tão pouco se reduz a semblantes femininos.

Convém esclarecer ainda que, embora haja uma identificação masculina que dá consistência ao homem, o ser falante é “Não-Todo” e o lado feminino da fórmula da sexuação também lhe concerne.

No entanto, sem dúvida, esta é uma época na qual as mulheres alcançaram grandes conquistas nos mais diversos campos, não estamos mais na época da repressão sexual que era uma das causas do mal-estar e dos sintomas na clínica freudiana.

Porém, de acordo com Miller (1998), estamos na época dos impasses e para a mulher isso pode se apresentar na difícil tarefa de conciliar sucesso profissional, casamento e maternidade, ou os descompassos nas relações amorosas com uma queixa constante das mulheres “liberadas”, independentes, mas solitárias, que perguntam: “onde estão os homens”?

Miller (1998) faz referência a uma dificuldade contemporânea em relação ao amor, e associa a conquista dos direitos da mulher com esta dificuldade, justamente por elas quererem tratar as parcerias amorosas pelo lado masculino. A dificuldade é justamente que desse lado da fórmula da sexuação, o ato de amor é localizado a partir do gozo fálico na medida em que ele é autístico, sem Outro, ou seja, um amor sem amor que prescinde do Outro.

A tentativa de buscar soluções para seu ser de mulher pela via fálica é devido à ilusão de encontrar aí um abrigo, uma identidade. Do lado feminino não havendo delimitação de um conjunto fechado, o todo aqui não se constitui, ou seja, uma vez que as mulheres estão “Não-Todas” inscritas na função fálica, consequentemente, há algo de seu ser de mulher que não é significável. (Bessa, 2012:87)

Transitar pelo lado feminino é partir da constatação que A mulher não existe e, experimentar um gozo que não é civilizado pelo gozo fálico, um gozo mais além do falo que Lacan o define como sendo um gozo suplementar e que por não ter esta regulação a divide e pode converter sua solidão em seu parceiro. (Bessa, 2012:88)

Bom, mas então de que maneira se estabelecerá a relação com o Outro? É aí que Lacan reconhece a função do amor. O amor tem a função de estabelecer a conexão com o Outro, é o amor que faz suplência à relação sexual que não há. (Bessa, 2012:96)

Este é o sentido do apelo que Miller (1998) faz às mulheres:

“Seria necessário que as mulheres despertassem, mas que despertassem da boa maneira, não da mesma maneira que os homens. O que é preciso esperar é que, uma vez atingido um certo nível de igualdade, o movimento feminino utilize um outro canal que não o discurso jurídico. Em suma, minhas senhoras, amem-nos! (Miller, 130:1998)

É instigante pensar então que a saída para os impasses da mulher na contemporaneidade seja o amor. Porém já fomos advertidos por Lacan: “… o que eu digo do amor é certamente que não se pode falar dele”. Porém esta não é uma razão para calarmos, ainda mais porque, como psicanalistas, não cessamos de nos oferecer ao amor.

Referências Bibliográficas:

  1. ANDRÉ, Serge. O que quer uma mulher?. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1987.
  2. BESSA, Graciela de Lima Pereira. Feminino: um conjunto aberto ao infinito. Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2012.
  3. FUENTES, Maria Josefina Sota. As mulheres e seus nomes: Lacan e o Feminino. Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2012.
  4. GUIMARÃES, Leda. “Não se Apaixone”! A máscara da feminilidade contemporânea, Opção Lacaniana, 44. São Paulo: Eolia, 2005.
  5. LACAN, Jacques.O Seminário 20: mais, ainda (1972-1973). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
  6. MILLER, Jacques-Alain. O osso de uma análise, Salvador: Edigraf, 1998.
  7. MILLER, Jacques-Alain. O Outro que não existe e seus comitês de ética. Curinga, Belo Horizonte,n. 12, 1998.
  8. MILLER, Jacques-Alain. Uma fantasia, Opção Lacaniana, 42. São Paulo: Eolia, 2005.
  9. QUINET, Antônio. Os Outros de Lacan,
  10. SINATRA, Ernesto. @s Nov@s adit@s: a implosão do gênero na feminização do mundo. Florianópolis: Cultura e Barbárie, 2013.

Vídeo da VI Jornada de Psicanálise do CEPP – A moral sexual civilizada no século XXI

Disponível vídeo da VI Jornada de Psicanálise do CEPP produzido pela Caverna Audiovisual.

Se você estava presente, relembre alguns momentos, se não pôde ir, veja como foi.

Parabéns a todos do CEPP.

E mais uma vez obrigado Bruno Sanábio pela produção do filme.

Alguns apontamentos sobre o feminino no século XXI sob a ótica da teoria psicanalítica

Texto da psicóloga e psicanalista Marcela Fernanda de Souza para a VI Jornada de Psicanálise

A mulher, desde os primórdios da teoria psicanalítica, e mesmo antes da psicanálise, se; por exemplo consideramos que a mulher está intimamente ligada à noção de pecado original; é símbolo de construção de saber, visto que foram as histéricas que, ao serem escutadas por Freud e, mostrando que o sintoma de que padeciam, se encontrava além daquilo que se via nos corpos, subsidiaram a construção de uma teoria do inconsciente. Nota-se ainda, que, na contemporaneidade, as mulheres, histéricas ou não, obstinadas, permanecem convocando o analista a descobrir o sentido do sofrimento que lhes toma. Por vezes, apresentando o sintoma com roupagem mais sutil que nos tempos de Freud, as mulheres ainda demandam serem escutadas, ainda que no silêncio dos corpos.

Freud marca os anos iniciais da infância como um período crucial na incidência da estrutura psíquica do sujeito, considerando que naquele momento ocorrerá a escolha de objeto. Escolha esta, vinculada à relação triangular de amor estabelecida com as figuras materna e paterna (Freud, 1933 [1932] / 1996). Freud (1931/1996) marcará ainda que a diferença anatômica traz consequências psíquicas discrepantes para meninos e meninas e postula que as peculiaridades femininas tem consequências na formação de caráter e desenvolvimento da feminilidade da mulher.

Mesmo após sugerir que a construção da feminilidade perpassará a lógica intitulada “penisneid”, incorrendo que a mulher freudiana caracteriza-se como aquela que se contenta em dizer “obrigada” aquele que possui o falo e a toma como objeto de desejo (o homem),surgindo o filho como o objeto de satisfação para a mulher, na medida que o bebê incoporará o falo para a mãe; Freud se questionou “O que quer uma mulher?”.

Avançamos após Freud, mas o questionamento do que elas querem ainda surge para o analista. A clínica faz emergir a mulher contemporânea, que por vezes consegue gerir as escolhas em relação ao trabalho, inserida na lógica do capital, mas que padece de algo e faz demanda sobre questões relacionadas ao sexo, à falta, e ao Outro. Demandas que são direcionadas ao analista, seja no âmbito do setting analítico ou nos espaços institucionais de atendimento às demandas contemporâneas em que o psicanalista se faz presente.

Comumente elas surgem às voltas com o imperativo da pulsão, sem nada saber sobre o gozo que lhe invade, na busca de uma interpretação que solucione os impasses do existir. Ora, o que quer a mulher na contemporaneidade, considerando a pluralidade de ofertas de gozo? Ou ainda de quê a mulher sofre?. Tais questionamentos incorrem na contramão do imperativo de felicidade contemporâneo, pois, a mulher vem conquistando um lugar diferenciado no laço social ao longo dos anos. Hoje são detentoras de seus corpos, do saber técnico que as permitem até mesmo equiparação com os homens no mercado de trabalho, e tantos outros ganhos pulverizados no ideal de totalidade. Corpos inflados por suplementos alimentares, ou esqueléticos por comer nada, profissionais bem-sucedidas que procuram o analista para derramar – sim! A análise ganha esse sentido para muitas – suas angústias, seu sofrimento são despejados. Pois bem, de que sofre a mulher?

Suporíamos que a resposta a esta questão seria que a mulher sofre de amor, pois o que ela busca é o amor. Lacan (1972-1973/2008, p.51), sustentará que “O que vem em suplência à relação sexual [considerando que esta não existe, enquanto um encontro que possa ser representado ou escrito], é precisamente o amor”. Se o amor é a cura, em seu sentido de bem-dizer, a mulher contemporânea tem denunciado através de seu sintoma que ainda que “tudo” lhe seja ofertado, a falta se lhe apresenta direcionada ao amor.

Em momento anterior ao propor esclarecimentos sobre a interpelação “O que é ser uma muher?”, Lacan (1955-1956/2008, p.201, 205) aponta que a realização do sexo feminino ocorre de maneira distinta do homem, no Édipo, através da identificação com o que seria o objeto paterno, o que incorre em um desvio suplementar. E em 1973, reitera tal postulação atentando que o gozo feminino é suplementar e não complementar, uma vez que, se o gozo fosse complementar, estaríamos na dimensão do todo. Segue o dito de Lacan:

[…] Não há A mulher, artigo definido para designar o universal. Não há A mulher pois […] por sua essência ela não é toda. Nem por isso deixa de acontecer que se ela está excluída pela natureza das coisas, é justamente pelo fato de que, por ser não-toda, ela tem, em relação ao que designa de gozo a função fálica, um gozo suplementar. Vocês notarão que eu disse suplementar. Se eu tivesse dito complementar, onde é que estaríamos! Recairíamos no todo (1972-1973/2008, p.79).

Lacan nos dirá ainda que decorrente da dissimetria simbólica entre os sexos a posição da mulher constitui-se de maneira problemática, uma vez que ela não possui o falo, incindindo sobre ela a particularidade de ser não-toda no que tange a função fálica, o que significa que lá ela está, mas existe algo a mais (Lacan, 1972-1973/2008). É com esse a mais que a mulher deverá lidar, mas não é possível conceber um modo exato de assim o fazer, pois esse algo a mais é da ordem daquilo que lhe escapa. Ele nos diz:

Há um gozo dela, desse ela que não existe e não significa nada. Há um gozo dela o qual talvez ela mesma não saiba nada a não ser que o experimenta – isto ela sabe. Ela sabe disso, certamente, quando isso acontece. Isso não acontece a elas todas (LACAN, 1972-1973/2008, p.80).

Se o saber implica que haja algo da ordem do desconhecido ao sujeito, a relação com o saber implicará na relação com o gozo, e com o modo como cada uma lidará com esse mais de gozo. O amor entrará nessa dimensão, isto é, ama-se aquele a quem supõe-se saber algo, seja a castração, o amor ou o gozo. Miller (2010) nos dirá que a resposta ao saber pela mulher poderá ocorrer por duas dimensões: ser e ter. Na dimensão de ter incorre a maternidade, sendo que na dimensão do ser implica que a mulher fará semblante – ser o falo, para o homem. Destaca-se ainda que a maternidade poderá transcorrer em patologia feminina, uma vez que se transformando no Outro da demanda – a quem o filho dirige suas inquietudes – a mulher pode se transformar naquela que tem, por excelência. A dimensão do ser poderá ainda implicar em angústia pois trará a dimensão de lidar com aquilo que não se tem, lidar com o nada, o que a coloca na dimensão do semblante. Miller elucida:

A que chamamos semblante? Ao que tem função de velar o nada. Por isso o véu é o primeiro semblante. Como testemunham a história e a antropologia, uma preocupação constante da humanidade consiste em velar, cobrir as mulheres. De certo modo é possível dizer que as mulheres são cobertas porque A mulher não pode ser descoberta. De tal maneira, que é preciso inventá-la. Nesse sentido, chamamos de mulheres esses sujeitos que têm uma relação essencial com o nada. Trata-se de uma expressão prudente, de minha parte, porque todo sujeito, tal como Lacan o define, tem uma relação com o nada. Mas, de certo modo, esses sujeitos que são mulheres têm uma relação mais essencial, mais próxima com o nada (Miller, 2010, p.2).

A contemporaneidade traz como marca a queda dos ideias, dos semblantes; e a oferta incessante de objetos de gozo. Se considerarmos a mulher contemporânea a partir do dito de Miller, pode-se supor que há um enchimento e umtamponamento do nada com os objetos de gozo. Se outrora a mulher foi velada, coberta, vive-se hoje um descobrimento e uma mostração d’Ela. Os corpos que surgem através das roupas micro já não se preocupam em deixar algo a ser desvelado. Há um imperativo que diz: mostre-se! e elas, por vezes atendem a este apelo, pois ser “comportada”, “recatada” não está em consonância com a ordem.

Com a evolução no campo da cultura e do capitalismo surgiram novos modos de tornar-se e fazer-se mulher. A sexualidade feminina tem sido mostrada de maneira diferente, mudaram-se as imagens e os símbolos. Se há alguns anos a mulher seduzia através do velamento do próprio corpo, na contemporaneidade esse corpo é revelado de maneira espetacular.

Soller (2005) nos dirá de uma legitimação do gozo sexual mas chama a atenção para o fato de que isso não ocorre sem que haja conflitos entre as respostas encontradas aos impasses fálicos, o que sugere que a mulher “descolada” não sofre menos que a “recatada”. E a confirmação de tal assertiva se apresenta como apelo na clínica contemporânea, enquanto demanda por uma resposta que faça uma conexão entre o desconhecido estrutural e o imperativo de um saber fluído, intimamente ligado às imagens, que lhe surge. A autora (2005) se atenta ainda para a expressão emblemática do feminino, uma vez que se a mulher apenas “se deixa desejar” sua posição recobrirá a questão do desejo próprio. O que nos indica que tornar-se mulher não incorre em um assujeitamento, ainda que tal posição também faça parte da constituição do sujeito a partir do Outro; mas em um saber lidar com sua marca de ser não-toda. Tarefa árdua na contemporaneidade (mas outrora não foi diferente), mas não impossível. As construções em análise nos dirige para a invenção de um modo de lidar com o próprio gozo, o que subverte o imperativo de felicidade do capital.

Portanto, se são elas diversas, encantadoras e questionadoras no discurso ou através do próprio corpo, por vezes metamorfoseando entre a santa e a puta, são mulheres! Ou por assim dizer, podem se tornar mulher. A mulher, tal como Lacan nos diz, impossível de ser representada, tomada em conjunto,apenas pode ser compreendida uma a uma, através de sua relação com o mais de gozo que lhe toma. Então, torna-se mulher implica que ela possa consentir com sua marca não-toda e experimentar essa particularidade,inventar ummodo próprio de ser mulher. Sendo que, ao psicanalista que escuta as demandas da mulher contemporânea cabe subsidiar o encontro com essa mais, com vistas ao atravessamento dos questionamentos para o saber fazer com o excesso.

REFERÊNCIAS

Freud, Sigmund. Sexualidade Feminina (1931). In: _______. O Futuro de uma Ilusão, o Mal-Estar na Civilização e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 231-251. (Edição standart brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 21).

_________Freud. Novas Conferências Introdutórias sobre a Psicanálise: XXXIII Feminilidade (1933 [1932]). In: _______. Novas Conferências Introdutórias sobre a Psicanálise e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 113-134. (Edição standart brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 22).

Lacan, Jacques. O seminário, livro 3: as psicoses (1955-1956). 2 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

______________Lacan. O seminário, livro 20: mais, ainda (11972-1973). Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

Miller, Jacques-Allain. Mulheres e semblantes II. Opção Lacaniana online. ano1.num. 1. março 2010. Disponível em:< http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_1/Mulheres_e_semblantes_II.pdf&gt;. Acesso em: 31 jul.2015.

SOLER, Colette. O que Lacan dizia das mulheres. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

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