A verdade em psicanálise: uma contingência? (texto apresentado por Loren Alyne Costa no primeiro “Literatura Comentada” do CEPP dia 19/11/11)

Resumo: A partir de dois textos literários – “A carta roubada” de Edgard Allan Poe e “Para cada um sua verdade” de Luigi Pirandello – este artigo abordará de que forma é possível pensar a questão da verdadeem psicanálise. Sepor um lado, há uma impossibilidade de atribuir à verdade um conteúdo em si, por outro, é através do circuito ficcional que ela engendra que podemos localizar a verdade e sua relação com a contingência.

É falso ou verdadeiro? Realidade ou fantasia? Onde se situa a verdade? Foi a partir dessas interrogações que Freud formulou as primeiras hipóteses acerca do inconsciente. Se a princípio, ao escutar seus pacientes, Freud atribuía os sintomas a eventos ocorridos de fato na realidade, pouco a pouco ele foi se distanciando desta premissa. A teoria da fantasia já indica que a memória carrega algo de uma construção, uma elaboração posterior. Assim, Freud desiste de levar o paciente a recordar uma lembrança original e verdadeira, dando espaço ao que lhe é mais legítimo: o equívoco. O equívoco de um ato falho, de uma repetição, de um sonho, indica que a verdade do inconsciente só se apreende pelo circuito ficcional que ela engendra.

Lacan indica que a verdade tem estrutura de ficção e que “nenhuma linguagem pode dizer o verdadeiro sobre o verdadeiro, uma vez que a verdade se funda pelo fato de que fala, e não dispõe de outro meio para fazê-lo” (LACAN, 1998, p. 882). É por isso que o inconsciente é estruturado como linguagem e, se a verdade fala, é a partir de um encontro faltoso. Isto quer dizer que qualquer enunciado não tem outra garantia a não ser sua própria enunciação.

Sendo assim, se não é possível apreender a verdade em sua totalidade, ou, se da verdade só temos uma mentira, que posição adotar diante desse impasse?

Para problematizar acerca desta questão, ilustraremos com o conto de Luiggi Pirandello “Para cada um sua verdade” que apresenta esse problema.

 Trata-se de um homem de certo poder que se instala na cidade, num apartamento sombrio e misterioso. O homem era casado com uma mulher que vivia trancada no quarto e que trocava correspondências com sua mãe através de uma cestinha que subia e descia da varanda por uma corda.

A partir de então, toda a vizinhança se coloca a questionar este enigma, cada um dando a sua interpretação. As fantasias em torno do mistério começam a ganhar força e consistência de modo que todos têm a sua versão da história conforme aparecem novos elementos. Seria um homem que sequestrou a própria esposa? Uma mãe louca que deve ser mantida longe da filha?

A todo o momento eles descobriam novas provas: certidões de casamento, passagens tanto da mãe como do homem pelo hospício, relatos dos parentes. Contudo, a cada nova descoberta sobre o caso, pairava a suspeita de que as informações e documentos eram falsos. Enfim, não se podia saber o que de fato era a verdade ou ficção. Entre as juras da mãe e os relatos do homem, ficava sempre uma hiância que os vizinhos se exauriam de tentar completar.  A busca incessante de colher informações para se chegar a uma verdade concreta era constantemente retomada e falhada. Assim, sempre que se aproximavam de uma investigação verdadeira, mais a verdade se tornava nublada e distante, ambígua e contraditória, dando margem, novamente, a outras interpretações.

Laudisi é o único personagem do texto que não se inclui nas conjecturas e especulações a respeito do vizinho misterioso. Ele permanece incrédulo e tenta mostrar o quão inútil é querer saber a verdade. Nunca a saberemos e por isso a curiosidade seria uma tolice.

 “qual dos dois? Vocês não sabem. Ninguém sabe. E não é por essas provas, que afinal não existem, perdidas ou destruídas por um acidente qualquer, incêndio ou tremor de terra. Não! Porque tais provas foram destruídas por eles próprios, dentro de si, na própria alma, compreendem-me? Eles imaginaram ambos uma ficção que tem a consistência de realidade e vivem em perfeito acordo, reconciliados nesta idéia. Esta realidade, sim, nenhum documento irá destruir. Um documento poderia servir a vocês, para satisfazer uma curiosidade tola. Como não o conseguem, sentem-se condenados ao maravilhoso suplício de viver entre a ficção e a realidade, sem distinguirem uma da outra.”  (PIRANDELLO, 1917/2009, p. 118)

Os vizinhos queriam desvendar uma verdade absoluta, pautando as afirmações em suas crenças e simpatias. Laudisi insiste que tentar descobrir a verdade é tarefa impossível. Vemos que, por um lado, há uma crença na existência da verdade e uma busca por encontrá-la, e por outro, a afirmação de que a verdade não existe. Se partirmos do pressuposto que a verdade, cada um tem a sua, então não há o que fazer. É deste modo que o autor do conto, Luigi Pirandello, defende uma postura cética e conformista diante desse impasse. Para ele, uma vez constatado o caráter ficcional da verdade, não resta alternativa senão desistir de encontrá-la.

Porém, seria mesmo tolice tentar apreender algo da verdade? O que a psicanálise tem a dizer sobre essa questão?

Apresentando a mesma estrutura do conto de Pirandello, mas com ponto de vista diferente, o conto de Edgar Allan Poe, citado por Lacan, exemplifica de que forma a psicanálise se posiciona diante desse impasse.

Neste conto, que todos conhecem, também há um mistério. Onde se situa a carta misteriosa que ninguém sabe seu conteúdo?

Foi a partir de um deslize da rainha, que deixou exposta a carta que era para ser escondida, que o Ministro, com sua astúcia, toma posse da carta, percebendo que isso lhe traria grandes benefícios. Também visando os benefícios oferecidos pela rainha, o detetive de polícia contratado por ela se empreende a encontrar a carta no apartamento do Ministro. Busca que foi, apesar de minuciosa, completamente sem êxito. Novamente por um lapso, desta vez do Ministro, Dupin consegue a carta que estava como que esquecida, num lugar sem importância.

Percebemos que a carta anima o circuito mesmo que dela não tenhamos seu conteúdo. Não sabemos o que ela diz. Apenas sabemos que ela contém um segredo que não pode ser levado ao conhecimento do rei e que por isso tem grande valor. Ou seja, a carta/letra em si não oferece sentido. Lacan afirma que a mensagem, o saber, o sujeito vai articular por si só. Deste modo, o significante não é funcional, pois o que interessa não é o sentido da carta (ninguém a abriu e leu seu conteúdo), não há nada que nos indica a mensagem que ela veicula.

Também em Pirandello, a verdade sobre a mulher do vizinho não nos é revelada, mas serve apenas para animar a trama. Isto porque, de fato, não existia, assim como a carta, uma verdade a ser revelada. A mulher do homem misterioso, no fim do conto, revela que ela é justamente o que os outros querem que ela seja. Assim, há uma busca por encontrar a carta/verdade, mas, quanto mais se busca, mais se distancia dela. O que ocorre então é um esgotamento significante na busca de um significado, que fracassa e só circula pelo ponto cego.

Deste modo, enquanto para Pirandello, é vão tentar buscar a “verdadeira” verdade, para Poe, a verdade se mostra nas entrelinhas. Somente ao deixar que a carta se mostre contingencialmente é que é possível detê-la. Poe indica que para conseguir a carta, não basta ter o raciocínio lógico de um matemático. É preciso ter a sutileza de um poeta. Foi por isso que o Ministro conseguiu esconder a carta dos policiais.

Poderíamos dizer que o psicanalista também é este que se situa entre a formalização da ciência e a sutileza da arte. Entre a atenção de um investigador e um não saber que abre possibilidade para a contingência.

Não se consegue deter a verdade pela busca porque para sair do significante e chegar ao significado o sujeito deve fazer todo um percurso, um percurso pelo vazio, pelo furo. Ou seja, entre eles há uma hiância a se percorrer. Apreender algo da verdade é justamente enxergar essa hiância, esse equívoco, como fez o Ministro e depois Dupin.

Nesse diálogo citado por Freud e trabalhado por Lacan, vemos a forma em que a fala está submetida ao significante: Por que mentes pra mim dizendo que vais a Cracóvia, para que eu creia que está indo a Leinberg, quando, na verdade, é à Cracóvia que vais? (LACAN, 1956/1998, p. 22).

Percebemos que o significante traz um ponto implícito, para além da fala que determina a relação do sujeito com o outro. Tomar ao pé da letra, como fez o delegado de polícia no conto, deixa escapar o lugar verdadeiro da carta. Ou seja, o verdadeiro, está num ponto implícito. Não escondido, para que se possa encontrar. Tão pouco nas profundezas, imersa, em que é preciso escavar como um arqueólogo ou desvelar como um detetive. A verdade está justamente no acaso de uma carta esquecida, sobre a mesa, no que se furta quando se deixa aparecer. Está na fala, no que ela apresenta de mais ambíguo e incerto. A verdade é o que se coloca no ato mesmo da enunciação, como uma contingência.

Desse modo, na experiência analítica, o que conta não é que o significado está determinado, mas que o sentido escapa. O sentido que escapa se conecta diretamente com o furo. Há um pertencimento não entre o significado e o significante, mas entre o sentido e o furo. O sentido pode ser tomado sempre como preso em tonéis, como se expressa Lacan, a mercê do furo essencial caracterizado como o real próprio do inconsciente. Diante disso, resta ao sujeito a possibilidade de permanecer ‘eternamente’ tentando tamponar esse furo, numa repetição que sempre fracassa, ou de dar a ele um contorno próprio.

“Ao invés de dissipar os paradoxos, devemos nos deixar orientar por eles, já que o importante não é decifrar o sentido do problema, mas chegar ao ponto em que a consideração de seu impasse nos obriga a decidir. A verdade, assim concebida como função do impossível, não se deixa substituir pelo artifício ficcional, segundo proclama a argumentação sofística. Ela é antes o que obriga o artifício, ao forçar o sujeito, no impasse do simbólico, operar com uma peça sem conexão prevista.” (Teixeira, 2008, p.55)

Assim, a psicanálise não se coloca nem no lugar da ideologia que afirma a verdade em sua plenipotência, nem cai num ceticismo, em que o inefável resta como única resposta diante desse impasse. Ela opera com o semblante.

Referências Bibliográficas

FREUD, Sigmund. Lembranças Encobridoras (1899). In: ___. Primeiras publicações psicanalíticas. Edição Standart Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol.3. Rio de Janeiro: Imago, 1969.

IANNINI, Gilson. As palavras e a Coisa: sobre o caráter ficcional da verdade.

LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997.

PIRANDELLO, Luiggi. Para cada um sua verdade. Lisboa: Livros Cotovia, 2009.

POE, Edgard Allan. A carta roubada. (1838) In:___.  Histórias extraordinárias. São Paulo: Abril Cultural, 1978.

TEIXEIRA, Antônio. O mal estar no pensamento e o triunfo contemporâneo.  Revista: O all star na civilização

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