Núcleo de Investigação em Psicanálise e Saúde Mental (NIPS 1º sem 2016)

Núcleo de Investigação em Psicanálise e Saúde Mental

Local: Sede do CEPP às 20h ( vídeo conferência )

Interessados procurar Maria Margareth Mendes – Tel: 38246068

Coordenadora : Fernanda Otoni

Coordenação Adjunta: Henri Kaufmanner

A partir da precariedade simbólica de nossos tempos e a profusão de objetos imaginários, abandonadas as referências parentais, como podem se virar os adolescentes, para que seus corpos encontrem uma nova inscrição no Outro? Que Outro seria esse em jogo na Saúde Mental?

 27 de fevereiro: Apresentação de Paciente em Uberlândia. ( Atividade adiada de 2015) – Henri Kaufmanner

15 de março: Seminário: Os Adolescentes e a inexistência do Outro: Repensando um lugar para a Saúde Mental – Henri Kaufmanner

12 de abril:   Conversação Clínica: Relato de Caso por Montes Claros – Debatedora: Helenice de Castro

17 de maio: Seminário: Adolescentes, seus corpos e linguagens. What’s up? – Fernanda Otoni

14 de junho: Atividade conjunta com o Núcleo de Psicanálise e Direito –                             Conversação sobre a Entrevista de Orientação Psicanalítica com adolescente do CATU – Coordenação: Fernanda Otoni

02 de julho: Apresentação de Paciente em Montes Claros – Henri Kaufmanner

Pós-Graduação Clinica Psicanalítica na Contemporaneidade do Unileste

Caros colegas,

É com muito prazer que informo sobre a abertura da campanha 1º / 2016 para o Curso de Pós-Graduação Clinica Psicanalítica na Contemporaneidade do Unileste.

As inscrições estão abertas; mais informações no site http://www.unilestemg.br/posgraduacao,  ou na Secretaria de Cursos de Graduação e Pós -Graduação – Tels. – 0800 283 7944 – (31) 3846 – 5677.

Gostaria muito de continuar contando com a participação de vocês no Curso que esperamos iniciar no  primeiro semestre de 2016. As expectativas para formar nova turma são boas.

À medida que as informações sobre o Curso forem chegando, repasso à vocês.

Abraço,

Patrícia Guedes

As primeiras sessões com Sara, a colaborativa – uma adolescente a procura de suas asas

Publicado n12270313_831259036986651_716895845_na Revista Brasileira de Psicanálise (FEBRAPSI), volume 49, n.3, 2015, artigo escrito por Humberto Oliveira, coordenador do CEPP, sobre o tratamento psicanalítico na adolescência a partir de três casos clínicos. A Revista ainda não disponibilizou o Volume 49 na internet, mas ele já encontra a disposição para vendas no próprio site da revista e conta com artigos interessantes.

 

Segue link do sumário: http://rbp.org.br/revistas/#collapse8

Para adquirir um exemplar acesse: http://rbp.org.br/assinatura-e-vendas/

A família e a moral sexual

Texto da psicanalista doutorando em Psicologia pela UFMG Virginia Sanábio Souto Maior para a VI Jornada de Psicanálise

Em 1908 Freud discute o aspecto duplo da moral sexual imposta dentro do casamento. As restrições feitas às mulheres eram mais severas, pois elas só podiam ter relação sexual dentro do casamento monogâmico. Freud aponta para as consequências danosas, isto é, para o surgimento das doenças nervosas atribuídas aos sacrifícios exigidos por esta moral. Freud defende a tese de que as doenças nervosas são desencadeadas devido à repressão da vida sexual imposta pela civilização.

E distingue três estágios da civilização:

Um primeiro em que a pulsão sexual pode manifestar-se livremente sem que sejam consideradas as metas de reprodução; um segundo em que tudo da pulsão sexual é suprimido, exceto quando serve ao objetivo da reprodução; e um terceiro no qual só a reprodução legítima é admitida como meta sexual. A esse terceiro estágio corresponde a moral sexual “civilizada” da atualidade (FREUD, 1969, p. 194).

Com a descrição destes três estágios verifica-se que as exigências de civilização proíbem toda atividade sexual descrita como pervertida, ao mesmo tempo em que concedem ampla liberdade às relações sexuais chamadas normais, isto é, que estão associadas à reprodução e ao casamento.

Mas, seria possível a educação sexual? Qual será a consequência da manutenção da abstinência sexual até o casamento? Freud dirá que a consequência da abstinência é a produção da neurose. Em relação às mulheres, ele diz:

o resultado é que, quando a jovem recebe a súbita autorização de seus guardiões para apaixonar-se, não esta apta a essa realização psíquica, e chega ao matrimônio insegura dos seus sentimentos. Em consequência dessa retardação artificial de suas funções eróticas, ela nada tem a oferecer além de desapontamentos ao homem que poupou todos os seus desejos a ela (FREUD, 1969, p. 202).

A restrição da vida erótica traz consequências inevitáveis e indesejadas no casamento, tais como a impotência e a frigidez. O casamento que deveria ser o momento da realização das pulsões sexuais, desperta as doenças nervosas.

Freud, então, indaga: “a nossa moral sexual “civilizada” vale o sacrifício que nos impõe”? E cabe-nos indagar, na virada do século XX para o sec. XXI – quais são os ideais civilizatórios que regulam o gozo? Eles existem? Quais são?

Um novo sistema de parentesco

Na virada do século é pertinente levantar uma questão: na atualidade, o sistema de parentesco encontra-se transformado? Se sim, em que medida mudanças no nível dos costumes intervém na estrutura subjetiva?

Para iniciar este debate apresento o fragmento de uma reportagem publicada na Revista Vida e Estilo, online – Casal de transgêneros dá à luz um filho em Porto Alegre.

Helena Freitas, 26 anos, e Anderson Cunha, 21, se conheceram durante uma festa no inverno de 2013. Entre sorrisos e olhares, o jovem tomou a iniciativa e resolveu pagar uma bebida para a morena vaidosa de cabelos longos. Depois de uma madrugada de conversa, trocaram telefones. Após vários encontros, a relação, que no início parecia amizade, evoluiu.

Os dois começaram a namorar no Natal do mesmo ano. Em 2014, o casal resolveu morar junto. A estudante estava com o curso de Letras na Faculdade Porto-Alegrense (Fapa) trancado no terceiro semestre, e o rapaz era atendente em uma lanchonete. A rotina ia bem, até que um pequeno deslize mudou o destino dos jovens. Após muito nervosismo, suspeita e um teste de farmácia, veio a certeza: Anderson estava grávido.

Acontece que Anderson nasceu Andressa e, aos 15 anos, assumiu uma identidade masculina. Helena, por sua vez, nasceu homem. Depois de ter diversas relações homossexuais e se travestir, assumiu a identidade transgênero aos 19 anos.

– Eu sempre quis ter filho. Mas nunca imaginei que seria fruto de uma relação própria. Quando começamos a namorar, vi que essa possibilidade era viável – recorda Helena.

Esta nova forma de organização familiar tem sido muito debatida no meio psicanalítico e Miguel Bassols questiona, “quantos sexos podem ser contados neste novo século? Parece estarmos vivendo em uma era dos fins de dois sexos e o princípio de sua multiplicação ao infinito” (BASSOLS, 2014, s/p).

A psicanalista Silvia Ons (2013) comenta que o conceito de gênero surgiu na ciência médica para explicar os casos de intersexualidade e das ambiguidades sexuais e teve impacto nas ciências sociais para explicar a construção cultural da diferença sexual.

Para a filósofa Judith Butler, sexo e gênero são construções culturais “fantasmáticas” que demarcam e definem o corpo. “O gênero não é um substantivo, mas demonstra ser performativo, quer dizer, constituinte da identidade que pretende ser” (BUTLER apud SALIH, 2013, p. 72).

A ideia de performatividade de Butler não significa liberdade, ou seja, que o sujeito seja livre para escolher que gênero ela ou ele vai escolher para encenar. “Teremos de nos livrar da noção de “liberdade de escolha”: uma vez que estamos vivendo dentro da lei ou no interior de uma dada cultura, não há possibilidade de nossa escolha ser inteiramente livre” (BUTLER apud SALIH 2013, p. 72). Ao contrário disso é provável que a escolha de nossas “roupas metafóricas” seja ajustada às expectativas de nossa origem social. Mas, como o gênero é subversivo a essas expectativas é possível a ele alterar as roupas metafóricas que lhe são designadas de modo convencional – “rasgando-as ou pregando-lhes lantejoulas ou vestindo-as viradas ou do avesso” (BUTLER apud SALIH 2013, p. 73).

Com as mutações ilimitadas de gênero modifica-se também a estrutura de parentesco. Em algumas uniões há que se perguntar: quem será o pai, quem será a mãe?

Em A família Lacan sustenta a tese de que “as relações de parentesco no interior da família, com toda sua complexidade, se realizam a partir do casamento, casamento que não se apoia nos laços sanguíneos, mas nos laços significantes” (LACAN apud FLEISCHER, 1999, p. 270).

Afirma Marie-Hèléne Brousse que, “em seu último ensino, Lacan constrói uma teoria pós-edípica do inconsciente. Separa o modo de gozo do sujeito e do Outro” (BROUSSE, 2006, p.140). E usa o termo parentalidade para a nova ordem familiar. Com a parentalidade inscreve-se uma semelhança ou uma equivalência no lugar da diferença entre o pai e a mãe.

A parentalidade implica que o pai seja substituido pelos pares. Ela se declina, por outro lado, com a noção de coparentalidade ou de monoparentalidade. A previsão de Lacan da ascenção da segregação é correlata a este apagamento da diferença em vantagem da semelhança: os mesmos com os mesmos (BROUSSE, 2006, p. 144).

Jacques-Alain Miller mostra que ao modificar-se o sistema de parentesco, o que surge é um sintoma. E explica que “para alcançar o significante família é necessário o objeto “criança” (MILLER, 2005, p. 146). Cito Miller,

A modernidade se define pela “ascensão do objeto a”. A criança é um modo eminente deste objeto, e isto há muito tempo. Mas se antes a criança não era tomada pela preocupação devido à descendência e a transmissão do nome, os historiadores tem demonstrado que com a modernidade a relação da criança se modifica e que seu valor não se sustenta mais nestas coordenadas do sistema de parentesco (MILLER apud BROUSSE, 2005, p. 146).

Há, então, na atualidade, um novo modo de realização erótica nos homens e nas mulheres? Estamos diante de uma nova moral sexual?

Conclusão

Concluo este trabalho sobre “A família e a moral sexual” com a hipótese de que os ideais civilizatórios contemporâneos não estão sustentados no sacrifício, mas nos ideais de transparência, “devemos mostrar tudo, dizer tudo”. Com essa transparência iremos tocar na base da estrutura de família e abolir os segredos de família. Cito a definição de família proposta por Jacques-Alain Miller, Assuntos de família no inconsciente,

O que define a família? Ela tem origem no casamento? Não, a família tem origem no mal-entendido, no desencontro, na decepção, no abuso sexual ou no crime. Que ela seja formada pelo marido, pela esposa e suas crianças, etc..? Não a família é formada pelo Nome-do-Pai, pelo desejo da mãe e pelo objeto a. Que eles são unidos por laços legais, por direitos, por deveres e etc…? Não, a família é essencialmente unida por um segredo, ela é unida pelo não dito, é sempre um segredo sobre o gozo; de que gozam o pai e a mãe? (MILLER, 2007, s/p).

Referências Bibliográficas

BASSOLS, Miguel. El objeto (a) sexuado. In:______. Tiresias. Publicación de las 13ª jornadas de la Escuela Lacaniana de Psicoanálisis. Madrid: Campo Freudiano, 2014. Disponível em: jornadaselp.com. Acesso em: 13 julho 2014.

BROUSSE, Marie-Hélène. Um neologismo de actualidade: la parentalidade. In:______. Revista Enlaces nº11. Buenos Aires: Grama, 2006. p.139-148.

FLEISCHER, Deborah. As transformações familiares. Texto apresentado em Belo Horizonte: IPSMMG. 1999. p.267-283.

FREUD, Sigmund. Moral sexual civilizada e doença nervosa moderna. In: _______. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1974, volume IX, p. 185-208.

MILLER, Jacques-Alain. Assuntos de família no inconsciente. In: ______. Revista eletrônica do Núcleo Sephora, v.2 n.4, maio a outubro 2007. www.isepol.com/ascephallus/numero 04/traducao 01.htm (acesso em agosto 2015).

ONS, Sílvia. O corpo na hipermodernidade. In: _______. VI Encontro Americano de Psicanálise de Orientação Lacaniana. Buenos Aires: Campo Freudiano, 2013. Disponível em: http://www.enapol.com Acesso em: 01 de agosto de 2014.

SALIH, Sara. O Gênero. In: ______. Judith Butler e a teoria Queer. Belo Horizonte: Autêntica, 2013. p. 63-101.

A Feminização do Mundo

Texto da psicanalista Cássia Túlio para a VI Jornada de Psicanálise

O objetivo deste artigo é conceituar e localizar este acontecimento denominado a “feminização do mundo”, um acontecimento que impactou e desencadeou vários fenômenos sociais, como por exemplo, a violência desmedida, os atos criminosos realizados “porque sim”. Diante de tais mudanças como pensar os efeitos que esta nova lógica tem causado na mulher contemporânea e nas suas parcerias amorosas?

1 Introdução:

O tema “feminização do mundo” foi destacado por Miller em 1997 com o intuito de ler os fenômenos que atravessam a nossa época, além de levantar as consequências clínicas que advêm deste acontecimento.

A época atual, também denominada “globalização” é caracterizada pela queda da função paterna e o declínio do viril, afetando diretamente os grandes referenciais que balizavam o mundo. Se antigamente as escolhas dos sujeitos eram norteadas pelas leis oferecidas pela tradição, pela autoridade ou religião, hoje se observa um desmoronamento daquilo que guiava o homem. Ele se vê sem uma grade de leitura que lhe permita decifrar os acontecimentos do mundo.

Este é um dos temas trabalhados por Miller em seu artigo “O Outro que não existe e seus comitês de Ética”: “o declínio da função paterna foi enunciado por Lacan desde 1938 quando ele constata uma evolução na forma das neuroses desde o tempo de Freud, podendo-se reconhecer a grande neurose contemporânea, designando aí a determinação principal na carência do pai cuja personalidade é ausente, humilhada, dividida ou postiça”.

Ele continua:

“Podemos falar de uma grande neurose contemporânea? Se se pudesse fazê-lo, poder-se-ia dizer que seu determinante principal é a inexistência do Outro – na medida em que ela faz o sujeito sair à caça do mais-de-gozar. O supereu freudiano produziu coisas como o interdito, o dever, até mesmo a culpabilidade. Termos estes que só fazem existir o Outro. São semblantes do Outro. Eles supõem o Outro. O supereu lacaniano produz um imperativo diferente – Gozar. Esse supereu é o supereu de nossa civilização.” (Miller, 1998)

Portanto se na época de Freud o mal-estar era o sintoma que mostrava sua renúncia pulsional – “deves deixar de gozar!”, como mandato paterno da civilização, hoje as coisas mudaram. O imperativo atual da civilização tornou-se o “deves gozar!”.

Ernesto Sinatra, psicanalista argentino em seu livro “@s Nov@s Adit@s”, vem tratar dos efeitos da globalização na subjetividade, percorrendo extensamente a construção teórica deste acontecimento que Jacques-Alain Miller denominou “feminização do mundo”, estabelecendo uma correspondência entre o estado de globalização e o lado feminino das fórmulas da sexuação. Seguiremos a partir daqui os desdobramentos que este autor faz em seu livro citado acima.

A hipótese que Ernesto Sinatra pretende demonstrar é que há uma sequência à qual a civilização alcançou: 1) à queda do pai – se segue 2) o “declínio do viril” – ao que responde – 3) a “feminização do mundo”. Então, ao declínio do pai a primeira consequência seria a desvirilização, e a esta constatação Miller aplicou uma operação lógica: a extração da função da exceção, que era condição necessária para a formação do conjunto. (Sinatra, 2013:27)

Para entendermos esta operação lógica é necessário que façamos uma breve localização das fórmulas da sexuação construídas por Lacan.

2. A sexuação

Sabemos que Lacan formulou a partilha dos sexos não a partir do atributo peniano que dividiria os seres em portadores ou privados de pênis, mas a partir da função fálica. Ele indicou que a sexualidade humana não pode ser reduzida a distribuição dos corpos entre homens e mulheres, a escolha do sexo atravessa o natural, a criatura humana pode situar o seu corpo de um lado ou de outro, para além do seu destino anatômico.

Lacan propõe então uma partilha de gozos: o gozo fálico é masculino e o feminino é o gozo Outro. Trata-se portanto, de duas posições sexuais que localizamos a partir da barra vertical: o lado macho (do Todo) e o lado feminino (ou Não-Todo). (Sinatra, 2013:21)

Do lado masculino da sexuação encontramos a função universal do falo, pois todos os seres deste lado estão inscritos na função fálica. Para que essa proposição universal seja verdadeira, é necessária uma proposição que a negue, ou seja, é necessária uma exceção que confirme a regra. “A exceção não só confirma a regra como a funda, a faz existir ao dar-lhe consistência”. (Sinatra, 2013:27)

Se a regra é a castração simbólica para todos os homens (é o que implica a função fálica), é necessário estruturalmente que exista uma exceção fora do universal da castração, que diga “não” à função fálica. (Quinet, 2012:61)

Esse “pelo-menos-um” fora da função fálica é o que encontramos na figura do pai da horda primitiva de “Totem e Tabu”, que como Pai gozador, proibia o gozo fálico a todos os seus filhos. O mito freudiano veicula que a existência da exceção do pai fundador possibilita o aparecimento do clã, ou seja, o conjunto dos filhos castrados. (Quinet, 2012:62)

Agora podemos entender que a “extração da função da exceção” é o que resta do lado da sexuação masculina se tiramos a parte esquerda superior, ou seja, este “pelo-menos-um”. “Que características têm esse conjunto agora que a autoridade do pai foi retirada, agora que esse pai está em fuga, aquele que até ontem encarnava a função da exceção, do dizer não”? (Sinatra, 2013:29)

Ernesto Sinatra citando Jacques Lacan responde:

“Jacques Lacan fazia referência, já em 1938, à queda da imago paterna para ratificá-la em 1945; inclusive, em 1956, chega a referir-se a “um estilo: o dos homens tipo Hans”, o daqueles que, para aceder ao ato sexual, se caracterizariam por “esperar que as damas lhes baixem as calças”. (Sinatra, 2013:29)

A partir das fórmulas da sexuação pode-se dizer que o mal-estar na época freudiana era um mal-estar que obedecia à lógica que Jacques Lacan atribuiu à posição masculina: o conjunto sustentado no Todo, a partir da culpa e do castigo. Hoje, a leitura que fazemos dos fenômenos da globalização obedece a outra lógica, à lógica do Não-Todo, ou seja, a posição feminina da sexuação.

Deste lado direito da sexuação, o lado feminino, não há o conjunto das mulheres, pois não existe uma exceção para fundar o universal de todas as mulheres. Podemos pensar em uma lógica distinta da lógica do Todo, é a lógica do Não-Todo (“pas-toute”), na medida em que a mulher está “não toda” inscrita na lógica fálica. (Quinet, 2012:63)

“É o Não-Todo, então, o modo lógico de organização que comanda atualmente a subjetividade. Denominá-lo feminização do mundo decorre justamente de ler a risca esta subtração da exceção, encarnada até ontem na autoridade do pai”. (Sinatra, 2013:30)

Ao nos referirmos a esta lógica do Não-Todo, como sinaliza Sinatra, “localizamos uma estrutura particular: não se trata de um todo falhado, mas sim de uma entidade com uma estrutura diferente”. (Sinatra, 2013:34)

Acompanhando a leitura deste autor, ele compara esta posição de pensar a lógica do Não-Todo como um Todo falhado a mesma do menino, e também da menina, quando observam e comprovam a diferença dos sexos: eles não veem ali o sexo feminino, mas a ausência do sexo masculino. É este um momento de máxima angústia, no qual o sujeito infantil lida a partir de seu imaginário fálico, interpretando essa constatação como uma perda.

“Ao corpo feminino não falta ter o pênis, à menina-mulher não “falta” nada: é a leitura fálica no nome do pai que lê a sexuação em termos de falta, castigo e proibição”. (Sinatra, 2013:35)

Portanto, o que se situa do lado do “Não-Todo” é a impossibilidade de fechar o conjunto se estabelecendo não como incompleto, mas como inconsistente. O “Não-Todo” carece do limite que permite a exceção, como não há exceção, não existe a condição necessária para se estabelecer o universal, o todo não se constitui, assim, é preciso considerar cada mulher como única, uma a uma, numa série infinita.

Com efeito, pode-se destacar então que o modo de gozo contemporâneo não está mais determinado a partir da perspectiva do pai e de sua função de proibição, já não mais a partir da negativização do gozo, e sim a partir da sua positivação, “o gozo, o mais de gozar, tragou o Ideal: é a satisfação que rege o estado atual da civilização e não mais o Ideal”. (Sinatra, 2013:34)

Nesta mudança de cenário, ou seja, do universo fechado do pai, no qual as mulheres não encontravam um lugar de pleno direito, ao universo infinito do Não-Todo que leva o seu traço, como elas se localizam? Teriam um lugar mais “confortável”?

3 A “feminização do mundo” e o feminino

Pelo exposto acima já podemos perceber que a “feminização do mundo” não quer dizer atributos femininos, nem tão pouco se reduz a semblantes femininos.

Convém esclarecer ainda que, embora haja uma identificação masculina que dá consistência ao homem, o ser falante é “Não-Todo” e o lado feminino da fórmula da sexuação também lhe concerne.

No entanto, sem dúvida, esta é uma época na qual as mulheres alcançaram grandes conquistas nos mais diversos campos, não estamos mais na época da repressão sexual que era uma das causas do mal-estar e dos sintomas na clínica freudiana.

Porém, de acordo com Miller (1998), estamos na época dos impasses e para a mulher isso pode se apresentar na difícil tarefa de conciliar sucesso profissional, casamento e maternidade, ou os descompassos nas relações amorosas com uma queixa constante das mulheres “liberadas”, independentes, mas solitárias, que perguntam: “onde estão os homens”?

Miller (1998) faz referência a uma dificuldade contemporânea em relação ao amor, e associa a conquista dos direitos da mulher com esta dificuldade, justamente por elas quererem tratar as parcerias amorosas pelo lado masculino. A dificuldade é justamente que desse lado da fórmula da sexuação, o ato de amor é localizado a partir do gozo fálico na medida em que ele é autístico, sem Outro, ou seja, um amor sem amor que prescinde do Outro.

A tentativa de buscar soluções para seu ser de mulher pela via fálica é devido à ilusão de encontrar aí um abrigo, uma identidade. Do lado feminino não havendo delimitação de um conjunto fechado, o todo aqui não se constitui, ou seja, uma vez que as mulheres estão “Não-Todas” inscritas na função fálica, consequentemente, há algo de seu ser de mulher que não é significável. (Bessa, 2012:87)

Transitar pelo lado feminino é partir da constatação que A mulher não existe e, experimentar um gozo que não é civilizado pelo gozo fálico, um gozo mais além do falo que Lacan o define como sendo um gozo suplementar e que por não ter esta regulação a divide e pode converter sua solidão em seu parceiro. (Bessa, 2012:88)

Bom, mas então de que maneira se estabelecerá a relação com o Outro? É aí que Lacan reconhece a função do amor. O amor tem a função de estabelecer a conexão com o Outro, é o amor que faz suplência à relação sexual que não há. (Bessa, 2012:96)

Este é o sentido do apelo que Miller (1998) faz às mulheres:

“Seria necessário que as mulheres despertassem, mas que despertassem da boa maneira, não da mesma maneira que os homens. O que é preciso esperar é que, uma vez atingido um certo nível de igualdade, o movimento feminino utilize um outro canal que não o discurso jurídico. Em suma, minhas senhoras, amem-nos! (Miller, 130:1998)

É instigante pensar então que a saída para os impasses da mulher na contemporaneidade seja o amor. Porém já fomos advertidos por Lacan: “… o que eu digo do amor é certamente que não se pode falar dele”. Porém esta não é uma razão para calarmos, ainda mais porque, como psicanalistas, não cessamos de nos oferecer ao amor.

Referências Bibliográficas:

  1. ANDRÉ, Serge. O que quer uma mulher?. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1987.
  2. BESSA, Graciela de Lima Pereira. Feminino: um conjunto aberto ao infinito. Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2012.
  3. FUENTES, Maria Josefina Sota. As mulheres e seus nomes: Lacan e o Feminino. Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2012.
  4. GUIMARÃES, Leda. “Não se Apaixone”! A máscara da feminilidade contemporânea, Opção Lacaniana, 44. São Paulo: Eolia, 2005.
  5. LACAN, Jacques.O Seminário 20: mais, ainda (1972-1973). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
  6. MILLER, Jacques-Alain. O osso de uma análise, Salvador: Edigraf, 1998.
  7. MILLER, Jacques-Alain. O Outro que não existe e seus comitês de ética. Curinga, Belo Horizonte,n. 12, 1998.
  8. MILLER, Jacques-Alain. Uma fantasia, Opção Lacaniana, 42. São Paulo: Eolia, 2005.
  9. QUINET, Antônio. Os Outros de Lacan,
  10. SINATRA, Ernesto. @s Nov@s adit@s: a implosão do gênero na feminização do mundo. Florianópolis: Cultura e Barbárie, 2013.

Vídeo da VI Jornada de Psicanálise do CEPP – A moral sexual civilizada no século XXI

Disponível vídeo da VI Jornada de Psicanálise do CEPP produzido pela Caverna Audiovisual.

Se você estava presente, relembre alguns momentos, se não pôde ir, veja como foi.

Parabéns a todos do CEPP.

E mais uma vez obrigado Bruno Sanábio pela produção do filme.

Alguns apontamentos sobre o feminino no século XXI sob a ótica da teoria psicanalítica

Texto da psicóloga e psicanalista Marcela Fernanda de Souza para a VI Jornada de Psicanálise

A mulher, desde os primórdios da teoria psicanalítica, e mesmo antes da psicanálise, se; por exemplo consideramos que a mulher está intimamente ligada à noção de pecado original; é símbolo de construção de saber, visto que foram as histéricas que, ao serem escutadas por Freud e, mostrando que o sintoma de que padeciam, se encontrava além daquilo que se via nos corpos, subsidiaram a construção de uma teoria do inconsciente. Nota-se ainda, que, na contemporaneidade, as mulheres, histéricas ou não, obstinadas, permanecem convocando o analista a descobrir o sentido do sofrimento que lhes toma. Por vezes, apresentando o sintoma com roupagem mais sutil que nos tempos de Freud, as mulheres ainda demandam serem escutadas, ainda que no silêncio dos corpos.

Freud marca os anos iniciais da infância como um período crucial na incidência da estrutura psíquica do sujeito, considerando que naquele momento ocorrerá a escolha de objeto. Escolha esta, vinculada à relação triangular de amor estabelecida com as figuras materna e paterna (Freud, 1933 [1932] / 1996). Freud (1931/1996) marcará ainda que a diferença anatômica traz consequências psíquicas discrepantes para meninos e meninas e postula que as peculiaridades femininas tem consequências na formação de caráter e desenvolvimento da feminilidade da mulher.

Mesmo após sugerir que a construção da feminilidade perpassará a lógica intitulada “penisneid”, incorrendo que a mulher freudiana caracteriza-se como aquela que se contenta em dizer “obrigada” aquele que possui o falo e a toma como objeto de desejo (o homem),surgindo o filho como o objeto de satisfação para a mulher, na medida que o bebê incoporará o falo para a mãe; Freud se questionou “O que quer uma mulher?”.

Avançamos após Freud, mas o questionamento do que elas querem ainda surge para o analista. A clínica faz emergir a mulher contemporânea, que por vezes consegue gerir as escolhas em relação ao trabalho, inserida na lógica do capital, mas que padece de algo e faz demanda sobre questões relacionadas ao sexo, à falta, e ao Outro. Demandas que são direcionadas ao analista, seja no âmbito do setting analítico ou nos espaços institucionais de atendimento às demandas contemporâneas em que o psicanalista se faz presente.

Comumente elas surgem às voltas com o imperativo da pulsão, sem nada saber sobre o gozo que lhe invade, na busca de uma interpretação que solucione os impasses do existir. Ora, o que quer a mulher na contemporaneidade, considerando a pluralidade de ofertas de gozo? Ou ainda de quê a mulher sofre?. Tais questionamentos incorrem na contramão do imperativo de felicidade contemporâneo, pois, a mulher vem conquistando um lugar diferenciado no laço social ao longo dos anos. Hoje são detentoras de seus corpos, do saber técnico que as permitem até mesmo equiparação com os homens no mercado de trabalho, e tantos outros ganhos pulverizados no ideal de totalidade. Corpos inflados por suplementos alimentares, ou esqueléticos por comer nada, profissionais bem-sucedidas que procuram o analista para derramar – sim! A análise ganha esse sentido para muitas – suas angústias, seu sofrimento são despejados. Pois bem, de que sofre a mulher?

Suporíamos que a resposta a esta questão seria que a mulher sofre de amor, pois o que ela busca é o amor. Lacan (1972-1973/2008, p.51), sustentará que “O que vem em suplência à relação sexual [considerando que esta não existe, enquanto um encontro que possa ser representado ou escrito], é precisamente o amor”. Se o amor é a cura, em seu sentido de bem-dizer, a mulher contemporânea tem denunciado através de seu sintoma que ainda que “tudo” lhe seja ofertado, a falta se lhe apresenta direcionada ao amor.

Em momento anterior ao propor esclarecimentos sobre a interpelação “O que é ser uma muher?”, Lacan (1955-1956/2008, p.201, 205) aponta que a realização do sexo feminino ocorre de maneira distinta do homem, no Édipo, através da identificação com o que seria o objeto paterno, o que incorre em um desvio suplementar. E em 1973, reitera tal postulação atentando que o gozo feminino é suplementar e não complementar, uma vez que, se o gozo fosse complementar, estaríamos na dimensão do todo. Segue o dito de Lacan:

[…] Não há A mulher, artigo definido para designar o universal. Não há A mulher pois […] por sua essência ela não é toda. Nem por isso deixa de acontecer que se ela está excluída pela natureza das coisas, é justamente pelo fato de que, por ser não-toda, ela tem, em relação ao que designa de gozo a função fálica, um gozo suplementar. Vocês notarão que eu disse suplementar. Se eu tivesse dito complementar, onde é que estaríamos! Recairíamos no todo (1972-1973/2008, p.79).

Lacan nos dirá ainda que decorrente da dissimetria simbólica entre os sexos a posição da mulher constitui-se de maneira problemática, uma vez que ela não possui o falo, incindindo sobre ela a particularidade de ser não-toda no que tange a função fálica, o que significa que lá ela está, mas existe algo a mais (Lacan, 1972-1973/2008). É com esse a mais que a mulher deverá lidar, mas não é possível conceber um modo exato de assim o fazer, pois esse algo a mais é da ordem daquilo que lhe escapa. Ele nos diz:

Há um gozo dela, desse ela que não existe e não significa nada. Há um gozo dela o qual talvez ela mesma não saiba nada a não ser que o experimenta – isto ela sabe. Ela sabe disso, certamente, quando isso acontece. Isso não acontece a elas todas (LACAN, 1972-1973/2008, p.80).

Se o saber implica que haja algo da ordem do desconhecido ao sujeito, a relação com o saber implicará na relação com o gozo, e com o modo como cada uma lidará com esse mais de gozo. O amor entrará nessa dimensão, isto é, ama-se aquele a quem supõe-se saber algo, seja a castração, o amor ou o gozo. Miller (2010) nos dirá que a resposta ao saber pela mulher poderá ocorrer por duas dimensões: ser e ter. Na dimensão de ter incorre a maternidade, sendo que na dimensão do ser implica que a mulher fará semblante – ser o falo, para o homem. Destaca-se ainda que a maternidade poderá transcorrer em patologia feminina, uma vez que se transformando no Outro da demanda – a quem o filho dirige suas inquietudes – a mulher pode se transformar naquela que tem, por excelência. A dimensão do ser poderá ainda implicar em angústia pois trará a dimensão de lidar com aquilo que não se tem, lidar com o nada, o que a coloca na dimensão do semblante. Miller elucida:

A que chamamos semblante? Ao que tem função de velar o nada. Por isso o véu é o primeiro semblante. Como testemunham a história e a antropologia, uma preocupação constante da humanidade consiste em velar, cobrir as mulheres. De certo modo é possível dizer que as mulheres são cobertas porque A mulher não pode ser descoberta. De tal maneira, que é preciso inventá-la. Nesse sentido, chamamos de mulheres esses sujeitos que têm uma relação essencial com o nada. Trata-se de uma expressão prudente, de minha parte, porque todo sujeito, tal como Lacan o define, tem uma relação com o nada. Mas, de certo modo, esses sujeitos que são mulheres têm uma relação mais essencial, mais próxima com o nada (Miller, 2010, p.2).

A contemporaneidade traz como marca a queda dos ideias, dos semblantes; e a oferta incessante de objetos de gozo. Se considerarmos a mulher contemporânea a partir do dito de Miller, pode-se supor que há um enchimento e umtamponamento do nada com os objetos de gozo. Se outrora a mulher foi velada, coberta, vive-se hoje um descobrimento e uma mostração d’Ela. Os corpos que surgem através das roupas micro já não se preocupam em deixar algo a ser desvelado. Há um imperativo que diz: mostre-se! e elas, por vezes atendem a este apelo, pois ser “comportada”, “recatada” não está em consonância com a ordem.

Com a evolução no campo da cultura e do capitalismo surgiram novos modos de tornar-se e fazer-se mulher. A sexualidade feminina tem sido mostrada de maneira diferente, mudaram-se as imagens e os símbolos. Se há alguns anos a mulher seduzia através do velamento do próprio corpo, na contemporaneidade esse corpo é revelado de maneira espetacular.

Soller (2005) nos dirá de uma legitimação do gozo sexual mas chama a atenção para o fato de que isso não ocorre sem que haja conflitos entre as respostas encontradas aos impasses fálicos, o que sugere que a mulher “descolada” não sofre menos que a “recatada”. E a confirmação de tal assertiva se apresenta como apelo na clínica contemporânea, enquanto demanda por uma resposta que faça uma conexão entre o desconhecido estrutural e o imperativo de um saber fluído, intimamente ligado às imagens, que lhe surge. A autora (2005) se atenta ainda para a expressão emblemática do feminino, uma vez que se a mulher apenas “se deixa desejar” sua posição recobrirá a questão do desejo próprio. O que nos indica que tornar-se mulher não incorre em um assujeitamento, ainda que tal posição também faça parte da constituição do sujeito a partir do Outro; mas em um saber lidar com sua marca de ser não-toda. Tarefa árdua na contemporaneidade (mas outrora não foi diferente), mas não impossível. As construções em análise nos dirige para a invenção de um modo de lidar com o próprio gozo, o que subverte o imperativo de felicidade do capital.

Portanto, se são elas diversas, encantadoras e questionadoras no discurso ou através do próprio corpo, por vezes metamorfoseando entre a santa e a puta, são mulheres! Ou por assim dizer, podem se tornar mulher. A mulher, tal como Lacan nos diz, impossível de ser representada, tomada em conjunto,apenas pode ser compreendida uma a uma, através de sua relação com o mais de gozo que lhe toma. Então, torna-se mulher implica que ela possa consentir com sua marca não-toda e experimentar essa particularidade,inventar ummodo próprio de ser mulher. Sendo que, ao psicanalista que escuta as demandas da mulher contemporânea cabe subsidiar o encontro com essa mais, com vistas ao atravessamento dos questionamentos para o saber fazer com o excesso.

REFERÊNCIAS

Freud, Sigmund. Sexualidade Feminina (1931). In: _______. O Futuro de uma Ilusão, o Mal-Estar na Civilização e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 231-251. (Edição standart brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 21).

_________Freud. Novas Conferências Introdutórias sobre a Psicanálise: XXXIII Feminilidade (1933 [1932]). In: _______. Novas Conferências Introdutórias sobre a Psicanálise e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 113-134. (Edição standart brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 22).

Lacan, Jacques. O seminário, livro 3: as psicoses (1955-1956). 2 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

______________Lacan. O seminário, livro 20: mais, ainda (11972-1973). Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

Miller, Jacques-Allain. Mulheres e semblantes II. Opção Lacaniana online. ano1.num. 1. março 2010. Disponível em:< http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_1/Mulheres_e_semblantes_II.pdf&gt;. Acesso em: 31 jul.2015.

SOLER, Colette. O que Lacan dizia das mulheres. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

I Ação Dialógica do Vale do Aço

O CEPP apoia I Ação Dialógica do Vale do Aço do Grupo de Estudos Educare com o tema: “O mal-estar na contemporaneidade em 3 Tempos: saúde, educação e cultura“.

Mais informações nos folders da página.

Nos encontramos lá.

Folder aFrente e Verso

ERRATA: Seminário A lógica da Constituição do Sujeito – A criança, a mãe e o Outro

Devido o feriado do dia 12/10 e alguns pedidos o seminário “A lógica da Constituição do Sujeito – A criança, a mãe e o Outro” terá seu início no dia 17/10.

Mais informações acessar: https://ceppvaledoaco.wordpress.com/2015/09/25/seminario-do-cepp-a-logica-da-constituicao-do-sujeito-a-crianca-a-mae-e-o-outro/

O CORPO UTÓPICO E A MORAL SEXUAL “CIVILIZADA” NO SÉCULO XXI: Texto de aberturada VI Jornada de Psicanáliise do CEPP

Introdução

É com muita satisfação que dou as boas vindas aos participantes da VI Jornada de Psicanálise promovida pelo CEPP (Centro de Estudos e Pesquisa em Psicanálise do Vale do Aço). Desta vez, excepcionalmente, a Jornada foi realizada em parceria com o Conselho Federal de Psicologia (CFP), a quem agradecemos publicamente.

Prosseguindo com osPanfleto 1 estudos do nosso Centro de Pesquisa, pensamos mais uma vez em abordar nesse nosso evento bianual um tema que apresentasse relevância clínica, política e social para o nosso tempo. Assim, após abordarmos em 2013 “Ⱥ Política da Psicanálise e A Ciência”, ocasião em que discutimos o lugar da Psicanálise em um mundo marcado pela tentativa cientificista de capturar o sujeito numa malha utilitarista pouco subjetivante, elegemos como tema desse ano “A moral sexual civilizada no século XXI”.

Nossa proposta faz uma clara referência ao texto escrito por Freud em 1908, “Moral sexual civilizada e doença nervosa moderna” e a alguns estudos contemporâneos como os realizados pelo Laboratório Transdisciplinar da UFMG: Família, Parentalidade e Parcerias Sintomáticas, que tem como sua coordenadora a psicanalista Marcia Maria Rosa, nossa convidada especial nessa manhã. Nosso objetivo hoje é não apenas retomarmos o texto freudiano como recuperar também algumas proposições de Lacan sobre a sexualidade e rediscuti-las a partir de autores contemporâneos. Seguindo por esse caminho, sempre sustentados pelo saber psicanalítico, visamos nesta Jornada abordar os novos arranjos de gênero, de escolha objetal, de família e até mesmo da legislação vigente em nosso país.

Sabemos que a contemporaneidade vem se apresentando como um amplo campo de discussões a respeito da sexualidade. Após o acontecimento da psicanálise no início do século passado, a revolução cultural dos anos 60 e 70, a passagem de uma sociedade capitalista de produção para uma sociedade capitalista de consumo e o avanço da democracia na maior parte do mundo, novas maneiras de subjetivar e experimentar a sexualidade se apresentaram ou, em alguns casos, se afirmaram com maior força. Com essas novas maneiras de vivenciar o corpo e a pulsão sexual, surge também a demanda de novas interpretações e maneiras de abordar o assunto.

A psicanálise é por diversas vezes convocada a participar desse debate e por diversas vezes também é usada tanto como argumento para conservadores quanto como argumento para progressistas. Também na clínica o psicanalista é chamado a intervir cada vez mais em casos que fogem às experiências mais clássicas de subjetivação da sexualidade. Tanto na esfera política quanto na esfera clínica nos deparamos diariamente com questões como transexualidade, casamento entre pessoas do mesmo sexo, trânsito entre parceiros de ambos os sexos na adolescência, novos lugares do pai e da mulher na sociedade, novas (algumas nem tão novas assim) configurações da família e, na contramão desses fatos, um esforço reacionário de resistir e negar aquilo que já é uma realidade – o que foi o caso nessa semana da espantosa aprovação do Estatuto da Família, projeto que legitima a recusa do Estado brasileiro em considerar distintos arranjos familiares.

Todos esses debates sobre a sexualidade revelam uma disputa de poder sobre o corpo, pois os discursos que surgem desses debates tentam de alguma maneira apreendê-lo. Os discursos religiosos, políticos, sociais, médicos, psicológicos, psicanalíticos e tantos outros, tentam dizer o que é o corpo e com isso determinam o que podem e o que devem fazer esses corpos. É preciso, então, questionar como um saber sobre o corpo faz operar também um poder sobre o corpo. Essa relação entre saber e poder acaba determinando – para usar a expressão de Freud – a moral sexual civilizada de nossa época.

Nesse sentido, antes de iniciarmos oficialmente nossos trabalhos, gostaria de propor uma pequena reflexão sobre o saber e o poder que incidem sobre o corpo. Tocado por dois textos de Foucault e pela consideração do mesmo autor de que “o espaço é o lugar privilegiado de compreensão de como o poder opera”[1], proponho que, por alguns instantes, nos detenhamos nesse espaço onde a sexualidade acontece: o nosso corpo. A partir dessa reflexão, espero abrir novos caminhos de compreensão da relação existente entre saber e poder sobre o corpo e sobre a moral sexual civilizada que essa relação produz – tema maior do nosso encontro.

O corpo Utópico

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FOUCAULT, M. O corpo utópico, As heterotopias. São Paulo: n-1edições, 2013.

Em meados dos anos 60, o convite feito ao filósofo Michel Foucault para conferenciar sobre o espaço no Círculo de estudos arquiteturais de Paris, resultou em dois belíssimos textos que ganharam tradução recentemente para o português. Os textos Corpo utópico e As heterotopias mostram uma faceta poética do filósofo francês e apresentam reflexões sobre o espaço que podem nos ajudar a pensar a temática do corpo na contemporaneidade, tema que nos será muito caro no dia de hoje. Farei um breve recorte sobre as principais formulações de cada um desses textos de Foucault e de como eles podem nos ajudar a compreender os novos processos de subjetivação do corpo e a moral sexual civilizada do nosso século.

No primeiro desses textos, Foucault começa propondo-nos pensar o corpo como o contrário de uma utopia. Se a utopia, neologismo criado por Thomas More em 1516, representa um não lugar (ou: não + topos: lugar) ou lugar que não existe, o corpo seria a antítese disso, já que estamos sempre presos a ele:

“Posso até ir ao fim do mundo, posso, de manhã, sob as cobertas, encolher-me, fazer-me tão pequeno quanto possível, posso deixar-me derreter na praia, sob o sol, e ele [o corpo] estará sempre comigo onde eu estiver”[2].

O filósofo sugere então que todas as utopias seriam na verdade uma tentativa de negar o corpo, criando contos de fadas onde o corpo seria finalmente incorpóreo. O mito da alma seria assim a maior das utopias, pois a alma, em que pese todos os limites do corpo que habita, é livre e do corpo escapa para sonhar, quando dormimos, para sobreviver, quando morremos.

No entanto, deixando-se guiar pelos seus devaneios, o filósofo encontra alguns pontos controversos em sua análise. Pois o corpo, que é o contrário de um não lugar, também possui seus não lugares. O interior da cabeça, onde os sonhos ocorrem, é invisível, assim como é invisível a nuca, o dorso, os ossos, aliás, o corpo nunca é visto por inteiro. Só tenho acesso, a cada momento, a pedaços do meu corpo. O resto eu suponho, são não-lugares. À semelhança do que propõe Lacan em 1949, Foucault irá dizer que é somente no espelho que encontro um corpo mais próximo do que seria uma unidade. No espelho vejo o corpo em pedaços maiores, o corpo quase inteiro. Mas o espelho é, sobretudo, uma utopia. O espelho é exatamente um não lugar. A experiência de olhar-se no espelho é exatamente a experiência de colocar seu corpo num lugar que não existe: o interior do espelho.

Isso faz com que o corpo esteja sempre em outro lugar. Por isso, o corpo é constantemente marcado pelas vestes, adereços e tatuagens. Não é indiferente se sobre um corpo cai um biquíni, um hábito de monge, uma tatuagem de dragão ou um brinco de pena. Cada um desses signos transporta o corpo para outro lugar. Essas reflexões irão fazer com que o autor chegue a uma conclusão contrária a anterior. O corpo é sempre uma utopia: “Meu corpo está, de fato, sempre em outro lugar, ligado a todos os outros lugares do mundo e, na verdade, está em outro lugar que não o mundo”[3]. Mais do que isso, Foucault irá afirmar que o corpo é a utopia fundamental, pois é a partir dele que se orienta toda utopia. “O corpo é o ponto zero do mundo”[4]. É a partir dele que construímos noções como dentro e fora, direita e esquerda, abaixo e acima. “Meu corpo é como a Cidade do Sol, não tem lugar, mas é dele que saem e irradiam todos os lugares possíveis, reais ou utópicos”[5].

O corpo é, portanto, a primeira utopia e como utopia será sempre efeito de uma construção. A exemplo do que Simone de Beauvoir diz sobre a mulher, poderíamos dizer: não se nasce com um corpo, constrói-se um corpo. Por isso, Foucault lembra-nos que as crianças levam tempo para saber que têm um corpo. Da mesma forma, os gregos não possuíam uma palavra que designasse o corpo: “A palavra grega para dizer corpo só aparece em Homero para designar cadáver.”[6]. E o cadáver é outra utopia, ele só está onde e quando não mais estamos. O corpo, portanto, sempre dependerá de um outro lugar para se constituir: o cadáver para os gregos, o espelho para as crianças. Foucault ainda acrescenta uma terceira vertente para a constituição do corpo: o amor. Nas mãos do outro e sob seus olhares, o corpo toma forma: “O amor, também ele, como o espelho e como a morte sereniza a utopia de nosso corpo, silencia-a”[7].

As heterotopias

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Michel Foucault (1926-1984)

Já em As heterotopias, Foucault sugere que toda sociedade apresenta suas utopias. Mitos, lendas, cidades sem lugar e histórias sem cronologias. E o autor sugere algo mais: toda sociedade possui utopias que têm lugar preciso e real, situável no mapa. É o que o autor chamou de contraespaços ou heterotopia. Para ficar em poucos exemplos citemos o teatro, o cinema, o fundo de um jardim, a grande cama dos pais:

“É nessa grande cama que se descobre o oceano, pois nela se pode nadar entre as cobertas. Depois, essa grande cama é também o céu, pois se pode saltar sobre as molas; é a floresta, pois pode-se nela esconder-se; é a noite, pois ali se pode virar fantasma entre os lençóis; é enfim o prazer, pois no retorno dos pais, se será punido”.[8]

Esses contraespaços seriam ao mesmo tempo um lugar situável no tempo e no espaço e também uma série de não lugares. E se aproveitássemos essa referência para pensar o corpo também como uma heterotopia? Foucault não chega a incluir o corpo na sua lista de heterotopias, mas se estamos dispostos a estudar o corpo como um espaço, não seria essa uma ótima definição para ele? Lugar que não podemos fugir, sempre situado no tempo e no espaço ao mesmo tempo que é um lugar que comporta infinitos não-lugares. Assim, o corpo é como o palco de um teatro ou, para usar a analogia de Foucault, a grande cama dos pais.

O ponto zero do mundo e da moral sexual civilizada

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Sigmund Freud (1856-1939)

Vimos que além de pensar o corpo como uma utopia (ou uma heterotopia), outra consequência que podemos tirar de estudarmos o corpo como um espaço é pensá-lo também como “o ponto zero do mundo”, ponto a partir do qual giraria todas as outras utopias, heterotopias e lugares reais. Bom, isolemos um ponto um pouco mais consensual e trabalharemos com o corpo como “o ponto zero da sexualidade”. Será, portanto, a partir desse ponto (que pode ser entendido como uma heterotopia), que será disposta nossa sexualidade. O dentro e o fora do sexual, a direita e a esquerda, o abaixo e o acima. Mas, se o corpo é um contraespaço, então ele comporta uma infinidade de lugares e não-lugares sexuais.

Talvez seja por isso que Freud, ao discutir a moral sexual civilizada sugere que houve na história da humanidade mais de um tipo de moral e que elas se divergem. Em outras palavras, uma moral sexual civilizada sempre dependerá da utopia que o corpo assumiu, seja no espelho, no cadáver ou, principalmente, no amor. O pai da psicanálise sugere que não apenas houve diferentes construções morais sobre o sexo – portanto várias utopias para o corpo – como também indica que não temos nenhuma razão para reivindicar uma moral sexual universal: “Uma das óbvias injustiças sociais é que os padrões de civilização exigem de todos uma idêntica conduta sexual”[9]. É notável a conclusão a que chega o pai da psicanálise ao final de seu texto sobre a moral sexual civilizada de sua época propondo ali uma reforma:

“Certamente não é atribuição do médico propor reformas, mas me pareceu que eu poderia defender a necessidade de tais reformas se ampliasse a exposição de Von Ehrenfels sobre os efeitos nocivos de nossa moral sexual civilizada, indicando o importante papel que essa moral desempenha no incremento da doença nervosa moderna.”[10].                                                                                  

Em que pese todas as limitações e preconceitos da contemporaneidade para lidar com novos modos de subjetivação do corpo e do sexo, não podemos dizer que nenhuma reforma foi feita. Parece que a psicanálise contribuiu para que algumas mudanças acontecessem, mas a contemporaneidade demanda tanto da psicanálise quanto de outras abordagens um avanço ainda maior nessa reforma. Principalmente quando escutamos as vozes do conservadorismo que tenta forçar a qualquer custo uma contrarreforma.

Para um contraespaço, um Manifesto Contrassexual

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PRECIADO, B. Manifesto Contrassexual. São Paulo: n-1edições, 2014.

Podemos citar como uma das principais vozes que reivindicam o avanço dessa reforma da moral sexual civilizada, ou quem sabe uma revolução, o autor espanhol Beatriz Preciado. Para Maria-Hélène Bourcier, quando Preciado escreve seu Manifesto Contrassexual, ele toma “o corpo como espaço de construção biopolítica, como lugar de opressão, mas também como centro de resistência (…) o corpo é também o espaço político mais intenso para levar a cabo operações de contraprodução de prazer”[11]. De forma semelhante a Foucault, Preciado pensará o corpo como um espaço e sugerirá que o sexo é uma tecnologia operada nesse espaço. Dizer que o sexo é tecnológico, significa dizer que ele está do lado da techné e não da physis. Em outras palavras, o corpo é um instrumento dessa tecnologia. Mas não um instrumento que transforma o que é natural em artificial, mas um instrumento que cria tanto o artificial como a própria natureza. A tecnologia, para Preciado, cria o natural. Em outras palavras, a tecnologia do sexo inventa uma utopia para o corpo e mesmo quando chama essa utopia de natural, não deixa de situá-la como uma produção tecnológica. De forma ainda mais direta e clara, o autor completa:

“…o corpo é um texto socialmente construído, um arquivo orgânico da história da humanidade como história da produção-reprodução sexual, na qual certos códigos se naturalizam, outros ficam elípticos e outros são sistematicamente eliminados”.[12]

índice

Beatriz Preciado (Burgos, 1970)

Dizer que o corpo é um texto socialmente construído é encará-lo como um espaço aberto a várias utopias, portanto um contraespaço, uma heterotopia. Assim, o corpo seria um espaço que comporta várias utopias, como um palco de teatro. Por isso também, Preciado afirma que o saber sobre o corpo é no fundo performativo[13]. Dizer que um corpo é masculino ou feminino é performativo. Faz parte da utopia do corpo. Por isso podemos repetir que o corpo é como a já citada “grande cama dos pais”. Espaço onde construímos nossas utopias, mas que se encontra vinculado ao Outro. Não por acaso, Miller irá afirmar que a família é um mito ou um conto que dá forma épica à estória de “como o gozo que o sujeito merecia lhe foi subtraído”[14]. Assim, a família seria o meio que acolhe e insere a criança na cultura, contando de certa forma sua história, ainda que haja sempre um ponto de silêncio em toda família. Para Miller, o lugar do Outro se encarna na figura da família, o que nos convida a pensar que os pais são aqueles que oferecem sua grande cama para que o sujeito crie suas utopias e faça do seu corpo também uma heterotopia: lugar que não podemos fugir, situado no tempo e no espaço, mas ao mesmo tempo lugar que comporta infinitos não lugares. Como “a grande cama dos pais”, o corpo é céu e oceano, floresta e noite, prazer e punição.

Conclusão

Bom, fico por aqui e espero que essa breve exposição toque nossas reflexões e ilumine nossos debates de hoje. Afinal, temos uma Jornada de trabalhos significativa pela frente. A começar pela primeira mesa, que tem como tema principal A Feminização do Mundo, com os trabalhos das psicanalistas Cássia Túlio e Marcela Fernanda e do psicanalista Everton Fernandes.

Panfleto 2Logo após a primeira mesa de trabalhos, receberemos nossa já citada convidada especial, a psicanalista Marcia Maria Rosa Vieira Luchina, que nos falará sobre Novas estruturas elementares de parentesco: família, parentalidade e parcerias sintomáticas.

Após o intervalo para o almoço, retornaremos 13h30 para nossa segunda mesa de trabalhos quando abordaremos A família e a moral sexual através das apresentações de Virgínia Sanábio, Israel Tainan, Maura Gerbi Veiga e Fernanda Coelho.

Fecharemos nosso evento com a apresentação do nosso segundo convidado especial, o psicanalista Guilherme Massara Rocha, que nos deixará com algumas reflexões sobre A moral sexual civilizada no século XXI. Desejo a todos um ótimo trabalho e agradeço mais uma vez todos os participantes, ouvintes e palestrantes.

Boa Jornada!

 

Referências Bibliográficas

FOUCAULT, M. O corpo utópico, As heterotopias. São Paulo: n-1edições, 2013.

FREUD, S. (1908). Moral sexual civilizada e doença nervosa moderna. In: FREUD, S. Ed. Standard das Obras Completas de S. Freud, v 9. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

MILLER, J.-A. Assuntos de famílias no inconsciente. Revista eletrônica do Núcleo Sephora, v 2 n 4, mai a out, 2007.

PRECIADO, B. Manifesto Contrassexual. São Paulo: n-1edições, 2014.

NOTAS

[1] FOUCAULT, 2013, p.52

[2] Ibid, p.07

[3] Ibid, p.14

[4] Ibid, p.14

[5] Ibid, p.14

[6] Ibid, p.15

[7] Ibid, p.16

[8] Ibid, p.20

[9] FREUD, 1996/1908, p.177

[10] Ibid, p.186

[11] Boucier, 2014, p.13

[12] Preciado, 2014, p.26

[13] Ibid,p.28

[14] Miller, 2006, p.04

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