Seminário: A DIREÇÃO DO TRATAMENTO NA PSICANÁLISE

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“Mas você sabe que a pessoa pode encalhar numa palavra e perder anos de vida?” – pergunta Clarice Lispector. “É que as palavras, com essa coisa de se plantarem na nossa vida, nos alimentam e nos matam, são remédio e veneno, e, como os produtos de uma farmácia, são drogas que podem matar ou curar” – responde Affonso Romano de Sant’Anna.

 

 

 

A DIREÇÃO DO TRATAMENTO NA PSICANÁLISE

“Dirige-se o tratamento, não o paciente”. Este dito de Lacan (1958) nos suscita perguntas relacionadas tanto à direção de uma análise (a entrada em análise, as entrevistas preliminares, o diagnóstico diferencial, a posição do analista frente a esta condução) quanto às questões referentes ao percurso e às saídas de análise. São pontos cruciais para nos orientar na condução do tratamento para que este não fique à deriva, desgovernado.

Esta é a proposta deste seminário, trazer para discussão a prática da psicanálise, os fundamentos das “condições de análise” tais como designadas por Freud (1913) em seu artigo “O início do Tratamento”, e que foram tão bem delineadas por Miller (1987) em seu artigo uma “Introdução a um Discurso do Método Analítico”, onde formaliza os princípios da prática psicanalítica.

Um seminário se estabelece a partir de uma pesquisa em curso e não de um saber estabelecido. Em um seminário o que ocorre é a transmissão de uma inquietação que nos coloca a trabalho.

INFORMAÇÕES:

  • Coordenação: Cassia Tulio e Simone Welling
  • Datas e Horário: Sempre aos sábados de 08h às 10h
  • Investimento: Profissionais: três cheques de R$120,00 ou R$350,00 à vista. Estudante: três cheques de R$ 90,00 ou R$250,00 à vista.
  • Certificado: ao menos 75% de frequência no Seminário.

PÚBLICO-ALVO:

  • Profissionais da área da Saúde Mental
  • Estudantes de Psicologia

INSCRIÇÕES:

  • Email: cassiatulio@uol.com.br ou simone@gtcon.com.br
  • Telefones:
    • Falar com Cássia: 3848-1260 ou 98863-1260 (Oi/Whatsapp)
    • Falar com Simone: 98661-1866 (Tim/WhatsApp)

CRONOGRAMA:

1º Encontro – 10/09/2016: A Entrada em Análise

2º Encontro – 24/09/2016: Introdução ao Inconsciente

3º Encontro – 08/10/2016: Retificação Subjetiva

4º Encontro – 22/10/2016: O Diagnóstico Diferencial

5º Encontro – 05/11/2016: A Transferência

6º Encontro – 19/11/2016: Direção do Tratamento na Psicose

7º Encontro – 03/12/2016: Direção do Tratamento na Psicose

ORGANIZAÇÃO:

Centro de Estudo e Pesquisa em Psicanálise  – CEPP

  • Rua Euclides da Cunha, 62 – Cidade Nobre – Ipatinga.

SEMINÁRIO: A DIREÇÃO DO TRATAMENTO NA PSICANÁLISE

Seminário Direção (Simone e Cássia)1

Seminário Direção (Simone e Cássia)2

SEMINÁRIO “AUSTISMOS: UMA DIREÇÃO DE TRATAMENTO”

Zedeon

Artista: Zedeon

Este Seminário tem como objetivo elucidar as questões sobre o autismo na contemporaneidade através da contribuição da psicanálise, com o olhar crítico voltado para a dimensão em que o tema tem alcançado na atualidade. Assim, a proposta do seminário é fazer uma retomada histórica localizando o conceito ao longo da história da psicopatologia infantil e o fazer da clínica psicanalítica.

A clínica psicanalítica com os autistas leva em consideração as soluções singulares escolhidas pelo sujeito para existir, enfatizando seu trabalho sutil de construção.A psicanálise sempre esteve presente no trabalho para com os autistas. Nosso tempo, sustentado pela pressa, tende a aplicar ao tratamento com os autistas os métodos de educação e aprendizagem como meio para sua adaptação ou, adaptá-lo ao meio seria a única saída possível não considerando a subjetividade.

Como linha de raciocínio pretende-se seguir textos do livro: “A batalha do autismo”, Éric Laurent, associando a outros autores, apresentando casos clínicos no decorrer das aulas.  Faremos nesse semestre 07 encontros, aos sábados de 08:00 às 10:00hs na sede do Cepp Rua Euclides da Cunha 62, Cidade Nobre.

CRONOGRAMA:

10/09/2016:  Exibição do documentário: “Outras Vozes”: Ivan Ruiz

  • Debate

24/09/2016: A construção do conceito autismo ao longo da história. Contribuição de Bleuler, Kanner e Asperger. Teses biológicas x teses dinâmicas.

  • A dinâmica perspectiva entre as décadas de 70 e 80 e contribuição da psicanálise.

08/10/2016: Apresentação de casos clínicos: “O caso Dick: Melanie Klein e “O menino lobo”: Robert e Rosine Lefort.

22/10/2016: Autismo na atualidade: Um modo peculiar de fazer a entrada no mundo, a recusa como uma defesa ao excesso do campo da linguagem.

  • A causa do autismo
  • Autismo e real: Balizas para a prática
  • Uma presença insistente: Os espectros do autismo.
  • Os sujeitos autistas, seus objetos e seu corpo.
  • Exemplo clinico: “A imagem e o imaginário: Quando o sujeito é excluído do imaginário materno e permanece sem a ajuda de nenhuma imagem estabelecida”. Susana Faleiro Barroso. Revista eletrônica do IPSM-MG. Almanaque n. 15

15/11/2016 – O trauma da língua

  • Reiteração do Um
  • Fazer calar a balbúrdia da língua
  • Falar, um acontecimento de corpo

19/11/2016: A letra e a prática entre vários

  • Atalhos para aprendizagem singulares
  • Espaços de jogo para a borda e a letra
  • Os registros da letra
  • Os nós do trauma.

3/12/2016: Conclusão: Os lugares do saber.

  • Breve apresentação escrita dos participantes da experiência do seminário e, da prática de cada um.

Coordenação: Marília Moreira e Fabiane Souza: Membros do CEPP.

Público alvo: Estudantes, profissionais da área saúde mental infantil e afins.

Investimento: Profissionais: a vista 350,00 ou 03 cheques de 120,00.  Estudantes: a vista 250,00 ou 03 cheques de 90,00.

Referências Bibliográficas:

  • Barroso, Susana Faleiro. A imagem e o imaginário: Quando o sujeito é excluído do imaginário materno e permanece sem a ajuda de nenhuma imagem estabelecida. Revista eletrônica do IPSM-MG. Almanaque nº 15
  • Laurent, Éric: A Batalha do Autismo: Da Clinica à Política. RJ: Zahar, 2014
  • Machado, Ondina e Drumond, Cristina(ORGS). O Autismo Hoje e o seus mal-entendidos.
  • Murta, Alberto / Calmon, Analícea/ Rosa, Marcia. (ORGS) Autismo(s) e atualidade: Uma leitura Lacaniana.

Dois livros:

  • Jerusalinsky, Julieta. Enquanto o futuro não vem: a psicanálise na clínica interdisciplinar com bebês. Salvador: Álgama, 2002.
  • Jerusalinsky, Alfredo (org.) Dossiê autismo. São Paulo: Instituto Langage, 2015.

Textos para a discussão com a neurociências (teses biológicas):

  • Gonon, François. A psiquiatria biológica: uma bolha especulativa? In: Dossiê autismo. São Paulo: Instituto Langage, 2015. p.198-229.
  • Giacobino, François. Considerações sobre a singularidade de cada autista. In: Dossiê autismo. São Paulo: Instituto Langage, 2015. p.172-177.
  • Jerusalinsky, Diana. Etiologia das alterações do desenvolvimento: algumas hipóteses a partir das neurociências. In: Dossiê autismo. São Paulo: Instituto Langage, 2015. p.178-197.

Sobre a Intervenção Precoce

  • Jerusalinsky, Alfredo. Indicadores de risco: como a psicanálise pode proteger os bebês. In: Dossiê autismo. São Paulo: Instituto Langage, 2015. p.418-435
  • Jerusalinsky, Julieta. Situandonanclínica com bebês. In: Enquanto o futuro não vem: a psicanálise na clínica interdisciplinar com os bebês. Salvador: Álgama, 2002. p. 21-45.

SEXUALIDADE e INCONSCIENTE: COMPILAÇÃO E COMENTÁRIOS (Aula 2)

*Compilação produzida pelo Prof. Amancio Borges das aulas ministradas pelo Prof. Dr. Guilherme Massara, na disciplina “Sexualidade e Inconsciente”, do curso de Doutoramente em Psicologia pela FAFICH\UFMG,  no primeiro semestre de 2015.

Segunda Aula: 13 de Março de 2015

Se, para Laplanche, existe uma sexualização da ou na pulsão de morte, para Lacan, toda pulsão é, preliminarmente, pulsão de morte.

Alenka Zupančič (2008) compreende que distorções subjetivas não são distorções de alguma coisa que é objetivamente outra, são distorções no lugar de alguma coisa que não é. Se uma estrutura deve ter-se como estável, certa hiância da estrutura[1], não como déficit, defeito ou sintoma imediatamente decorrentes, mas como propriedade de indeterminação produtiva, deveria ter lugar, pois pode conduzir a um ato clínico advertido para o ponto de fuga das classificações. Uma negatividade produtiva, com potencial para localizar a repetição e o real em toda sua importância para o tratamento.

Essa indeterminação, seja de um marco ontológico para a diferença sexual, seja para a definição de estrutura em sentido mais amplo, estrutura subjetiva, pode provocar sintomas, mas não ao modo de um automatismo reflexo, e sim, admitindo a conformação da estrutura a uma forma indispensável, exterior, que realoca o narcisismo.

Podemos supor que a realocação do narcisismo é o que dá sustentação imaginária às formas de subjetivação. Nas escolas contemporâneas, como se apresenta a relação entre forma de viver, forma de sofrer e forma de adoecer?

Estilos de subjetivação incluem formas de viver que não têm a ver, necessariamente, com anormalidade patológica, e sim com variações da normatividade.

Existem formas de vida (DUNKER, 2015), e somente por uma alguma decorrência contingente tais formas de vida chegariam a constituir sofrimento, mal-estar e sintoma. Os sintomas codificados pelos manuais não estão nesse nível de apresentação do mal-estar (forma de conviver), do sofrimento (forma de sofrer) e das formas de viver.

 

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A retração do sujeito no sofrimento já é uma forma de auto-preservação.

Nesse estágio, é comum o apego à ideação mística, a compulsões religiosas, a exortações públicas, protestos vexatórios, taquipsiquismo, aceleração global do psiquismo, sem que isso comporte uma doença em si. ´

Como exemplo, os chamados transtornos de personalidade que se tornam histerias radicais, não estão suficientemente definidos em seu funcionamento pelo código da CID-10 que compartilham[2].

Tais práticas estão ainda confusamente mescladas com adoecimento, mas se integram a formas de vida sem apelo ao Outro, em que a pessoa procura somente o primeiro contato do olhar, a divisão de uma respiração compartilhada pelo medo, a procura de que já não há mais, mas não espera nada mais de seu semelhante.

Nenhuma solução terapêutica, num momento em que o sujeito se dirige para o pior, pode conter a realização libidinal que consiste em contrariar a vida, por uma satisfação a mais.

Parte do inconsciente, regido pela pulsão, é indiferente ao estatuto do sujeito. Há inconsciente, por certo, mas não mais atrelado ao sujeito e a sua vida diária. Se não existe o inconsciente, senão na forma de uma lacuna do entendimento, neste ponto de nosso tempo, onde vivemos, a esperança de entendimento, de um esclarecimento consensual definitivo das causas, já foi deixada à porta muito antes do sujeito entrar no consultório

 

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A sexualidade é intrinsecamente sem sentido ou, com Lacan, fora do sentido, não comporta um horizonte final do sentido produzido pelo homem, ao risco de uma perspectiva teleológica, de uma Cosmovisão (Weltaschaüung).

O que um médico veria nisso? Imprevisibilidade mínima dos efeitos do curso da doença e da cura. Um psicólogo veria uma caixa vazia de amor, técnica mal executada, falta de alguma coisa que preencheria um buraco ou que desentupiria um cano —- a hipótese hidráulica do desejo, mencionada por Simanke como um excesso ou falta a serem “corrigidos”.

Algo mais seria preciso.

Para Freud foi importante recolher, das aberrações sexuais, o germe da sexualidade normal, confundindo a fronteira entre o normal e o patológico, pois era isto que sua clínica mostrava: havia uma diferença pulsional quantitativa a ser determinada, mas não só ela explicava a mutação qualitativa que o sintoma, ou sua decifração, acarretam para o sujeito.

A sexualidade humana é intrinsecamente inadaptadável; e, se somos afetados dessa forma por ela, seria por isso que existe o inconsciente, pretendendo assegurar uma base sensível à estrutura?[3]

A fonte da pulsão são os buracos do corpo, existentes ou factícios. A história da satisfação pulsional de cada sujeito do inconsciente é reconhecível na narrativa daquilo que cada um experimenta com seu corpo. Num primeiro estágio, o espelho é lugar de se ganhar corpo. Passo a passo, o modelo do espelho passa a ser identificado pelo olhar do Outro. Num segundo estágio, o olhar do Outro é colonizado por significantes, que agora decidem, tanto quanto a imagem do outro, a conformação de um eu-corpo[4].

Ainda que uma bissexualidade constitutiva se apresente de início, ela se mantém como definição negativa, como impossibilidade de totalização do campo da experiência. Ela não é inscrita enquanto tal como diferença irredutível, de estrutura.

Isso seria debatível, mas, para Freud, não haveria limite ontológico para a realização da pulsão. Os modos de satisfação da pulsão obedecem a fins transversais à saciação do instinto. A pulsão se desempenha da busca de satisfação por vários meios, mas seu funcionamento em termos de economia libidinal seria relativamente simples: uma força constante, diferentemente do instinto, episódico, que promove uma impressão particular em certos eventos, ainda não, que serão em seguida tratados por um banho de sentido, e  pretensamente capaz de satisfazer a demanda que emerge, a partir do momento em que o Outro, em substituição à mãe, comparece ao chamado da criança.

Temos, então, de um lado, saciação instintual, de outro satisfação libidinal.

Em certo momento, a dificuldade de se imaginar um sujeito para o qual certa negatividade ou indeterminação assumisse o papel de fundamento, faz com supor que a auto-preservação de uma unidade identitária recalca a bissexualidade. Se assim for, quais os efeitos da bissexualidade no inconsciente?

Persiste uma impossibilidade de totalização ou especificação da norma identitária. E todo um regime de identificações individuais é posto em ação nesse momento, como antecipado por Freud no capítulo IV da Psicologia das Massas.

 

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Lacan não predica o sexo, ele predica o gozo. O gozo, e não os sujeitos sexuados. Ele está menos interessado em como se conformam os sujeitos em classificações, do que no modo como eles sempre driblam as classificações em proveito de uma forma de viver que não implica, em momento algum, a forma pela qual o mundo vive ou a forma como os especialistas julgam que eles têm que viver. Talvez por isso que auto-escarificadores, neste momento, mostram as cicatrizes do ato de se cortar como fator de reconhecimento e identificação coletiva, algo a ser assimilável pela cultura como uma forma de vida, em parte como uma forma de sofrer, mas em nenhum aspecto como uma forma de adoecer.

Há uma incontornável passagem pela noção de sintoma, antes de chegarmos a toda a produção contemporânea do campo da psicopatologia.

Lacan predica o gozo entre um gozo fálico e um Outro gozo. Sob o impacto do conceito de gozo, a sexualidade se torna um ponto de referência de negatividade. A coincidência entre a satisfação e o prazer não se mantém na obra de Freud. Trata-se de montagens, arranjos não-totalizantes; potências de indeterminação e, como tal, não necessariamente sintomáticas, se o sintoma for considerado, imediatamente, sofrimento.

Modos de montagem e arranjo são modalidades de aparelhamento do gozo sensível.

A natureza preserva suas leis (como interessa a uma leitura das ciências duras) mas, em algum momento, ela é sensível às leis do significante. A função de auto-conservação se distingue da função de auto-preservação. Preservar serve para a espécie, conservar pode servir apenas a um.

A ciência da libido designa o fato de que toda satisfação determinada (pela necessidade) traz o risco de uma satisfação a mais, não-deteminada, contingente.

Há, de fato, certo paradoxo quando se trata desse real: é o indeterminado, mas retorna sempre ao mesmo lugar… O que lembra a afirmação de a posteriori de Zĭzĕk: em psicanálise, a causa é o que se introduz por seus efeitos.

Na perspectiva de Zupančič (2008), a libido seria entendida como uma satisfação disfuncional, par de uma sexualidade atópica e inessencial: o sexual não existe.

O sexual pode ser visto como um operador inumano: crítica explícita à racionalidade humanista, de seu método hermenêutico como totalidade racional do conhecimento da pulsão.

Foucault, Deleuze, Lyotard, problematizam o inumano.

No plano fonológico, o que se perde na passagem do humano ao inumano, é o “H” de “homem”, H de certa marca de alteridade normativa e complementar entre os sexos. Ney Matogrosso: “sou homem com H, e como sou!”.

O sexual como apropriação de um real sem lei é incongruente com qualquer abstração neutra de propriedades humanas.

Em Lacan, não há um conjunto que defina a mulher a partir de suas propriedades. O Outro sexo está não-todo submetido à ordem fálica. Mas, norma identitária e posição de gozo são termos distintos.  A sexualidade corresponderia a um universal não-totalizável que aponta para a inconsistência do Outro. Há uma espécie de cisão ontológica que, à primeira percepção, indicaria um sujeito irracional; mas não, trata-se na verdade de um sujeito lâmina, ou lamela, como mostra Lacan no Seminário XI. Da libido como energia, em Freud, Lacan parte para o órgão irreal. O laminular remete ao tissular. Até onde a torção necessária a se pensar o inconsciente pode forçar a substância material?

A substância existente perde algo ao entrar em contato com a necessidade da diferenciação sexual.  Um objeto extraído do campo do Outro instaura um Outro barrado [ A – a = A ]. Esse é o Outro para um grande número de pessoas, conhecidas por serem neuróticas das mais variadas formas Nas psicoses, o Outro recebe um tratamento diferenciado.

Na passagem da reprodução ao sexo, o sujeito perde uma parcela de seu ser. O ser do sujeito está no seu objeto —- uma parte do que me é mais próprio e que se encontra fora de mim.

O encontro entre as metades sexuadas engendra um plus.

A solda do gozo, ou da linguagem, fixa os objetos díspares, ou fixa a libido nos objetos. Para Freud, essa solda seria o eu, o Monarca Constitucional de O Eu e o Isso.

O plus do encontro sexuado, tem ou não a ver com o amor? Para Lacan, a própria angústia se torna signo da presença do objeto inconsciente. Em que medida esse desejo permite o recurso a um enamoramento, no caso, ao amor de transferência? Em certo momento, só o amor permite ao gozo condescender ao desejo. Se o desejo não é incompatível com o amor, ao contrário, poderia o gozo igualmente ser tolerante ou, em alguma medida, ainda abordável pela via do amor transferencial? Que recursos seriam precisos para tanto? Já se nota a dificuldade que representa, para o analista, tratar do amor como um conceito operacional

 

Conclusão

A psicoterapia incide sobre o caráter disfuncional da sexualidade, visando corrigi-la.

A sexualidade que concerne à psicanálise não é a sexualidade disfuncional, mas a sexualidade que não existe.

Essa versão do sexo, porém, tem um peso ontológico próprio. Não deve ser concebida como negação, suspensão ou transgressão da lei, mas, essencialmente, como contingência e potencial de encontro com o desejo.

Pode-se chamar esse inexistente objeto por outros nomes, mas sua propriedade central ainda resiste a denominações e permanece como uma indeterminação, um impossível de se representar pela via da palavra.

A indeterminação que funda a falta de uma equidade sexual seria o que constitui a necessidade de uma estrutura, para dar nomes, identificar, reduzir essa indeterminação.

Entre os nomes que doamos a essa indeterminação fundamental, quantos não confluem para as categorias diagnósticas da doença mental?

A época em que o pai determinava o que era um corpo, para um menino, menina, homem, mulher, parece ter se exaurido e, assim, transferido grande importância, não à designação do corpo por um pai, mas à nomeação do pai por meio de um corpo.

 

O que um retorno à histeria poderia causar seria menos danoso do que continuar a empurrar a histeria para o domínio dos transtornos de personalidade. Quando se cai ali, não se sai jamais. E nenhum esclarecimento se tem sobre o modo de funcionamento pulsional desse alguém em particular.

 

Quando Lacan aponta no pai um sintoma como outro qualquer, que conseqüências isso tem para a clínica? Nossa cegueira não permite ver outro princípio orientador; estamos condicionados. Obnubilados, não nos eximimos de considerar que tanto na esquizofrenia como na mania e outros fenômenos, qualquer fronteira entre tipos classes, estruturas subjetivas ou clínicas é contestado. Que confinar a histeria nos transtornos de personalidade, não fornece o modo de funcionamento a partir do qual mudar o comportamento. Nesse nível, estamos ainda na análise funcional do comportamento. Não saímos da lógica intersubjetiva, por mais que esta procure interpor a superação da relação eu-outro.

Nota

A indiferença do criminoso em relação à loucura mudou: atualmente, ele passou a ter interesse nos diagnósticos de saúde mental. Sob restrição de liberdade, o sujeito em conflito com a lei passa a ter volúpia por relatórios de saúde mental. Em certas localidades dos EUA, foragidos da justiça não podem ser retirados de clínicas de internação para drogas, para fins do processo penal. Não apenas o criminoso, mas o mais humilhado dos afastados por doença também se aproxima dos técnicos de saúde mental em busca de laudos; aqueles técnicos, por sua vez, lidam com vácuos na assistência, “buracos” em que vidas se esvaem nas filas, vilas, favelas e presídios. Como  dissemos, o aumento da procura por afastamento médico ou psicológico em casos prevalentes de transtorno de personalidade (CID-10), nos serviços de saúde mental, já se impõe como importante objeto de estudo. O fato é que entre os transtornos de personalidade, nenhum preenche critério de afastamento por doença mental. Em sua maioria, são pessoas colhidas em algum déficit de acolhimento (déficits de reconhecimento social), mas não só dos serviços de saúde, já que, a essa altura de desagregação, vários elos da rede comunitária já haviam faltado. Nossa hipótese é de que esses transtornos, na maioria das vezes, constituem mais desvios de uma norma ou da defesa social, do que patologia mental.

Referências Bibliográficas

DUNKER, Christian. Sintoma, sofrimento, mal-estar. São Paulo: Boitempo, 2015.

FOUCAULT, Michel. O nascimento da clínica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1977.

ZUPANČIČ, Alenka. Sexualidade e ontologia. In: Rev. Estudos Lacanianos. Belo Horizonte (MG). V. 1, n. 2, jul-dez de 2008, pp. 311-326.

[1] “A estrutura, portanto, é real. Em geral, isso se determina pela convergência para uma impossibilidade”. É por isso que é real” (LACAN, J. O Seminário, livor XVI: De um Outro ao outro… Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., [1968-1969] 2008, p. 30).

[2] “A psicanálise de hoje não tem outro recurso senão a histérica que não está na moda: quando a histérica prova que, virada a página, ela continua a escrever no verso, ninguém compreende” (LACAN, Idem, p. 146). Ou seja, a histeria não apenas “subverte” a neuroanatomia, mas também mostra facilidade de adaptação —- complacência somática —- a sintomas de outros.

[3] Tese atribuída a Zupančič (2008).

[4] Se agora nos dedicarmos a considerar a vida mental de um ponto de vista biológico, um ‘instinto’ nos aparecerá como sendo um conceito situado na fronteira entre o mental e o somático, como o representante psíquico dos estímulos que se originam dentro do organismo e alcançam a mente, como uma medida da exigência feita à mente no sentido de trabalhar em conseqüência de sua ligação com o corpo” (FREUD, S. Ariigos sobre metapsicologia – Os instintos e suas vicissitudes (1915). In: ______. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, v. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1974, p. 142.

SEXUALIDADE e INCONSCIENTE: COMPILAÇÃO E COMENTÁRIOS (Aula 1)

*Compilação produzida pelo Prof. Amancio Borges das aulas ministradas pelo Prof. Dr. Guilherme Massara, na disciplina “Sexualidade e Inconsciente”, do curso de Doutoramente em Psicologia pela FAFICH\UFMG,  no primeiro semestre de 2015.

6 de Março

No campo da epistemologia da ciência, interroga-se os fundamentos de uma realidade objetiva, coerente e ordenada. Como pensar a sexualidade a partir desses termos?

A libido freudiana comporta uma oscilação entre um sentido “terminal” —- o pansexualismo, em que tudo do humano se definiria a partir da sexualidade —- e um fora-de-sentido radical.

A consideração das vicissitudes da pulsão revela o valor de uma indeterminação fundamental.

Embora existam cadeias de determinação sexual na formação dos sintomas, a sexualidade humana passa pela via de uma indeterminação, em vários níveis.

Tendemos a crer que existe uma norma sexual, a partir da qual registramos seus desvios.

Nas psicopatias sexuais descritas por Kraft-Ebbing[1], por exemplo, tratava-se de recolher as formas empíricas do desvio da norma, as quais chamou de parafilias. Parafilias  correspondem a práticas sexuais que, mais tarde, Freud  como irá tratar como uma versão do normal.

Nesses casos, algo se fixou de um conteúdo que habitaria em todos nós, provocando, não ainda sintomas, com sofrimento e distonia, mas desvios, versões, perversões de uma norma de conduta socialmente compartilhada.

Versões multiculturais da normatividade permitem descrever a sexualidade como uma arbitrariedade da norma, tese preferencial do feminismo. Mas, igualmente, pode-se entender o Outro sexo pela vertente de uma insuficiência da norma.

O tema do desvio no campo da pulsão nos leva, então, a imaginar acessos alternativos: i) quanto ao objeto (o adulto do sexo oposto); ii) quanto ao alvo (a finalidade reprodutiva ou genitalidade)[2].

Nos Três Ensaios, Freud afirma que, entre a pulsão e seu objeto, não há senão uma solda. Não haveria, portanto, um laço natural, original e obrigatório entre as pulsões e o objeto de escolha.

As chamadas “anomalias” do desenvolvimento psicossexual se reportam à sexualidade infantil, perversa e polimorfa, que, por sua vez, nos remete à constituição bissexual do ser humano.

A espécie humana é aquela que “trai” seu instinto animal, em benefício da fantasia e das pulsões. Como uma espécie pode ser “traída” por seus próprios indivíduos? A trama pulsional prevê um alvo não reprodutivo para a sexualidade.

Portanto: i) fins adaptativos ou filogenéticos são afastados: não há conexão entre sexo e adaptação; ii) se fins adaptativos encontram-se prescritos, cai por terra, também, a finalidade heteronormativa da sexualidade (se o fim não é a reprodução instintiva, mas a satisfação pulsional, qualquer objeto pode servir).

Se assim é, o que ainda subsiste da tendência à reprodução?

O que permanece é a reprodução de um gozo. Seja na tentativa de se defender dele, nesse caso temos o sintoma, possivelmente a sublimação, seja na tentativa de levá-lo a um fim embora com a desaparição do próprio sujeito.

Algumas versões de psicanálise “flertam” com a naturalização da norma. Mas, contrariamente à regularidade quase teleológica que se tentou imprimir à organização psicossexual, na qual as fases se sucedem em direção a uma genitalidade final, o analista trabalha justamente nas “falhas” desse processo.

Estaríamos assistindo —- ou participando —- da falência dos semblantes sexuados? De fato, se o semblante sexuado fálico é mais evidente, o semblante sexuado não-todo não é tão evidente assim. É possível reencontrar os semblantes do feminino em Freud, mas lateralmente, “pelos cantos”. Freud teria antecipado, por meio da expressão “sentimento oceânico”, alguma coisa de um gozo que não seria regulado pelo falo.

Quando nos encontramos diante de fenômenos de indeterminação, atribuir aos sujeitos uma psicose é uma saída tentadora. Mas uma indeterminação se torna, rapidamente, uma atribuição, e em seguida chegamos à codificação; depois da codificação, o diagnóstico; por fim, um protocolo e um tratamento. Isso é o correto, do ponto de vista da aplicação protocolar de uma avaliação; mas preocupar-se somente o correto, não é o bastante. Lembro de uma anedota médica: os residentes seguiram um protocolo e viram todos os pacientes. Satisfeitos, informaram a seu preceptor disso. Ele disse: “Já pra lá, depressa, vocês devem ter matado uns dois ou três”. Se a ousadia de um médico em desafiar o protocolo é possível, em prol da clínica, é porque mesmo o médico reconhece que, no campo dos transtornos mentais, mas também na doenças orgânicas, muito do que constitui ao diagnóstico, ao tratamento, e mesmo à sensação de melhora do paciente, encontra-se turvado por afeto, equivocidade da linguagem, sentimento, impressões necessariamente subjetivas, amor. Pelo inconsciente, inclusive.

Protocolos não têm como tratar do amor. No sentido lato, o amor envolve tudo o que não é assimilável a protocolos. O encontro de um operador do amor no tratamento é uma condição da transferência, mas ele não se encontra em forma de método. Trata-se de um operador que funciona para determinados tipos de clínica, em que o desejo do analista assume o lugar da adoração da figura do mestre. Isso acontece em momentos fortuitos, contingentes, assim como a “doçura” que Lacan depôs no trato com a Bela Açougueira, que lhe permitiu abordar o doente com respeito. Essa doçura é uma das pequenas loucuras de Lacan. Nada tem a ver diretamente com amor, mas sim com respeito. A intenção de tratar é o que lhe faz deformar seu método que não existe, sob certa abordagem. Deformar, sem inalcançar um certo limite da ética da cura.

 

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Seria preciso articular, com Dunker (2015), entre formas de sofrer, formas de adoecer e formas de viver.

Assim, um paciente pergunta: “Doutor, esse bloqueio na minha mente é do remédio ou da doença?”. Digo que provavelmente não é do remédio. Ele completa: “Ah, então não tem problema, porque eu não sofro com a minha doença”.

O que parece abarcar a totalidade do sofrimento mental relacionado à sexualidade, não passa de uma concessão: cada um no seu quadrado. Cada um no seu quadrado, é o tema de um funk em que alguém reclama que estão pisando no seu quadrado, no seu posto sexual.

Eventualmnte defasado, como é normal na indústria da música, cada um no seu quadrado descreve uma impossibilidade da lógica sexual.

Tão equivocado quanto identificar, apressadamente, excedentes de gozo inassimiláveis pelo significante com o Outro gozo das mulheres, seria classificar tais experiências de gozo com formas opacas de satisfação psicótica. Satisfação, descarga ou escoamento seriam formas indeterminadas de identificação, do ponto de vista do sujeito.

 

 

Seriam formas indiferenciadas de identidade pessoal, e de conseqüentes diferentes apresentações da experiência sexual. Dizem respeito a um gozo inarticulado, porém, não necessariamente delirante ou feminino.

O narcisismo é o suplemento libidinal das pulsões de auto-conservação. A organização libidinal é uma montagem, a partir da qual muitos arranjos não-totalizantes da sexualidade podem se dar. Pulsões de auto-conservação são distintas de instintos de auto-conservação, assim como há disjunção entre o orgânico e o psíquico. Mais tarde, como veremos, auto-preservação, cuidado de si, separa-se de auto-conservaçáo, cuidado ta

Num exemplo emprestado de Žižek, uma mulher prepara seu suicídio, mas, quando um monstro gigante invade sua cidade e se aproxima de sua janela, ela corre e se esconde. O instinto que, de certo modo, perturba, põe a pulsão em marcha. Uma morte sonhada não é igual a morte escolhida. Ela deseja morrer, mas, à sua própria maneira. A escolha definiria uma segunda morte que poucos conseguem levar a termo. Por escolha, identificamos um dos termos mais imprecisos em nosso campo, quando se trata de uma escolha inconsciente. Poderíamos dizer que a voz da razão falou mais alto, em alguns casos, mas, em outros, está fora de si. Fora de condições de auto-determinação. No entanto, na anedota, a mulher foge da morte imposta, em direção a uma morte escolhida.

“Saio da vida para entrar na história”—- escreveu Getúlio Vargas. Isso não seria mais possível hoje. Entrar na história, hoje, é uma opção facilmente descartável, pelo ambiente do mercado. O que sobra de penetração na história é recapturado pelo ISIS, ou, pelo menos, alguns dos grupos que, como em outras ocasiões de guerra, fornecem uma identificação muito precisa e letal do que é o outro opositor. Canudos talvez lembre algo no mesmo sentido do que Hegel refere como o transe entre o senhor e o escravo.

A história suporta formas de vida de sempre, mas a capacidade de acessar uma noção de história que equilibre o jogo da pulsão, é outra história.

A histeria subverte a anatomia. Há diferença entre orgânico e somático. No sintoma histérico, o somático submete o orgânico a um plano de desconexão entre a anatomia e o sofrimento. Como lembra Christian Dunker (2015), formas de vida não equivalem, necessariamente, a formas de adoecimento, nem de mal-estar.

Alunos perguntam: somos todos doentes, por entrar numa versão de estrutura psicótica, neurótica ou perversa?

 

 

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Arranjos que supõem totalização do conhecimento sobre o sexo são desmontados pela análise das gambiarras pulsionais, os sinthomas.

Na análise se faz a desmontagem de arranjos pulsionais —- chegando a arranjos não-totalizantes. A queda das identificações ideais, na análise, seria exatamente isso.

A queda das identificações ideais da análise prenuncia a queda do nome do pai como referência simbólica, na civilização? A análise, porém, já trata do pai decaído desde seus primórdios. Alguns acharam que ela promovia a queda do pai, o que foi uma leitura simplória do processo em marcha.

Montagem é um termo utilizado por Georges Bataille em A história do erotismo, O erotismo, A parte maldita.

Nessas condições, o real emerge como potência de indeterminação. Trata-se de conservar o gozo, e não a espécie. Pois, no próprio suplemento libidinal do narcisismo, associado ao contingenciamento das pusões de auto-conservação, já está esboçada a pulsão de morte.

Agora podemos acrescentar mais uma conclusão às anteriores. O desvio não ocorre somente quanto ao objeto (o adulto do sexo oposto) e quanto ao alvo (a finalidade reprodutiva ou genitalidade), mas os arranjos da sexualidade ainda se mostram muito sensíveis ao aparelho do significante —- ao inconsciente —- de modo que a linguagem aparelha o gozo do sensível. Nos termos de Radiofonia, a linguagem entra no real e cria a estrutura, mas não sabemos se é a economia libidinal que elicia toda a cadeia de determinações envolvida. Libido, que aporta uma satisfação a mais, suplementar ou contingente à realização orgânica do ato sexual. Tal forma de autonomia da satisfação libidinal em relação a qualquer outra sugere que a ordem da libido é atópica: não exclui o orgânico, mas a ele não se subordina, em seus sintomas.

Parece que há duas ordens de causalidade concorrendo em paralelo.

O “sexual” não existe como unidade ontológica, menos ainda como objeto sensível. O que existe, concretamente, é o membro, órgão ou superfície que se serve desse condicionante econômico: o corpo tem o dever de expelir regularmente seus excessos de substância, principalmente, daquela substância que não existe como tal, de que se formam as zonas erógenas. A fonte, o tecido excitável em questão, pouco importa, desde que contenha um buraco. É o buraco —- ou o corte —- que delimita condições de transporte de uma superfície a outra, na banda de Moebius e no toro: objetos topológicos em que uma torção no espaço reconfigura as formas originais, podendo levar a superfícies descontínuas que rompem, por um momento, com as três dimensões, ao retratar como bidimensional uma superfície —- topologicamente —- tridimensional. A adoção de um quarto nó, numa segunda tópica lacaniana, equivaleria, então, a essa torção libidinal dos três registros: real, simbólico e imaginário. Seja como for, nessa versão específica de objeto, as condições de transporte de certo fluxo libidinal determinam transformações no espaço de conformação desse objeto mesmo, modificando-o; o que o conceito de transferência nos desafiaria a explicar, em outro momento.

É possível que se registre um desvio da norma que seja uma variante do sofrimento mental, e não uma patologia como aquele sofrimento. —- e o desvio da norma como forma de vida seria então uma das formas como o diagnóstico se apresenta no tecido social e, assim, faz girar toda uma engrenagem de financiamento, seja de pesquisa, seja de produção, seja de desvio. Não existe desvio sem infecção social. Corruptos são vermes, por causa disso.

Este é um tema constante, do debate sobre o delito e a privação de liberdade de jovens infratores depois de experiências em que, de certo modo preciso, não lhe restavamm experiências de sofrimento produtivas.

Casos que oscilam em áreas de atenção do judiciário ou da saúde, e vice-versa, são comuns em serviços de saúde mental. E reconduzem ao tema fundante do desvio da norma sexual e de muitas outras (o que se possa pensar exceto os preconceitos fundamentais), de modo que simplesmente, não por excesso de dados, nem por insuficiência descritiva, menos ainda por correção metodológica, perdemos o sujeito.

Tudo o que concerne a pensar a posição de um sujeito, seja frente ao Outro, ao outro, se terminaria aí.

Do ponto de vista do inconsciente, o sintoma, como tentativa do eu de exercer controle sobre o isso, é uma tentativa de restabelecimento, porém, esse controle não alcança influenciar o imperativo do supereu. Há limites para o eu, assim como para a consciência dos cuidados de si —- objetivo das curas, terapias e outras formas de atenção que surgiram com o século XVIII, como registrado por Foucault, também foram, desta maneira, delimitadas. Delimitar o cuidado do outro como função socialmente reconhecida parece ter o cuidado de si como predecessor.

O desvio das pulsões seria um desvio constitutivo. A sexualidade humana é o desvio —- paradoxal —- de uma norma que não existe. O desvio é a norma[3].

 

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Referências Bibliográficas

DUNKER, Christian. Sintoma, sofrimento, mal-estar. São Paulo: Boitempo, 2015.

FOUCAULT, Michel. O nascimento da clínica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1977.

MASSARA, G. Sexualidade e inconsciente. Aulas do doutoramento de Psicanálise da UFMG.  Etc…

ZUPANČIČ, Alenka. Sexualidade e ontologia. In: Rev. Estudos Lacanianos. Belo Horizonte (MG). V. 1, n. 2, jul-dez de 2008, pp. 311-326.

[1] Psychopathia Sexualis. Stuttgart: Verlag von Ferdinand Enke, 1886. Em seu tratado, Krafft-Ebing dispõe os desvios sexuais em quatro  categorias: i) o paradoxo: desvio experimentado em etapas de vida equivocadas, isto é, na infância ou na velhice; ii) a anestesia, ou falta de desejo sexual; iii) a hiperestesia, ou excesso de desejo; e iv) a parestesia: desejo sexual sobre um objeto errôneo, na homossexualidade, no fetichismo, no masoquismo, etc.

[2] Quanto à fonte da pulsão, observamos que qualquer superfície do corpo, por meio de uma manobra topológica, pode se tornar um buraco apto ao gozo.

[3] Em solidariedade a esta tese, lembramos o momento em que Christian Dunker examina de que modo a estratégia de apreensão dos fenômenos psíquicos pela psicanálise se afasta do raciocínio médico ou psicoterapêutico, que pressupõem um estado inicial de saudável harmonia, interrompido pela eclosão de um adoecimento, para a ele retornar com o tratamento e a cura.. Para Freud, ao contrário, “Apenas depois de estudar o patológico se aprende a compreender o normal”. Aqui, o próprio sentido do patológico e do normal se alteram. Não mais se trata do inconsciente como um sucedâneo do patológico, mas de um “inconsciente ordinário” a ser apreendido por meio de uma abordagem em que “o desvio é o próprio critério do método” (DUNKER, 2015, p. 43).

Seminário: “O sentido dos sintomas” – com Humberto Oliveira

Atenção pessoal, em Março o CEPP retoma suas atividades. Nesse primeiro semestre ofereceremos um seminário sobre a lógica do sintoma em Freud e Lacan. Não deixem de participar e nos ajudem a divulgar! Para inscrever entrem em contato com Beto Oliveira (no facebook ou no email indicado no folder).

Seminario CEPP 2016 1

Núcleo de Investigação em Psicanálise e Saúde Mental (NIPS 1º sem 2016)

Núcleo de Investigação em Psicanálise e Saúde Mental

Local: Sede do CEPP às 20h ( vídeo conferência )

Interessados procurar Maria Margareth Mendes – Tel: 38246068

Coordenadora : Fernanda Otoni

Coordenação Adjunta: Henri Kaufmanner

A partir da precariedade simbólica de nossos tempos e a profusão de objetos imaginários, abandonadas as referências parentais, como podem se virar os adolescentes, para que seus corpos encontrem uma nova inscrição no Outro? Que Outro seria esse em jogo na Saúde Mental?

 27 de fevereiro: Apresentação de Paciente em Uberlândia. ( Atividade adiada de 2015) – Henri Kaufmanner

15 de março: Seminário: Os Adolescentes e a inexistência do Outro: Repensando um lugar para a Saúde Mental – Henri Kaufmanner

12 de abril:   Conversação Clínica: Relato de Caso por Montes Claros – Debatedora: Helenice de Castro

17 de maio: Seminário: Adolescentes, seus corpos e linguagens. What’s up? – Fernanda Otoni

14 de junho: Atividade conjunta com o Núcleo de Psicanálise e Direito –                             Conversação sobre a Entrevista de Orientação Psicanalítica com adolescente do CATU – Coordenação: Fernanda Otoni

02 de julho: Apresentação de Paciente em Montes Claros – Henri Kaufmanner

Pós-Graduação Clinica Psicanalítica na Contemporaneidade do Unileste

Caros colegas,

É com muito prazer que informo sobre a abertura da campanha 1º / 2016 para o Curso de Pós-Graduação Clinica Psicanalítica na Contemporaneidade do Unileste.

As inscrições estão abertas; mais informações no site http://www.unilestemg.br/posgraduacao,  ou na Secretaria de Cursos de Graduação e Pós -Graduação – Tels. – 0800 283 7944 – (31) 3846 – 5677.

Gostaria muito de continuar contando com a participação de vocês no Curso que esperamos iniciar no  primeiro semestre de 2016. As expectativas para formar nova turma são boas.

À medida que as informações sobre o Curso forem chegando, repasso à vocês.

Abraço,

Patrícia Guedes

As primeiras sessões com Sara, a colaborativa – uma adolescente a procura de suas asas

Publicado n12270313_831259036986651_716895845_na Revista Brasileira de Psicanálise (FEBRAPSI), volume 49, n.3, 2015, artigo escrito por Humberto Oliveira, coordenador do CEPP, sobre o tratamento psicanalítico na adolescência a partir de três casos clínicos. A Revista ainda não disponibilizou o Volume 49 na internet, mas ele já encontra a disposição para vendas no próprio site da revista e conta com artigos interessantes.

 

Segue link do sumário: http://rbp.org.br/revistas/#collapse8

Para adquirir um exemplar acesse: http://rbp.org.br/assinatura-e-vendas/

A família e a moral sexual

Texto da psicanalista doutorando em Psicologia pela UFMG Virginia Sanábio Souto Maior para a VI Jornada de Psicanálise

Em 1908 Freud discute o aspecto duplo da moral sexual imposta dentro do casamento. As restrições feitas às mulheres eram mais severas, pois elas só podiam ter relação sexual dentro do casamento monogâmico. Freud aponta para as consequências danosas, isto é, para o surgimento das doenças nervosas atribuídas aos sacrifícios exigidos por esta moral. Freud defende a tese de que as doenças nervosas são desencadeadas devido à repressão da vida sexual imposta pela civilização.

E distingue três estágios da civilização:

Um primeiro em que a pulsão sexual pode manifestar-se livremente sem que sejam consideradas as metas de reprodução; um segundo em que tudo da pulsão sexual é suprimido, exceto quando serve ao objetivo da reprodução; e um terceiro no qual só a reprodução legítima é admitida como meta sexual. A esse terceiro estágio corresponde a moral sexual “civilizada” da atualidade (FREUD, 1969, p. 194).

Com a descrição destes três estágios verifica-se que as exigências de civilização proíbem toda atividade sexual descrita como pervertida, ao mesmo tempo em que concedem ampla liberdade às relações sexuais chamadas normais, isto é, que estão associadas à reprodução e ao casamento.

Mas, seria possível a educação sexual? Qual será a consequência da manutenção da abstinência sexual até o casamento? Freud dirá que a consequência da abstinência é a produção da neurose. Em relação às mulheres, ele diz:

o resultado é que, quando a jovem recebe a súbita autorização de seus guardiões para apaixonar-se, não esta apta a essa realização psíquica, e chega ao matrimônio insegura dos seus sentimentos. Em consequência dessa retardação artificial de suas funções eróticas, ela nada tem a oferecer além de desapontamentos ao homem que poupou todos os seus desejos a ela (FREUD, 1969, p. 202).

A restrição da vida erótica traz consequências inevitáveis e indesejadas no casamento, tais como a impotência e a frigidez. O casamento que deveria ser o momento da realização das pulsões sexuais, desperta as doenças nervosas.

Freud, então, indaga: “a nossa moral sexual “civilizada” vale o sacrifício que nos impõe”? E cabe-nos indagar, na virada do século XX para o sec. XXI – quais são os ideais civilizatórios que regulam o gozo? Eles existem? Quais são?

Um novo sistema de parentesco

Na virada do século é pertinente levantar uma questão: na atualidade, o sistema de parentesco encontra-se transformado? Se sim, em que medida mudanças no nível dos costumes intervém na estrutura subjetiva?

Para iniciar este debate apresento o fragmento de uma reportagem publicada na Revista Vida e Estilo, online – Casal de transgêneros dá à luz um filho em Porto Alegre.

Helena Freitas, 26 anos, e Anderson Cunha, 21, se conheceram durante uma festa no inverno de 2013. Entre sorrisos e olhares, o jovem tomou a iniciativa e resolveu pagar uma bebida para a morena vaidosa de cabelos longos. Depois de uma madrugada de conversa, trocaram telefones. Após vários encontros, a relação, que no início parecia amizade, evoluiu.

Os dois começaram a namorar no Natal do mesmo ano. Em 2014, o casal resolveu morar junto. A estudante estava com o curso de Letras na Faculdade Porto-Alegrense (Fapa) trancado no terceiro semestre, e o rapaz era atendente em uma lanchonete. A rotina ia bem, até que um pequeno deslize mudou o destino dos jovens. Após muito nervosismo, suspeita e um teste de farmácia, veio a certeza: Anderson estava grávido.

Acontece que Anderson nasceu Andressa e, aos 15 anos, assumiu uma identidade masculina. Helena, por sua vez, nasceu homem. Depois de ter diversas relações homossexuais e se travestir, assumiu a identidade transgênero aos 19 anos.

– Eu sempre quis ter filho. Mas nunca imaginei que seria fruto de uma relação própria. Quando começamos a namorar, vi que essa possibilidade era viável – recorda Helena.

Esta nova forma de organização familiar tem sido muito debatida no meio psicanalítico e Miguel Bassols questiona, “quantos sexos podem ser contados neste novo século? Parece estarmos vivendo em uma era dos fins de dois sexos e o princípio de sua multiplicação ao infinito” (BASSOLS, 2014, s/p).

A psicanalista Silvia Ons (2013) comenta que o conceito de gênero surgiu na ciência médica para explicar os casos de intersexualidade e das ambiguidades sexuais e teve impacto nas ciências sociais para explicar a construção cultural da diferença sexual.

Para a filósofa Judith Butler, sexo e gênero são construções culturais “fantasmáticas” que demarcam e definem o corpo. “O gênero não é um substantivo, mas demonstra ser performativo, quer dizer, constituinte da identidade que pretende ser” (BUTLER apud SALIH, 2013, p. 72).

A ideia de performatividade de Butler não significa liberdade, ou seja, que o sujeito seja livre para escolher que gênero ela ou ele vai escolher para encenar. “Teremos de nos livrar da noção de “liberdade de escolha”: uma vez que estamos vivendo dentro da lei ou no interior de uma dada cultura, não há possibilidade de nossa escolha ser inteiramente livre” (BUTLER apud SALIH 2013, p. 72). Ao contrário disso é provável que a escolha de nossas “roupas metafóricas” seja ajustada às expectativas de nossa origem social. Mas, como o gênero é subversivo a essas expectativas é possível a ele alterar as roupas metafóricas que lhe são designadas de modo convencional – “rasgando-as ou pregando-lhes lantejoulas ou vestindo-as viradas ou do avesso” (BUTLER apud SALIH 2013, p. 73).

Com as mutações ilimitadas de gênero modifica-se também a estrutura de parentesco. Em algumas uniões há que se perguntar: quem será o pai, quem será a mãe?

Em A família Lacan sustenta a tese de que “as relações de parentesco no interior da família, com toda sua complexidade, se realizam a partir do casamento, casamento que não se apoia nos laços sanguíneos, mas nos laços significantes” (LACAN apud FLEISCHER, 1999, p. 270).

Afirma Marie-Hèléne Brousse que, “em seu último ensino, Lacan constrói uma teoria pós-edípica do inconsciente. Separa o modo de gozo do sujeito e do Outro” (BROUSSE, 2006, p.140). E usa o termo parentalidade para a nova ordem familiar. Com a parentalidade inscreve-se uma semelhança ou uma equivalência no lugar da diferença entre o pai e a mãe.

A parentalidade implica que o pai seja substituido pelos pares. Ela se declina, por outro lado, com a noção de coparentalidade ou de monoparentalidade. A previsão de Lacan da ascenção da segregação é correlata a este apagamento da diferença em vantagem da semelhança: os mesmos com os mesmos (BROUSSE, 2006, p. 144).

Jacques-Alain Miller mostra que ao modificar-se o sistema de parentesco, o que surge é um sintoma. E explica que “para alcançar o significante família é necessário o objeto “criança” (MILLER, 2005, p. 146). Cito Miller,

A modernidade se define pela “ascensão do objeto a”. A criança é um modo eminente deste objeto, e isto há muito tempo. Mas se antes a criança não era tomada pela preocupação devido à descendência e a transmissão do nome, os historiadores tem demonstrado que com a modernidade a relação da criança se modifica e que seu valor não se sustenta mais nestas coordenadas do sistema de parentesco (MILLER apud BROUSSE, 2005, p. 146).

Há, então, na atualidade, um novo modo de realização erótica nos homens e nas mulheres? Estamos diante de uma nova moral sexual?

Conclusão

Concluo este trabalho sobre “A família e a moral sexual” com a hipótese de que os ideais civilizatórios contemporâneos não estão sustentados no sacrifício, mas nos ideais de transparência, “devemos mostrar tudo, dizer tudo”. Com essa transparência iremos tocar na base da estrutura de família e abolir os segredos de família. Cito a definição de família proposta por Jacques-Alain Miller, Assuntos de família no inconsciente,

O que define a família? Ela tem origem no casamento? Não, a família tem origem no mal-entendido, no desencontro, na decepção, no abuso sexual ou no crime. Que ela seja formada pelo marido, pela esposa e suas crianças, etc..? Não a família é formada pelo Nome-do-Pai, pelo desejo da mãe e pelo objeto a. Que eles são unidos por laços legais, por direitos, por deveres e etc…? Não, a família é essencialmente unida por um segredo, ela é unida pelo não dito, é sempre um segredo sobre o gozo; de que gozam o pai e a mãe? (MILLER, 2007, s/p).

Referências Bibliográficas

BASSOLS, Miguel. El objeto (a) sexuado. In:______. Tiresias. Publicación de las 13ª jornadas de la Escuela Lacaniana de Psicoanálisis. Madrid: Campo Freudiano, 2014. Disponível em: jornadaselp.com. Acesso em: 13 julho 2014.

BROUSSE, Marie-Hélène. Um neologismo de actualidade: la parentalidade. In:______. Revista Enlaces nº11. Buenos Aires: Grama, 2006. p.139-148.

FLEISCHER, Deborah. As transformações familiares. Texto apresentado em Belo Horizonte: IPSMMG. 1999. p.267-283.

FREUD, Sigmund. Moral sexual civilizada e doença nervosa moderna. In: _______. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1974, volume IX, p. 185-208.

MILLER, Jacques-Alain. Assuntos de família no inconsciente. In: ______. Revista eletrônica do Núcleo Sephora, v.2 n.4, maio a outubro 2007. www.isepol.com/ascephallus/numero 04/traducao 01.htm (acesso em agosto 2015).

ONS, Sílvia. O corpo na hipermodernidade. In: _______. VI Encontro Americano de Psicanálise de Orientação Lacaniana. Buenos Aires: Campo Freudiano, 2013. Disponível em: http://www.enapol.com Acesso em: 01 de agosto de 2014.

SALIH, Sara. O Gênero. In: ______. Judith Butler e a teoria Queer. Belo Horizonte: Autêntica, 2013. p. 63-101.

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